Terra Santa: o fogo desceu do céu

Lembro-me de quando era criança e ouvia da televisão o jornal a respeito da Faixa de Gaza. Lembro-me também de ouvir dos mesmos jornalistas, alguns comentários sobre atentados. Recordo-me de visitar minha avó e encontrar na casa dela o globo de vidro com as imponentes Torres Gêmeas que já não existiam mais em Nova Iorque.

Hoje, olho para os noticiários e vejo que tudo continua, mais de vinte anos depois. Duas décadas e o regime de medo e intolerância e fechamento ao diálogo continua.

Nisso tudo que tem acontecido, me ocorre o óbvio: não é que não existam soluções, mas as pessoas envolvidas não estão interessadas em solucionar nada. Guerras são ótimos mecanismos para manutenção de poder, e também de ascensão. Além disso, são oportunidades estupendas de negócios muito lucrativos. O mercado da guerra ainda é o mais interessante para quem queira lucrar, basta vender a alma ao diabo, afinal de contas, negócios são negócios. O ser humano ainda é homem.

Eu sei… dá nojo.

É nesse tipo de situação que me parece tão fácil entender, quase me colocar no lugar de Tiago e João quando pediram para Jesus descer fogo do céu sobre aquela comunidade de fariseus que não os recebeu adequadamente.

É quando se cai no erro de acreditar que se está do lado certo da história sem a menor sombra de dúvidas. De que um ser sozinho poderia resolver solenemente os problemas do mundo se estivesse sentado na cadeira de quem decide. Que esse alguém não hesitaria em mandar prender aqueles envolvidos nas guerras que abalam aquela terra; sagrada seja pelas religiões, seja pela história, ou pelo simples fato de que lá existem pessoas.

Esse alguém pode ser o “eu” ou pode ser um messias escolhido a dedo a partir das falas mais instagramáveis que o candidato a salvador tenha dito. Identidade forte. Referência. Liderança. Isso tudo nos falta, isso tudo temos buscado avidamente nos últimos anos. Melhor ainda, temos buscado alguém que faça a paz por nós.

Por essas e outras nesse mesmo caminho, muitas vezes é fácil olhar para o céu de Israel e perceber que o “não” recebido pelos apóstolos não bastou. A sede de vingança continua. Ainda somos carentes. E outros substituíram Tiago e João e, hoje, fazem descer fogo do céu, seja sobre Israel, seja sobre o Irã ou sobre a Palestina. Desce também à terra santa da Ucrânia, da Rússia, da Síria e de parte do norte da África. Nas favelas da América Latina, descem de um jeitinho mais costumeiro.

Todos, porém, queimam. Todos matam.

Imagino se um dia veremos um mundo em que o bélico tenha deixado de ser o argumento mais forte, dando lugar ao diálogo. Sonho com o dia em que teremos a tranquilidade de não precisar lidar com nenhuma onda de migrantes, porque não vão mais precisar fugir de suas terras para sobreviver. Como desejo que um dia cotas, bolsas e auxílios sejam assuntos muito ultrapassados, porque todos estarão bem demais para que isso seja uma necessidade a ser debatida.

A isso dou o nome de utopia. Minha esperança exagerada a um ponto quase fantasioso. Uma fantasia permitida aos idealistas, zombada pelos mais frios, respeitada pelos menos indecentes, partilhada por quem tem coração para ser empático. E é o fogo que eu espero que mais se alastre e desça sobre o mundo inteiro.


Imagem: criada com auxílio de Inteligência Artificial.

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