Curupira e a COP: quem anda mais para trás?

Para começo de conversa, deixo bem claro: eu amei o mascote da COP30. O curupira é uma ótima representação para a proposta do encontro de novembro. Como guardião das florestas e ícone cultural do Norte do Brasil, une o objetivo do encontro com a identidade de quem recebe o mundo para pensar o meio ambiente daqui para frente, portanto é perfeito. Mas ele vai além.

O curupira é uma criatura séria, e não tolera conversa mole para cima da causa dele. Na floresta e nos que moram nela, ninguém toca. Não existe meio termo. É decidido, é claro e faz acontecer. Na verdade, ele não é de conversa. A gente só sabe que ele existe porque ele faz as coisas acontecerem.

Já as Conferências para o Clima (COPs) tem sido motivo de descrédito há algum tempo pela sua incapacidade de fazer coisas concretas, de mudar o rumo do mundo, e melhorar a perspectiva de cuidado com o meio ambiente. Sendo bem franco, cada vez mais se percebe uma distância crescente entre as causas da ONU e a adesão dos cidadãos do mundo; não são mais todos que querem vestir a camisa da Organização.

A COP da ONU é um encontro entre pessoas reais. O curupira é um personagem de folclore. Tecnicamente, anda para frente, mas engana todo mundo porque seus pés são virados para trás, confundindo quem segue suas pegadas; ninguém sabe muito bem para onde vai o curupira.

Parece que, nesse ponto, faz sentido ele ser mascote da conferência: hoje, o caminho trilhado pela COP é algo bastante confuso. Discursos falam uma coisa, mas a realidade tem sido outra. Decepções com casos de corrupção que se escoram na causa do meio ambiente deslegitimam ainda mais a luta que já é polêmica e fraca por si própria. Acrescente-se a isso a incapacidade de muitos dos governos de primeiro mundo realmente tomarem uma atitude em prol do tema: parece que tem sido difícil para eles fazer qualquer coisa além de dar dinheiro aos países menos desenvolvidos. Terceirizar a responsabilidade pelo bem estar do mundo é muito confortável.

No fundo, o curupira bem que poderia ser mascote até da Seleção, mas seria um desperdício: Brasília tem muito mais chão para ele. Porém, faço aqui um alerta: isso seria uma ofensa para o personagem.

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