Sábado, 16 de agosto, o papa Leão XIV completou 100 dias no posto mais famoso do mundo. Como interessado que sou no assunto, pipocaram artigos e matérias em meu celular falando do marco. Para minha surpresa, o homem já recebeu suas primeiras críticas justamente por ainda não ter recebido crítica alguma.
Leão tem a sorte de navegar numa onda providencial de comodismo para o início de um papado. Diferentemente de Francisco, ele não assume o ofício nos meses subsequentes de um lobby na administração vaticana. Diferentemente de Bento XVI, ele não recebe o papado tendo de lidar com o choque mundial diante dos escândalos de abusos sexuais cometidos por membros da Igreja. Diferentemente de João Paulo II, ele não assume logo após a morte estranha de um predecessor que ficou apenas um mês no cargo. Longe da realidade de João Paulo I, ele não recebe as chaves de Pedro como o primeiro pontífice na era pós Concílio Vaticano II, que sacudiu, mexeu e transformou muito da identidade da Igreja Católica.
Bem pelo contrário: ele foi eleito papa num momento de tranquilidade pontifícia que não víamos desde há pelo menos 60 anos, quando Pio XII foi sucedido por João XXIII, o papa que inaugurou o Vaticano II. O mundo está um caos, é verdade, e Leão terá de lidar com as dificuldades para manter a unidade da Igreja, sim. Mas, sendo franco, não é exatamente essa a função do papa? Ser o apóstolo que preside a Igreja na caridade, desde a sua diocese, que é Roma?
A verdade é que estamos acostumados a associar os papas a grandes escândalos, seja por fatos jornalísticos, seja por fantasia. Imaginar os papas em cenas absurdas é um fetiche cultural há séculos, que engloba desde gravuras e piadas em círculos comunitários a obras literárias, cinema e televisão. O que dizer da própria Capela Sistina, que zomba do papa através das pinceladas de Michelangelo no lugar onde ele é escolhido pelo Espírito Santo?
Por perspectiva, para avaliarmos o papa Leão XIV, recomendo o cursinho básico das comunidades católicas: espere o primeiro ano. Aí sim, vamos colocar na mesa o que ele já fez do que recebeu de seus antecessores, afinal, ele não tem como (e nem tem porquê) fazer em cem dias o que governantes do mundo civil fazem ao longo de uma carreira de anos e períodos intensos de campanha: o papado tem um ritmo próprio e diferente.
Vamos avaliar. Mas, na hora certa. Leão, como o seu bom xará do reino animal, agora está quietinho a observar. Acredito que veremos o seu desempenho natural ao longo dos próximos 265 dias.
