Tempos Modernos, a música, já conta seus 43 anos. Ainda assim, somente neste ano de 2025, já escutei essa canção sendo tema de ao menos duas apresentações artísticas, ambas de jovens talentos.
“Por um lado”, pensei, “que legal! Ela é ainda muito atual”. Por outro lado, me preocupei, exatamente por ela ainda ser muito atual.
Não é normal que numa era de mudanças tão rápidas, em que mesmo músicas se tornam produtos facilmente ultrapassados, uma canção de quatro décadas ainda repercuta justamente entre os jovens, e interpreto esse fenômeno como algo ao mesmo tempo positivo e negativo e, com certeza, altamente relevante.
Positivo porque joga na cara de muita gente que talento não se grita, ele se infiltra naturalmente entre todas as camadas da sociedade, a tal ponto que, mesmo aqueles que não curtam a mensagem do talentoso, ainda assim, não há como negar a beleza de sua obra. E, no caso de Tempos Modernos, a beleza extrapola, e alcança a relevância de vidas concretas, que convivem com dificuldades e desafios reais que ela aborda. Do céu da poesia, aquela música faz chover realidade no chão bruto do cotidiano e, nisso, toca os corações e afeta relações de pessoas de carne e osso e comete o maior crime de todos: as faz pensar.
Por outro lado, vejo esse sucesso atemporal, meio a la Machado de Assis, como algo no mínimo preocupante. Afinal, uma solução só é interessante enquanto exista um problema que ela possa solucionar, os guardas-chuvas que o digam (se tivessem como). A música de Lulu Santos ainda fala de uma realidade que existe.
Quando Tempos Modernos ecoa com relevância em um ginásio cheio de estudantes que se sentem mencionados naquela letra, podemos tirar uma lição disso: o problema que afetou a geração anos 1980, persiste na era pós-pandemia de 2025, e nós continuamos olhando por cima do muro, por mais que o futuro já tenha chegado e passado. No entanto, o futuro de que fala a música, nem sequer dá sinal além daquele que o cantor viu em 1982.
Quando diariamente fico sabendo de atrocidades contra mulheres cometidas por serem julgadas menores que a dignidade de “seus homens”, ou quando ouço que alguém fez suas necessidades nas calças porque um gerente medíocre de um estabelecimento não foi empático o suficiente para indicar o banheiro, ou quando vejo uma filha que sequer cumprimenta o pai, seja o fato midiático ou corriqueiro o quanto for, acabo tendo a impressão de que, além de olharmos por cima de um muro, às vezes fazemos questão de nos escondermos atrás dele, de o utilizarmos como um escudo contra a realidade, mesmo que dela não haja como se esquivar.
Tudo pede seu preço; a evolução ou a falta dela, também. Hoje não temos mais o glamour de vestidos esplendorosos em festas da corte francesa, mas também não temos mulheres ateadas em fogo morrendo carbonizadas por conta da estrutura e material necessários para que elas conseguissem utilizar os tais vestidos. Evoluímos.
O interessante é que, enquanto houver apresentações que utilizem Tempos Modernos por ela ser relevante, estará escrachado em nossas vidas que ainda há muito o que evoluir.
Portanto, viva a vida! Viva a evolução e o andar para a frente. Viva o desafio de encarar o novo sem choramingar pelo que se foi. Viva o encontrar soluções de fundamento para desafios de hoje. Viva a nossa vez de fazer o muro mais baixo, o futuro mais próximo, o amor mais crível, porque “o tempo voa, amor, escorre pelas mãos”.
E o faz mesmo sem pedir licença, de fato, “mesmo sem se sentir”, afinal, “não há tempo que volte, amor”…
“Vamos nos permitir”?
