Se um trailer é o aperitivo de um filme, a língua de um povo é um trailer de seu futuro.
Há alguns dias, por curiosidade, me deparei com um áudio do presidente JK, ali pela época da inauguração de Brasília. Sessenta e poucos anos depois, a sua pronúncia me chamou a atenção por uma palavra específica: “interesses”, naquele caso, os “interesses da Nação”. O motivo? Ele pronunciava o segundo “e” de forma acentuada, lendo-o como se escrito “interésses”, assim como no jargão do icônico Brizola: “são os interésses!”.
E me perguntei se isso seria a pronúncia da época que mudou com o tempo, ou apenas uma coincidência de vício de linguagem, como o “mâs” pronunciado no lugar do “mas”, com o “a” bem aberto. Não descobri, na verdade, nem pesquisei, portanto ainda há uma dúvida no ar.
Com acento ou sem acento, eu sei que eu, há algum tempo, percebo que vivo num momento de transição na língua portuguesa, mas não faço ideia se isso se transformará em algo concreto ou apenas mais um erro crasso altamente persistente e disseminado. Refiro-me ao uso do verbo haver. Ou ao menos de uma das suas aplicações dele.
Não entro no campo de regras gramaticais, fico no da semântica, isso é, no significado das coisas: hoje usa-se o artigo “a” no lugar do “há”, verbo “haver”, e isso por parte de quem já está no Ensino Médio. Tudo bem, erros acontecem, eu bem sei, porque eu erro muito. Faz parte. Por isso mesmo, conforme tenho visto (por parte até mesmo de autoridades) textos em que fulanos informam que “a muito tempo, a um cachorro na rua”, me pergunto que tipo de mudança isso indica.
Talvez, a maior indicação é que o ensino em nosso país seja insuficiente (e, com certeza, ineficiente). Não sei. Mas de uma maneira geral, a língua portuguesa tem muito dessa flexibilidade: ela é muito mais um reflexo do povo do que um condicionador dele. Aquilo que se fala, com o tempo, tende a ser escrito, seja por mim, por vc, você ou por vossa mercê.
Viva nossa língua, nossa história, e a maneira como a contamos aos demais! Há muito que se viver, dizer e escrever.
