
DING DONG!
O artifício da modernidade garantia aos passageiros a nítida impressão de que certamente havia um sino dentro da estação.
O rapaz de cabelos negros e impecavelmente penteados aproximou-se cada vez mais da linha que separava pessoas vivas de uma morte certa. Ao menos enquanto o vagão não estivesse diante delas.
Um tremor de leve. Um friozinho na barriga.
Era ridículo! Como podia ser tão aterrorizante aproximar-se de uma linha de fita amarela grudada no chão? Isso estava errado…
Deu mais um passo.
Alguém o encarou. Pela farda cinza e o chapeuzinho pouco na moda, formando um conjuntinho nada discreto e menos ainda amigável, o homem soube se tratar do guardinha da estação. Que desagradável.
O moço dos cabelos pretos fez pouco caso.
“Eu te encaro e você sede um pouquinho, está bem?”, pensou, em negociata com a faixa estupidamente inerte.
E o guarda lá vinha, mais pertinho dele. Revirou os olhos!
– Você não pode passar dessa linha! – ele avisou, roboticamente.
– Onde está dito? – desafiou o cabelos pretos.
– Na faixa… – olhos estreitos. Ele desconfiou.
Era mesmo… era escrita numa faixa amarela “NÃO ULTRAPASSE”. E agora?
– Mas é pra não ultrapassar essa linha… Ou a linha que nos separa?
– Que?! – sentiu-se o gostosão. Mas era homem, então não dava.
– Você não acha que tem uma linha que nos separa? – a vitória foi garantida. Só mais um papinho e deu. Tudo resolvido.
– Acho que essa linha tinha que virar um muro!
– Grosso! – estreitou os olhos.
– O quê?! – o outro arregalou.
– O muro. Grosso! – atenuada a situação, um novo olhar em meio a constrangedora conversa. Cada um com seus pensamentos tentava entender o do outro.
Será que deu certo?
– Acho que até bem pertinho da linha, está bem bom… Mas cuida… algumas valem mais a pena que outras. – o guarda deu as costas.
– Oi, querido! – ela sorriu. Ela era a namorada do cabelos pretos. Um beijo e um entrelaçar de mãos.
Do guarda, um olhar estranhado.
Pela estação alguém sentiria a falta de uma jóia, jóia que estava bem na frente de um guarda distraído por um bobinho de cabelos pretos.
DING DONG!
Já não dava mais tempo! O trem chegava e tinham que partir para outra estação desafiar outras faixas.
