Não ultrapasse!

Crédito da imagem: Pexels.

DING DONG!

O artifício da modernidade garantia aos passageiros a nítida impressão de que certamente havia um sino dentro da estação.

O rapaz de cabelos negros e impecavelmente penteados aproximou-se cada vez mais da linha que separava pessoas vivas de uma morte certa. Ao menos enquanto o vagão não estivesse diante delas.

Um tremor de leve. Um friozinho na barriga.

Era ridículo! Como podia ser tão aterrorizante aproximar-se de uma linha de fita amarela grudada no chão? Isso estava errado…

Deu mais um passo.

Alguém o encarou. Pela farda cinza e o chapeuzinho pouco na moda, formando um conjuntinho nada discreto e menos ainda amigável, o homem soube se tratar do guardinha da estação. Que desagradável.

O moço dos cabelos pretos fez pouco caso.

“Eu te encaro e você sede um pouquinho, está bem?”, pensou, em negociata com a faixa estupidamente inerte.

E o guarda lá vinha, mais pertinho dele. Revirou os olhos!

– Você não pode passar dessa linha! – ele avisou, roboticamente.

– Onde está dito? – desafiou o cabelos pretos.

– Na faixa… – olhos estreitos. Ele desconfiou.

Era mesmo… era escrita numa faixa amarela “NÃO ULTRAPASSE”. E agora?

– Mas é pra não ultrapassar essa linha… Ou a linha que nos separa?

– Que?! – sentiu-se o gostosão. Mas era homem, então não dava.

– Você não acha que tem uma linha que nos separa? – a vitória foi garantida. Só mais um papinho e deu. Tudo resolvido.

– Acho que essa linha tinha que virar um muro!

– Grosso! – estreitou os olhos.

– O quê?! – o outro arregalou.

– O muro. Grosso! – atenuada a situação, um novo olhar em meio a constrangedora conversa. Cada um com seus pensamentos tentava entender o do outro.

Será que deu certo?

– Acho que até bem pertinho da linha, está bem bom… Mas cuida… algumas valem mais a pena que outras. – o guarda deu as costas.

– Oi, querido! – ela sorriu. Ela era a namorada do cabelos pretos. Um beijo e um entrelaçar de mãos.

Do guarda, um olhar estranhado.

Pela estação alguém sentiria a falta de uma jóia, jóia que estava bem na frente de um guarda distraído por um bobinho de cabelos pretos.

DING DONG!

Já não dava mais tempo! O trem chegava e tinham que partir para outra estação desafiar outras faixas.

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