Banquete solitário

Foto de Flo Dahm no Pexels

Era uma vez um garçom. Um homem escondido, fugido do mundo. Não que quisesse assim, mas assim estava ele. Sozinho, fugido do mundo.

Durante boa parte de sua vida viveu para servir um pequeno restaurante de sua vila. Desta vila, apenas lembranças para alguns ou mito para muitos outros. Do restaurante, então, deste ninguém sequer sabia da existência.

Aconteceu que, em determinado dia, o garçom solitário acordou predisposto a servir um banquete. Pôs-se em pé e olhou os escombros ao seu redor, naquilo que antes fora um quarto muito confortável. O seu quarto. Uma pergunta pairou no ar… A quem serviria o banquete?

Estava decidido! Reuniria todos quantos ele conseguisse pra servir um banquete de… De quê mesmo? Ele não tinha o que servir… Sem desânimo! Encontraria alguma coisa!

Animado, ele vestiu-se com sua melhor roupa, a menos carcomida, penteou seus cabelos com um pente de cinco dentes e borrifou generosamente em seu pescoço o vento de um vidro vazio de perfume. E saiu a cata de seu grande espelho.

E procurou muito. Como ele queria encontrar aquele espelho! Mas não o achava.

Então sua memória se fez viva outra vez. Algo doeu dentro dele e um frio polar percorreu suas veias e inundou os quase vazios átrios de seu coração. Ele já não possuía mais espelho, e não o possuía porque ele estava completamente esmigalhado.

Houve certo dia… Houve certo dia…

– Ah… – disse, pensando brevemente, enquanto sentia seu nariz subitamente entupido pela vontade momentânea de chorar. – Ânimo! Ânimo!

E lá se foi o garçom, ansioso pelo seu banquete, a espera de seus amigos que jamais tornaria a ver, dos clientes que jamais tornariam a colocar um centavo sequer em sua caixa registradora.

Saiu de seu quarto convencido de que esquecera-se para sempre de seu espelho moído. Correu em direção à porta de seu restaurante e bateu com muita força o sino que ele resgatou da igreja que ficou destruída logo adiante, no final de estreita rua.

Assim que ouvissem o barulho eles chegariam, os seus clientes. Foi assim, da última vez… Assim seria agora. E por isso ele esperou. Esperou até que o sol se punha outra vez e, de barriga vazia, roncando e dolorida, ele se despediu do restaurante.

Fez menção de apagar as luzes, mas não foi preciso. Elas já não existiam. Foi fechar a porta… Apenas puxou o que restou dela.

Subiu as escadas que davam para o segundo andar. Conseguiu se esconder ali da maneira mais segura possível, protegendo-se dos perigos da floresta à noite, e foi dormir. A dura realidade não o atraía. Era hora de dormir e viver seus sonhos!

Quem sabe amanhã ele coma, quem sabe amanhã ele os encontre…

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