Episódio um: “Hallelujah”

Eu acho isso tão estranho, querido. – disse um homem, do qual se podia ver o brilho dos olhos sob o fraco reflexo da lua, mas não mais que isso.

– Estranho? – querido respondeu. Uma nota tensa preencheu o vazio de ruídos da reserva. – Como?

– É que… – a voz do homem de olhos brilhantes vacilou. Foi possível notar um breve lampejar dos olhos daquele que ele chamou de querido. Aliás, um lampejo mais acima, porque ele tinha estatura maior, e era cheio de ambição.

– Pode dizer… – a voz pesada do querido tentou ser leve e tranquila. Sua mão percorreu o braço esquerdo do outro homem. E completou, em tom sedoso. – Pode me dizer. O que é estranho?

– O estranho é que o que vai colocar Alberion Valley no mapa… – e uma respiração inesperada o engasgou. Em um tom inegavelmente triste, ele terminou a frase – …É o que vai fazer ela sumir…

– Sabe… – visivelmente inseguro, o querido falou, ainda afagando o outro homem, desta vez em seu rosto, dando-se a liberdade de passar os dedos delicadamente sobre os lábios dele. Então ele disparou. – Às vezes parece que você quer dar para trás.

– Oi?! – surpreso, o outro homem não conseguiu conter-se, e riu, constrangido. Claro, já estava acostumado com as brincadeiras, mas, ainda assim, elas faziam ele se surpreender, por mais estúpidas que fossem.

O sorriso fácil, no entanto, desapareceu com a mesma facilidade e, antes que pudesse entender o motivo, o querido estava às costas do mais baixo, respirando profundamente. Foram vistos.

***

Três horas e meia mais cedo, quase 800 pessoas estavam reunidas em frente à Igreja Matriz, construída em honra de Santa Lúcia, mais de cem anos antes. Um monumento histórico ideal para a cerimônia da noite.

Um presépio enorme fora montado a um canto e ele servia de decoração para o palco. As cadeiras brancas preenchiam a Praça da Matriz e o espírito do povo era carregado do peso dos rumores de uma nova guerra civil.

– Ai! – resmungou Beatriz, incomodada com alguma coisa que seus filhos não sabiam o que era.

– O que é agora, mãe? – perguntou uma garota, revirando os olhos e deixando clara a sua insatisfação. Era Sara.

– Isso é jeito? – ralhou outra garota, de olhos estreitados por um falso sentimento de ofensa, aproximando-se da mãe. Era Analice.

– Ai, como vocês se merecem! – o outro membro da família baixou os ombros e virou sua cabeça para trás. Era Matias. Ele procurava alguma coisa mais interessante que suas três moças. Ou o coral.

Os três filhos de Beatriz. Os três Brothwell dos Brothwell. Os herdeiros da fortuna do Cavalheiro de Sua Majestade, filhos de Alberto Brothwell. Que, no momento, estava ocupado em uma conversa com outras pessoas ricas e chatas da cidade.

Enquanto eles se cutucavam e espinhavam por picuinhas, Christopher Laster, o noivo de Sara, se aprumava todo incomodado em sua cadeira, alguns metros adiante, esperando que ela surgisse o quanto antes. Sempre nervoso e infantil. Mas, ela gostava dele, disso Christopher tinha certeza.

Incomodado com Christopher, por outro lado, estava Richard Steward. Um olhar irritado, uma bufada quase na nuca de seu amigo e um pulo de Christopher.

– E…! – Christopher resmungou, percebendo a irritação de seu amigo. – Calma aí, Padrinho! Daqui um pouco a Sara vai achar que você é a minha noiva.

– Ah, vai! – Richard respondeu, áspero. – E, se você continuar agindo como a noiva, ela vai querer isso!

Uia! – obviamente ofendido, Christopher também fechou a cara e simplesmente virou a nuca para Richard.

– O que os dois estão se declarando? – perguntou Matias, surgindo todo sorridente, cutucando Richard nas costelas.

– Ai! Ai! – completamente mudado, com olhos saltando do rosto, Richard começou a gargalhar. – Eu te dou uma bifa, rapaz…!

– Sara! – Christopher disse, num tom falso de displicência.

Matias piscou animado para Richard, que ralhou com os olhos. Se os que estavam ali soubessem, haveria tragédias naquela noite!

Adiante, passando as fileiras de cadeiras, o presépio e o palco, reunia-se o coral de gente grande e pequena, prontos para o ato de abertura do show daquela noite.

Um frenesi coletivo tomou conta do grupo. A ansiedade penetrava os corações e fazia tremer as pernas, pesar os braços e cabeças. O suor já escorria pela testa de Nicolas. Era dele a missão de abrir o espetáculo.

As caixas de som ribombaram, quando a introdução com o tema do natal daquele ano iniciou. A cada grave, um novo arrepio percorria Nicolas inteiro. A vela em sua mão quase não parava.

O som atenuou-se, e o contínuo tilintar do efeito de sininhos, avisava: era chegada a hora. Os sinos de Natal repicavam alegres e Nicolas subia ao palco horrorizado. Do palco, podia ver que as luzes diminuíam para que todos grudassem nele seus olhos sedentos.

Então, como se tivesse sido feito para aquilo (e ele acreditava que sim), permitiu que as estrofes saíssem de sua boca. Com uma sintonia impressionante, enquanto “Hallelujah” alçava voo, adormecia, nos corações e mentes dos cidadãos de Alberion Valley, a sombra ameaçadora de uma guerra civil.

Nicolas exercia sobre a população de Alberion Valley uma espécie de hipnose, jamais entendida por Richard ou Matias. Nem mesmo Christopher compreendia tanta admiração por ele, mas seus amigos não sabiam disso.

Enquanto Nicolas cantava cheio de confiança o “Hallelujah”, Richard voltou sua atenção para efetivar o seu grande ato da noite. Saiu de seu lugar e falou baixinho ao ouvido de Matias.

Vamos! – e colocou sua mão quente por sobre o ombro de Matias, que o encarou surpreso, ainda assimilando o motivo do chamado.

Matias levantou-se de seu lugar e, com a ajuda de Richard, antes que Sara pudesse notá-lo ausente, já estava arrastando um atônito Christopher de sua cadeira e empurrando-o sob protestos pelo corredor de cadeiras brancas, todas ocupadas.

Olhares de indignação, escárnio, curiosidade, extrema curiosidade, alguns até vulgares, foram os lançados aos três. Christopher, naturalmente certinho, estava se mexendo como uma lombriga.

– Sossegue, homem! – ordenou Richard, dando um beliscão na cintura de Christopher.

– É, vamos logo! – concordou Matias, dando um tapa na bunda de Christopher, enquanto ria, feliz pela sua ousadia inédita. E fizeram uma curva à esquerda, sumindo da praça, esgueirando-se por uma rua estreita e escura, onde, dentro de alguns minutos, muitos casais se reuniriam às escondidas para exercer o amor secreto, conhecido por todos.

Mais uma curva e estavam os três longe dos olhares de qualquer cidadão de Alberion Valley. E, foi só quando estavam distantes dos olhares daquele povo, que Christopher notou algo errado.

Um movimento, e estava vendado. O som de um carro, as portas sendo abertas e o desespero por socorro.

– SOCOR… – TUM! Um soco e um “Cala a boca!” e Christopher estava quieto, em um carro em movimento, cego, apavorado, sentindo-se traído, confuso, quase sem saber respirar, sem saber de qualquer coisa…

***

– Vem! – cochichou Richard, enquanto se esgueirava em meio ao mato da reserva da represa de Alberion Valley. Ele segurava com firmeza um Christopher com mãos fortemente amarradas.

– É fácil dizer isso, né?! – reclamava, com olhos vendados, o noivo, completamente apavorado.

Em resposta, um silêncio pesado cercou-o. Podia ouvir estalidos, cada vez mais altos, mais próximos. Vozes cochichavam distantes. Seria uma humilhação pública?

Christopher sentiu a agonia tomar conta de seu corpo. Novamente, sua respiração se tornou algo externo a ele, seu coração parecia bater em outro corpo, seu cérebro parecia querer fugir. Seu estômago já dava sinais de cansaço, limites estavam sendo ultrapassados em demasia naquela noite… TLAC!

Um galho se quebrou. Christopher parou. Richard esbarrou atrás dele.

– Vai! – mandou Richard, irritado.

– Vamos, cunhadão! – Matias arrastou sua voz, à frente de Christopher.

A respiração de Christopher estava saindo do controle. De seu nariz saíam apenas algumas lufadas de ar dispersas. Matias olhou para Richard, que viu o receio de seu amigo.

– Calma! – Richard falou, ao pé do ouvido de Chrsitopher, o que foi pior. As frenéticas golfadas de ar de seu afilhado de casamento só fizeram aumentar. – Vai logo!

E os dois se puseram em uma corrida emergencial pelo mato, quase carregando um Christopher apavorado e prestes a sofrer de um infarto.

***

As últimas notas ecoavam pela Praça da Matriz, encantada com o canto sublime de Nicolas. As luzes se enfraqueciam e, como a plateia, pareciam se curvar diante do espetáculo das oitenta vozes, apagando-se serenas e cheias de efeito.

Uma explosão de aplausos encheu o, assim chamado, “Centro Histórico” de Alberion Valley. Não era possível menos que isso. A cidade ainda tinha uma lista enorme de coisas decadentes com as quais se preocupar. O coral, com certeza, não era uma delas.

– Ah… Sara? – chamou Adelaide, esticando a mão para tocar em Sara. Sua expressão era confusa. Desconfiada.

– O que, Ade? – Sara ainda sorria, mas logo percebeu que havia algo errado em sua amiga. Parou com suas palmas imediatamente e a encarou com a devida seriedade. Adelaide jamais ficava séria. Junto do frio em sua barriga, veio o reforço da pergunta. – O que foi Ade?

– Onde está o Matias? – Adelaide perguntou, apontando para o lugar vago no outro lado de Sara.

Sara se surpreendeu com a preocupação tola de sua amiga.

– Ah… Sei lá! – ela disse, francamente acreditando que ele namorava às escondidas no Bequinho do Amor.

– E o Richard? – Adelaide insistiu, apontando para outra cadeira vazia.

– Tem certeza que era ele, ali? – Sara perguntou, contorcendo seus lábios.

– E o Christopher?

Outro frio percorreu Sara.

– Está no Bequinho, também? – Adelaide provocou, alteando uma sobrancelha.

– Ai, meu Deus! – Sara estagnou. Seu rosto congelou, em uma completa falta de expressão.

As duas se puseram em pé, enquanto as palmas ainda soavam altas, fazendo com que a plateia inteira se pusesse em pé. Com dificuldade, as duas saíram de sua fileira e foram à cata dos garotos.

Correram por um dos corredores da praça, completamente esnobadas, e foram até o Bequinho do Amor. Esbaforidas, as duas investigaram cada centímetro da ruela.

– Adelaide? – chamou uma voz feminina, na ponta da rua que dava para a praça. Uma moça magra, alta e morena, com cara de perigosa, encarou Adelaide e depois Sara. – Sara?

– Sua louca! – xingou Adelaide, colocando uma mão sobre o peito. – Que susto!

– Rose! – exclamou Sara, aliviada.

– Vocês estão atrás do Chris, do Richard e do Matias?

Embora a intimidade de Rosemary não atraísse simpatia de Sara, ela se sentiu aliviada.

– Ah, sim… – ela respondeu, sorrindo constrangida. – E você viu eles?

– Sim, eu vi. – Rose respondeu sorrindo, se aproximando das duas. – E, se eu fosse você, entraria no carro o quanto antes, para que eles não escapem tão rápido da gente!

– Como? – confusa, Sara procurou por carro, mas não encontrou nenhum. Seguiu Rose e viu um carro estacionado a cem metros de onde estavam.

Mais uma vez, Sara via aquele par de olhos amarelos piscarem malandramente para ela. Era o carro do Vicente, pai de Rose, que provavelmente dormia àquela hora.

PAM. A porta foi fechada e, com um clique, sabia-se que ela estava trancada. Um ronco suave e o carro arrancou.

– E como estão os nervos para amanhã? – Rose perguntou, com aquele seu jeito intruso de escanear as pessoas.

– Ah… – Sara exibiu o melhor sorriso mal feito que ela tinha. – Não é todo dia que eu caso, sabe como é…

O sorriso amarelo foi suficiente para preencher todas as lacunas que haviam nos pensamentos de Rose. Madrinha, era verdade, mas nada como um bafafá!

***

Um zumbido começava a encher a cabeça de Christopher. O tremor quase incontrolável agora já não o apavorava tanto: ele nem sentia seus membros. Na verdade, sequer tinha ideia de como conseguia caminhar. Seu coração batia tão forte que poderia ser escutado lá na praça. Se bem que, o zumbido na sua cabeça, também. Então, ele parou. Ou foi parado. Não importava muito.

– Está pronto, Laster? – uma voz conhecida perguntou ao pé de sua orelha.

Um frenesi respiratório foi sua resposta. Ele não sabia ao certo, mas imaginava que algumas lágrimas já deviam ter marcado a pele de seu rosto. Uma mão agarrou o seus cabelos com rapidez e, quase sem ser notada, desamarrou o laço que segurava a venda que lhe cobria a visão.

O clarão tomou conta de seus olhos, uma ardência sem precedentes. Suas mãos foram soltas e ele as levou automaticamente aos olhos. O corpo todo encolheu. Seu coração parecia querer saltar pela garganta. Os olhos se negavam a enxergar o que estava diante dele. Após quase um minuto, estava costumado à estranha luz, e viu uma clareira.

Em seguida, muitas risadas, barulhos e pancadas, estranhos ao ambiente do mato ou de qualquer cena de crime que conhecesse… E ele não conhecia nenhuma.

Bobão! – um grito alcançou seus ouvidos. Era do Menegatti, o filho do granjeiro da Linha Bonita.

Abraços, socos em seus ombros, tapas na nuca, bagunça em seus cabelos, tapas em sua testa, mais risadas, gozações, piadas, cerveja em sua roupa, um copo mal arrumado em sua mão e seu coração se reacostumando com os batimentos saudáveis de uma pessoa normal.

Era a sua despedida de solteiro. Uma clareira, usada desde a infância de Christopher, totalmente decorada com inúmeras coisas bagaceiras que ele jamais tivera. E outras muito femininas para seu gosto. Que ele também, jamais tivera.

Mas, enquanto ele bebia, ria e tentava se acalmar, outra preocupação nascia em sua mente, tão preocupante quanto a possibilidade de um sequestro: e Sara?

Quilômetros atrás deles, Sara, Ade e Rose vinham furiosas pela estrada. Naquelas mulheres, isso era certo: traição não tinha perdão!

Passado algum tempo, Christopher não se conteve.

– E Sara? – teve de perguntar.

– Relaxa, Laster! – gritou Menegatti, abrindo um sorriso bobo, cheio de cerveja. – Todo homem precisa de uma despedida. Espera até elas chegarem…

Elas QUEM? – incontrolável, o pavor tomou conta de Christopher outra vez, fazendo seu copo de cerveja voar para qualquer canto ao se pôr em pé num só pulo.

– HAHAHA! – riu-se Menegatti, deixando uma boa dose de cerveja em sua camiseta. Um olhar levemente chateado. Tirou ela. Pronto.

É! – Christopher esfriou inteiro quando ouviu aquela voz. – Elas quem?

O silêncio pesou sombriamente na clareira. A voz da mulher ressoou como o estrondo de um trovão. Era Sara.

Amor? – chamou, dengoso, seu noivo. Tão rápido como o choque de receber sua namorada em sua despedida de solteiro, ele se encolheu como uma lesma ao receber um punhado de sal.

– SURPRESA! – gritou uma legião de meninas, saltando do meio das árvores, pulando sobre os homens em estado de choque.

– Ah, pronto! – resmungou Menegatti. – Só faltava essa! Tinha me esquecido da introdução…

– Cala a boca! – isso, junto do olhar ameaçador de Cristina, fez Menegatti exibir um sorriso muito polido e falso.

– É a festa de despedida de solteiro de vocês! – duas dezenas de bocas sorridentes se exibiam para o casal com cara de retardados, enquanto Richard fazia evidente o que já estava evidente.

– Vamos lá! Se animem! – e, sob esta ordem, a festa continuou. Simples, assim.

***

Quem imaginaria que, por causa de uma festa, um motivo de alegria, nasceria o luto para aquelas quarenta e duas pessoas reunidas na clareira da reserva?

Os únicos solteirões da festa eram Matias Brothwell e Richard Steward. Portanto, quando o casal mais importante da noite simplesmente sumiu, a ninguém mais coube a missão de caçá-los.

– Ah… Matias! – todo sem jeito, Richard se aproximou de seu melhor amigo para pedir socorro. – A tua irmã e o teu cunhado sumiram.

– Misericórdia! – com olhos arregalados, Matias vasculhou a clareira com uma rapidez incapaz de ser eficiente. – Se a mãe fica sabendo que a Sara deixou de ser pura antes do casamento, ela cai mortinha no chão!

– Eu também. – cheio de deboche, Richard encarou firmemente seu amigo constrangido. – Ela não lembra o que é essa pureza já faz um bom tempo.

– É, eu sei. Tem um grande motivo para ela ter aceitado se casar com o Christopher. – riu Matias, encantado com o sempre pronto deboche de Richard.

– Dois, na verdade. – outro olhar debochado.

– Tá. Eu sei. – foi impossível não lembrar o valor bancário que existia no afeto de Sara por Christopher. – Enfim. Eu e você. Somos só nós dois para achar esses safados!

– Sim… – rindo, Richard dava as costas para a galera que fazia festa sem nem notar os dois. – Outra vez, por sinal.

– Eu só espero não encontrá-los no ato, outra vez! – Matias se lamentou, contorcendo seu rosto.

Caminharam pelo meio do mato por vários minutos, mas nada encontraram. A certa altura, Matias teve a ideia de agirem separadamente. Ele para um lado, Richard para o outro.

Richard sempre se sentiu a vontade no meio do mato da represa. Sentir o ar da noite, misturado ao cheiro do mato umedecido pelo sereno, davam a ele a estranha sensação de conquistar o mundo.

E foi assim naquela noite. Cada estalido no meio do silêncio da floresta era um possível alerta de um encontro de amantes. Mas, cada passo dado em direção ao casal fujão era, na realidade, um passo a mais na direção de sua morte.

De repente, estava o rato na ratoeira.

Um som de vozes fez os olhos de Richard ficarem arregalados. Seus sentidos pareciam mais aguçados. Por um momento curioso em sua vida, Richard se sentiu como um cão farejador em alerta. Chegou a rir disso, sem a menor noção da importância daquele sinal.

Ele ficou parado, tentando entender de onde vinha aquela voz masculina, até que percebeu que ela parecia vir de algum lugar à sua esquerda. Descobriu ser atrás de um monte de terra, que se erguia impreciso, a cerca de cinco metros de distância. Era a sua chance de dar um susto nos dois namorados. Também de apreciar uma boa sacanagem.

Agilmente, ele escalou o pequeno monte em silêncio, cuidando-se para não ser visto sob o luar. Chegou ao topo e começou a espiar por detrás de uma árvore. E seu coração quase parou.

Com absoluta certeza, ele conhecia aquelas pessoas. Aqueles dois homens que conversavam com uma intimidade impressionante. Sem compreender como, Richard sentiu seu corpo inteiro congelar, desobediente. Mas, ele queria sumir dali, e sabia que essa era a sua única escapatória.

Enquanto não se movia, deixava que o suor escorresse por sua nuca, testa, peito e costas.

– Isso começa em Alberion Valley, e segue para as outras cidades que ficam na rota. – um dos homens falava, com o outro entre seus braços. Falava baixinho, mas sua voz ressoava plena, mesmo assim. Ele era mais alto que o outro.

– E depois? – o homem que estava entre os braços do mais alto, perguntou. Sua voz era a voz que Richard conhecia muito bem, mas ele não tinha coragem de aceitar aquilo.

– Aurora vai se afogar como o resto das cidades. E vai queimar. – aquilo parecia deliciar o homem mais alto, provocar uma espécie de excitação vulgar. E um arrepio percorreu o corpo todo de Richard. – Vai ser um inferno!

Richard não conseguiu ouvir o que o homem mais baixo falou, mas percebeu a tensão que surgiu no ar. E se apavorou com o comentário macabro do homem mais alto.

– É uma pena, mesmo. – ele riu em um sussurro que se espalhou pelo mato. – Eles cantam um “Hallelujah” impecável!

E cantarolou baixinho, para agrado do outro homem.

Halleluja… Hallelujah…


Imagem de destaque: Toni Cuenca / Unsplash.

1 comentário Adicione o seu

  1. Laura Ramos disse:

    O autor traz muito suspense nesta trama .Vamos aguardar o próximo capítulo.
    Valeu.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s