Episódio Dois: “Heróis, vilões, covardes. Eles.”

Matias parou. Estaqueado em frente a uma pedra alta. Soltou o ar de seus pulmões de uma só vez. E se escorou. Chocado com o que acabara de perceber.

– Só podia, mesmo! – ele encarava, do limite do mato, um casarão abandonado, distante uns setenta metros. Ele sabia onde os noivos estavam, e sabia o que estavam fazendo. – Que nojentos!

Ele espraguejou, sem nojo algum.

O mais rápido que pôde, sem pretender esconder sua ansiedade, ele saiu dali, voltando mato adentro, procurando por Richard.

Não precisou andar muito e ele viu seu amigo estranhamente agachado atrás de uma árvore, em cima de um monte de terra. Ele não podia perder a chance! Daria o susto merecido.

Distante poucos metros de Matias, o diálogo amoroso entre os dois homens desconhecidos fazia de Richard um abismado.

– Sabe… – visivelmente inseguro, o homem mais alto falou, ainda afagando o mais baixo, desta vez em seu rosto, dando-se a liberdade de passar os dedos delicadamente sobre seus lábios. Então ele disparou. – Às vezes, parece que você quer dar para trás.

– Oi?! – surpreso, o mais baixo não conseguiu conter-se, e riu, constrangido. Claro, já estava acostumado com as brincadeiras, mas, ainda assim, elas faziam ele se surpreender, por mais estúpidas que fossem.

Pé por pé, Matias se aproximou, subiu o monte e tropeçou, caiu de cara no chão. Não, discrição jamais fora o forte de Matias. Ele não sabia o que era isso!

O sorriso fácil, no entanto, desapareceu com a mesma facilidade e, antes que pudesse entender o motivo, o mais alto estava às costas do mais baixo, respirando profundamente. Foram vistos.

Antes que conseguisse entender o que foi que despertou o homem menor, Richard via diante dele um par de olhos vibrantes e determinados, profundos e cheios de maldade. Por um breve momento, daqueles olhos, o pior frio que já lhe atingira quase o congelou, mas um sopro do destino fez com que seu corpo se movesse por conta própria.

O som de um gemido, o olhar apavorado de Richard, um pescoço quase quebrando-se ao virar para trás e, então, os dois amigos estavam um ao lado do outro.

Corre! – Richard ordenou, enquanto fazia seu amigo ficar em pé, absurdamente desengonçado, quase levando os dois ao chão durante o processo e, então, já estavam em uma corrida desesperada.

Matias sentia que suas pernas pesadas simplesmente queriam afixar-se ao chão, teimosas, mas não mais que o dono. Corria e, ao seu lado, corria um Richard apavorado. Olhou para trás. Viu o lampejo de um anel dourado sacando do bolso uma arma de fogo, um par de olhos macabros e já não existia o que o segurasse. Determinado, não viu mais Richard, não viu mais árvores, nem perseguidor. Apenas o casarão à sua frente, esse era o seu objetivo.

Richard corria rapidamente, sua garganta ardendo, sua boca sentindo gosto de sangue, seus olhos vasculhando a floresta em busca de alguma saída que desse de frente para alguma câmera ou dentro de alguma casa da gente ricaça de Alberion Valley. Precisava de testemunhas, de provas.

O homem que os perseguia mal sentia o esforço da corrida. Pulava por sobre pedras e troncos caídos, inclinava-se diante galhos retorcidos e traiçoeiros, fixava seu olhar nos dois alvos à frente. Duas testemunhas que não deveriam ter visto o que viram. Enfiando sua mão no bolso, na ânsia de pegar sua arma, deixou uma pequena caixa escura cair.

Pouco tempo, e estavam, Matias e Richard, em um campo aberto.

Tamanho era o pavor de Matias que ele teve apenas coragem para uma coisa. Correr. Correr em direção ao casarão abandonado. Desapercebido, ele deixava seu amigo para trás.

Richard, apavorado, sentia que suas forças já lhe traíam.

E, como tudo sempre pode piorar, ainda havia a cerca de arame farpado entre a reserva e a casa. Matias pulou, quase sem ver, nem sentir o enorme rasgo que abrira em sua mão e na lateral de seu pulso.

Richard se agarrou de qualquer jeito, rasgando suas mãos em várias partes. Um apoio mal feito e estava no outro lado da cerca, de fato. E de cara no chão, sentindo o sangue encharcar sua língua e o nariz em fogo.

Frio e doloroso, o ar, antes de temperatura agradável, agora queria rasgar as vias aéreas de Matias. Mas faltava pouco. Sua visão já escurecia. Mas a porta estava muito próxima dele.

BLOFT! O som de Matias se estatelando na porta de madeira pesada ecoou pelo vale até a reserva.  A dor, ele quase não sentiu. Apenas continuou.

Richard viu seu amigo entrando no casarão, agora a salvo. Ele sabia o que fazer.

***

– AHH…! – o potente grito de Sara mal foi iniciado e já foi calado.

– Shhh…! – seu irmão tapava a sua boca, sentindo o suor escorrer por todo o seu corpo.

Christopher estava jogado contra uma parede escura, longe do campo de visão de Matias, o que o preocupou.

Christopher! – chamou, com seriedade. Em resposta, surge o seu cunhado, com as calças na mão, ainda com os olhos arregalados. O volume considerável que se projetava na calça poupava qualquer trabalho de investigação de Matias, que mantinha um dedo erguido na frente de sua boca e sussurrou, tremendo. – Fica… quieto…

Seus olhos não estavam menores que os de Christopher porque ele sabia o que vinha. Precisavam ficar quietos e sair dali.

Ele fez sinal com uma mão, ainda segurando fortemente a outra sobre a boca de sua irmã. Ele percebeu que o suor de Sara já se misturava com as lágrimas que começavam a rolar pelo rosto da moça, movidas pelo sentimento de vergonha e choque. A mensagem era clara: calma.

– Vamos para o esconderijo.

Com Sara liberta da mão de seu irmão, Christopher abraçando-as e Matias a gente, os três peregrinaram pela casa velha, deteriorada, no escuro, e apavorados.

– O que está acontecendo, Matias? – cochichou Christopher, o último dos três a chegar no esconderijo, enquanto se arrumavam o mais silenciosamente possível no pequeno espaço com uma parede de madeira.

– Eu… – e o rosto de Matias tornou-se um túmulo.

***

Muito distante dos acontecimentos do casarão, um grupo de baderneiros fazia festa em uma clareira. Entre eles, estava o casal Cristina e Menegatti.

– Não tem gente faltando nessa festa? – Cristina perguntou. Como sempre, ela era a mais atenta aos detalhes. O que, em meio a um bando de bêbados, se torna uma missão até muito fácil.

– Sei lá! – Menegatti riu, abobalhado. Cheirou com selvageria o cangote de sua namorada e deu-lhe um beijo estalado, o que não serviu de distração para o poderoso radar feminino.

– Tem alguma coisa errada! – ela resmungou, por fim. Juntou suas sobrancelhas e puxou seu celular.

Por mais de doze vezes, ela chamou o número de Sara. Finalmente, seu namorado, após reclamar muito, deu uma sugestão que prestasse.

Discou para o número de alguém mais responsável que os noivos.

***

O homem parou no limite da floresta. Por alguns instantes, apenas, então prosseguiu.

Richard já pulara a cerca e corria com seu sangue escorrendo calamitosamente pelo rosto, quando viu seu amigo entrar pelas ruínas do casarão adentro. Foi quando lembrou. Os noivos!

A engraçada desgraça chegou à sua mente como o bater de uma lenta e fina chuva de inverno nas folhas secas caídas no quintal de sua casa. Parece que, pela primeira vez, ser padrinho soou com algum peso de compromisso.

Sentiu a proximidade maligna do homem às suas costas, cada vez maior. Desta vez, natural, uma coisa certa. Inevitável.

Restou um olhar de despedida para a entrada onde Matias sumiu, o lugar secreto onde aqueles jovens se esconderam quando ainda crianças. Quase sessenta anos desde a virada do século, e eles ainda tinham de se esconder de varadas.

Fingidamente desesperado – e não tão fingido assim –, correu, sabendo exatamente onde se esconder. Enfiou-se casa adentro, dez metros à esquerda da outra entrada, poucos passos distante do homem vil.

Entrou em uma sala quase quadrada, que não dava para lugar algum. Três paredes de pedra, uma de madeira. Atrás dela, Richard sabia, escondiam-se os seus três melhores amigos.

Ele escorou-se na parede dos fundos da sala, que era de pedra. A um lado, a parede de madeira parecia gritar para que ele entrasse, mas antes que qualquer um dos três tentasse algo, ele olhou para uma pequena fresta.

Olhos refletiam a luz do luar. Juntando as sobrancelhas, Richard formou sua melhor expressão de seriedade e, imperceptível a olhares desatentos, ele balançou sua cabeça.

Ele olhou para cima, agora em cena, e golpeou três vezes a parede. Um murro, um tapa e outro murro. “Até mais”, no código dos amigos.

– Richard! – chamou. Não era Matias, ou Christopher, ou Sara. Era ele.

Sem resposta, com o celular na mão, Richard se virou para encarar o seu perseguidor.

– Não faça isso, garoto…

Mas Richard já o tinha feito. Já fora o número discado e era atendido pela emergência.

– Eu também sei quem é você… – o garoto tentou falar. Mas não pôde terminar.

O homem chegou até ele tão rápido que quase não foi visto.

No outro lado da parede, Sara respirou profundamente, apavorada.

Uma das mãos do homem tapou a boca de Richard. Um suspiro estranhamente externo fez, do homem, um confuso. Uma segunda mão fez a vida de Richard passar longe de seus olhos, travando qualquer pensamento: um cano frio encostado em sua cabeça.

O celular caiu no chão.

Dentro do esconderijo, outra mão tapava outra boca. Era Christopher que abafava o pavor de Sara ao ver o fim de seu melhor amigo e padrinho de casamento. Ela já não olhava mais pela fresta. Quem fazia isso, agora, era apenas Matias.

Naquele momento, cinco corações batiam, em uma distinta sintonia, quase abafando uns aos outros. Corações, ao mesmo tempo, heróis, vilões e covardes.

O homem estranho fez sua arma descer da cabeça de sua vítima, deslizando por um corpo tomado por espasmos de medo, então parou na altura do coração. Os olhos profundos esgotavam cada fonte de força que havia em Richard, então, repentinamente, algo mudou.

O som de ar sendo sugado assustou até mesmo o atirador. Foi Richard, apavorado, sem controle sobre sua própria respiração, enquanto seus olhos marejavam. Como alguém que é golpeado duramente, o homem estranho afastou-se poucos passos de Richard, após esmagar o celular pisando-o.

Ninguém ouviu disparo algum. Ninguém, tampouco, pensou que aquilo fosse se aproximar de algo tão aceitável como veio a se ser. Estranhamente – porque não havia outra palavra que definisse aquela situação e aqueles sentimentos – tudo parecia estar no lugar certo.

Richard simplesmente sentiu seu corpo ceder a uma força desconhecida, poderosa e atenuadora. Algo estava certo. E ele não estava sozinho. Tinha este consolo, isso ele tinha. Tinha quem choraria por seu corpo que esfriaria naquele nicho escondido. E aquilo fazia diferença para cada curva pelas quais se enveredou sua vida.

O estranho parou, já de costas para Richard. Ele olhou para trás.

– Fique tranquilo, garoto… – os olhos dele agora eram olhos tranquilos. – Nem tudo está perdido.

E ele se foi.

Se foi, deixando Richard encolhido, comprimido contra aquela parede de pedra.

E aquela imagem distante, do homem vestido de sombra, que caminhava para longe de sua vítima, já como um borrão, se tornava uma memória nublada, desfocada, sem vida…

***

A mão de Christopher caiu. Um uivo irrompeu, ecoou doloroso pelo vale. O assassino estava longe do alcance.

Foram necessários quase quinze minutos para que os garotos tivessem coragem de sair do esconderijo. Saíram. Deram a volta na casa, com medo, receio de serem emboscados em uma armadilha do atirador.

Não foram pegos porque não havia mais armadilhas. O que tinha de ser feito foi feito. Richard estava ali, a um cantinho, encolhido, com a cabeça caída sobre o peito, aparentemente sem vida. Uma poça de sangue se criou ao lado esquerdo da vítima. Suas roupas, embora fosse difícil de enxergar, estavam encharcadas pelo seu sangue.

Um estalo distante, nítido, e os três se encararam. Parecia ser um disparo de arma de fogo.

Corram…! – sussurrou uma voz fraca, quase tão distante quanto o som do disparo. Richard os advertiu.

Olhares apavorados, medo incontrolável e os três estavam em uma corrida desesperada rumo às suas casas.

Não foram necessários mais que dez minutos para que eles entendessem que estavam muito distantes do casarão, então iniciaram uma caminhada apressada, embora já não fosse uma corrida.

Finalmente chegaram a um lugar discreto, longe do casarão. Estavam sozinhos, eles sabiam disso. Estavam entregues às suas competências. E eram testemunhas de um crime macabro.

– O que a gente faz? – Christopher perguntou. Olhos fundos, distantes, confusos. Doloridos.

– O que você quer fazer? – a resposta foi de Sara.

– Meu Deus! – Christopher arregalou os olhos, encarando Sara. – O casamento é amanhã!

Um momento de absorção da informação. Christopher, ainda em choque, olhava para Sara, que expunha uma expressão de completa derrota. Matias, por outro lado, olhava para o horizonte, mais ou menos na direção do casarão. Uma agradável brisa os pegou de surpresa, lembrando que eles já se aproximavam do auge do verão.

– Nós não vimos nada. – Matias sentenciou, por fim.

– Para, Matias! – Sara, claramente chocada, encarou seu irmão, com fogo nos olhos. – Como assim, a gente não viu nada?!

– Sara, por favor… – Matias tentou iniciar com esforço tremendo estampado em sua face.

– Por favor, digo eu! – a irmã indignada ralhou. – Você viu quem era, você sabe quem fez aquilo com Richard…!

Sara! Cale – a – boca! – sibilou Christopher, olhando apavorado para a sua noiva. Mexeu sua cabeça, lembrando que estavam no meio da cidade.

– Sara… – Matias carregou toda a sua dor em sua voz. – Eu não lembro, eu não vi quem era.

Um momento regado pelo peso do silêncio cercou os três. Um momento de perplexidade.

– Como assim, Matias? – foi Christopher quem perguntou, visivelmente em choque.

– Eu… eu não lembro, Chris! – havia um elemento de verdade que se podia identificar na voz de Matias. E aquilo bastou para Chris e Sara.

– E, então? O que a gente faz? – a pergunta de Sara destilou sua frieza com especial rancor.

– Nada. – Matias deu a nota. – Voltamos para casa. Estamos cansados, vamos dormir.

– E eles não vão sentir nossa falta na festa? – Sara perguntou.

– Não sentiram antes. – respondeu Matias, com dureza, sem encarar sua irmã.

O peso daquela informação atingiu os noivos como um golpe, quase como o que atingiu Richard. Ainda assim, embora todos soubessem o que Matias queria dizer, o reino do silêncio foi quem venceu.

E, de comum acordo, os três deixaram a rua escura de onde partiram para a festa, e foram para suas casas, dormir.


Imagem de destaque: Foto de Aron Visuals / Unsplash.

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