Episódio Três: “In memoriam”

Naquela manhã, quando o vento bateu nas folhas dos pés de soja de Alberion Valley, ele soprou junto, para toda a comunidade, uma notícia tóxica, que contaminaria a todos os cidadãos.

Enquanto isso, em uma outra cidade, o assassino deixava um fluxo forte e quente de água cair sobre ele. De olhos fechados, permitia que a água forçasse nele uma massagem natural, que era tão capaz, que tirava qualquer sinal de estresse pelo qual pudesse ter passado.

***

Pedro Dunkle-Nacht, prefeito de Alberion Valley, estava acordado havia muito tempo. Sentava-se atravessado em uma poltrona em seu quarto, usando apenas uma cueca de cor branca. Olhava com um interesse descomunal através da janela de seu quarto. E ficou assim por muito tempo. Tempo o suficiente para ver o sol raiar em mais um sábado. Um dia nascia, mas a alegria de Pedro parecia cada vez mais morta.

O seu telefone tocou quando o sol já estava iluminando o seu quarto. Demorou, mas percebeu o aparelho e o atendeu, saindo de sua cadeira. Quando viu escrito no visor “Delegacia”, um frio percorreu seu corpo inteiro. Era a polícia.

– Bom dia, Delegado! – ele cumprimentou, olhando preocupado para a sua própria cama arrumada, sobre a qual uma caixinha preta jazia fechada.

O prefeito pretendia andar de um lado para o outro, mas deu tempo apenas para alguns poucos passos, quando ele ficou paralisado pela notícia que acabava de receber.

– Quando? – esbranquiçado pelo choque, o prefeito sentou-se em sua cama, encarando a caixinha. – E o que eu faço?

Assim que o delegado terminou a conversa, Pedro deixou o seu braço cair molengo em seu colo. Passou-se um longo tempo e o som da caixinha quebrando-se na parede ainda ressoava miseravelmente em sua cabeça.

***

Uma fita preta estava amarrada em uma das barras do portão da Escola de Educação Básica Rainha Elis. Um quadrinho pequeno informava que não haveria aulas, pois a escola estava de luto. Não fora um aluno ou pai de algum deles quem morrera. Foi um professor. Um querido professor, chamado Richard Steward.

Não demorou e, em frente à escola, que geralmente tinha aulas aos sábados, um acúmulo de flores, mensagens, fotos e velas passou a chamar a atenção. Uma câmera fotográfica seguida de outra, rodeada de vários celulares de gente chorosa.

Alguns quilômetros mais distante, outro punhado de gente e homenagens se juntava em frente ao Casarão, flashes misturando-se às luzes vibrantes das viaturas e comentários e cochichos aos sons das sirenes. Algumas câmeras de vídeo gravavam pessoas agarradas à microfones. Todos conhecidos.

Na praça central da cidade, onde antes houvera fileiras de cadeiras, um silêncio mortal penetrava os tijolos e cimentos. Não havia a habitual balbúrdia dos sábados matinais. Até porque, seria um grande desrespeito à família enlutada que morava logo em frente: os Steward.

Quadras adiante, outra família assimilava a notícia que acabavam de saber pela televisão. Eram os Brothwell. E, mais adiante, a casa dos Laster também se enchia de dor.

Fosse pela cidade, fosse pelo interior, notícias da morte de Richard Steward eram acompanhadas com atenção pela comunidade de Alberion Valley neste novo e sombrio capítulo da cidade.

***

– Chega, Sara! – ralhou Matias, enquanto enxugava, de seu próprio rosto, as grossas lágrimas que corriam determinadas: um pequeno sinal da dureza do que ele tinha de encarar.

– Matias… – estavam no quarto, sozinhos, os dois irmãos, tão fortemente abraçados que passavam a ideia de querer consertar algo. Neste caso, algo irreparável. – Ele podia viver, Matias! ELE PODIA VIVER!

– Eu sei, Sara… – a notícia de que Richard morreu pouco depois da chegada da equipe de emergência abalou ainda mais os dois irmãos. O fato de que Richard podia ter sido salvo era doloroso demais, mas inegável. – Eu sei.

No momento, apesar da dor que afligia Matias, ele tinha de aceita o pesado fardo que repousava sobre seus ombros. O fardo da mentira. Da covardia. Se, por um lado, a sombra da impotência assombrava-lhe quando da morte, saber que poderia ser feito algo o deixou completamente apavorado.

Mais que desleal, o trio foi miserável de uma forma imperdoável. E o estômago de Matias se embrulhava mais e mais.

O que restava a ser feito era aquilo que eles já vinham fazendo. Continuaram abraçados e, assustados, fugiram, afundando-se em um luto completo e dramático.

– Sabe o que me dói, Matias? – incrivelmente firme, Sara perguntou, engolindo o que pôde de seu choro.

– O que?

– Saber que, um dia, eu ainda terei de reconhecer que cada lágrima que eu deixei rolar hoje não foi pela morte de um amigo meu… – então ela inspirou e completou, entre soluços. – Foi pela morte que eu causei, Matias… Eu causei, meu irmão… Eu…

– Sara… – Matias queria dar uma resposta, e ele tinha, na verdade, mas sabia se tratar de uma peneira tão miserável e incapaz de tapar o sol que, ao menor vento, seria desfeita em fiapos. – às vezes o que nos resta é… Eu acho que é aceitar o que foi feito e… Quem sabe… Talvez… Aprender…

O soco que ele recebeu em suas costas, dado por Sara, deixava evidente que, de forma alguma, aquilo seria aceitável ou qualquer tipo de consolo. E, se fosse, apenas em um futuro muito distante.

No andar de baixo, quase imediatamente abaixo do quarto de Sara, a cozinha estava ocupada por Analice e Beatriz Brothwell.  Ambas sentadas à mesa olhavam chocadas para suas próprias mãos. As notícias não pareciam querer entrar em suas mentes.

– Sabe… – Beatriz inspirou, tentando organizar sua pergunta. – Sabe o que mais me impressiona?

Analice não respondeu com palavras, apenas ergueu suas sobrancelhas, em resposta.

– Foi ontem. – Beatriz respondeu, erguendo uma sobrancelha, como se estivesse fazendo ligações em uma investigação. – Foi na noite da despedida de solteiro de minha filha.

– Ah, mãe! – a garota não se conteve, surpreendendo sua mãe com o tom irritado. – Me poupe! Podia ter sido em qualquer dia! Não é pelo casamento da sua filha!

– Não, não! – agora irritada, Beatriz encarou com profundidade os olhos de sua filha mais nova. – Não é a isso que eu me refiro, filha. Foi durante a festa de despedida de solteira de sua irmã… E o padrinho foi encontrado centenas de metros longe da festa… Morto. Como?

Um silêncio se abateu sobre a cozinha. Não um silêncio qualquer, tampouco de luto. Um silêncio de choque. Uma dúvida fora implantada.

– Como assim, mãe? – Analice perguntou, agora interessada no assunto da mãe.

– O Richard, você sabe, – Beatriz agora olhava receosa para a entrada que dava para a cozinha. – sempre foi mais próximo do Matias e da Sara. Ele é padrinho… Era, meu Deus…

– Continue, mãe! – Analice ralhou, irritada.

– Sim. – recuperada de seu pequeno choque de realidade, Beatriz continuou. Um nó na garganta, então as palavras saíram. – Ele… Ele era padrinho, minha filha! Um padrinho, ainda mais um como o Richard, não sai de uma festa desse tipo por qualquer motivo!

– O que você está sugerindo? – um arrepio seguido de um formigamento nas costas e pernas de Analice indicavam que ela estava ficando excitada pela informação. E o sentimento a agradou.

– Eu não estou sugerindo nada, filha! – Beatriz percebia o fogo perigoso nos olhos de sua filha. Era conhecida daquele fogo diabólico havia muito tempo. – Eu estou apenas… Dando-me o direito de questionar.

– Ah, sei… – Analice não desistiria. – Questionar o motivo de Richard estar tão longe da festa de despedida de solteiro de seus melhores amigos?

– Isso. – concordou Beatriz. Mesmo assim, algo ela escondia muito bem dentro dela.

– Numa noite em que a cidade só tinha olhos para a Cantata? – Analice lançava o seu veneno.

– Sim. – Beatriz sentia-se cada vez mais cercada.

– Quando o único motivo para ele sair da festa seriam os próprios noivos ou o seu melhor amigo, o Matias?

– Chega! – Beatriz se admirava com a capacidade de sua filha captar os seus pensamentos, mas aquilo ia perigosamente longe demais. – Isso termina e fica aqui. Estamos entendidas?

– Sim, mãe. – Analice mentiu, sentindo sua língua desprender um saber delicioso de vitória. – Aqui.

***

Christopher estava jogado em sua cama em uma posição completamente desconfortável. Olhava para o teto enquanto ouvia seus pais conversarem avidamente no lado de fora de seu quarto.

TOC. TOC.

– Entrem. – Christopher pediu, sabendo o assunto.

– Filho… – Janice não parou de falar por ver o seu filho na cama daquele jeito. Ela parou quando viu o celular jogado ao lado da cabeça de seu filho, que tinha um rosto tão pálido que chegava a assustar. – Filho, você… Você…

– Sim, mãe. – o sim mais contundente dado em toda a vida de Christopher, com certeza foi aquele. Talvez, por não ter havido muitas chances de isso se repetir.

– Filho, escute… – Jonathan Laster iniciou a conversa. Sabia ser melhor que sua esposa quando o assunto era Christopher. E aquilo não era grande coisa. – Como você está?

– Como você acha, pai? – o rapaz respondeu, rancoroso. – Meu padrinho morreu!

– Ah, bem… – disse Janice. – ele foi morto, filho, não foi uma coisa que nós podíamos evitar…

MÃE! – urrou Christopher, abismado com a incapacidade de sua mãe calar a boca.

JANICE! – Jonathan ficou sem movimento ao ouvir sua esposa dizer aquilo. – Sai! Sai, Janice!

– Mas o que é isso…? – visivelmente indignada com a reação dos dois homens, Janice tentou protestar, mas seu protesto foi atropelado por seu marido.

Sai daqui A-GORA! – de rosto em chamas, Jonathan ralhou sua esposa com todo o vigor e autoridade que pôde reunir em uma frase.

Enquanto Janice saía, lançando o olhar mais duro e cheio de desprezo que conseguiu invocar, Christopher olhava para todos os lados enquanto se colocava sentado em sua cama com o celular em sua mão. A porta de seu quarto foi fechada.

– Nós ainda não contamos para Rebeca. – informou Jonathan, aproximando-se de seu filho. – Eu não consigo imaginar como você está se sentindo agora, filho, mas estou aqui para te lembrar que você pode contar sempre comigo.

– Ok. – respondeu, sem empolgação, Christopher. – Então me ajude agora, pai.

– O que foi? – a pergunta pegou o homem de surpresa. O comichão em sua pálpebra esquerda não deixava passar em branco. Algo estava errado em seu filho. E isso ia além da morte de seu padrinho de casamento.

– O que eu devo fazer agora? – a pergunta soou decisiva, mas incompleta.

– O que você deve fazer agora a respeito de…? – deformando o rosto na tentativa de parecer menor que seu filho, Jonathan tentava entender o rapaz.

– Com o casamento. – Christopher respondeu com uma voz segura e cristalina. – É hoje.

– Sim, o casamento. É hoje, o… – então, ele entendeu. – Ah, sim! O casamento.

– É. O casamento.

E os dois ficaram sentados na cama de Christopher, olhando para a porta por onde Janice acabara de sair.

– Nesse caso, filho… – a voz de Jonathan quebrou o duro silêncio. – Ah… Um sacrifício deverá ser feito. Você vai ter de sacrificar alguém.

– Quem eu devo sacrificar? – Christopher sabia a resposta. Mesmo assim, tentou.

– Você se lembra das vezes em que eu te disse que algumas coisas, algumas decisões, apenas você poderia tomar?

– Sim. Eu lembro.

– Essa é uma delas, filho. Você deve decidir quem será sacrificado.

***

O telefone tocou na casa dos Brothwell. Beatriz atendeu.

– Bom dia, Catarina. – ela olhou cansada para sua filha mais nova, que revirava os olhos. – Não, Catarina, o casamento não foi cancelado… Não… Catarina! Eu… não… sei!

E desligou o telefone.

– Deixa eu adivinhar… – Analice tentou iniciar, mas foi logo cortada pela sua mãe.

– A Catarina é irritante! – ela xingou, fazendo amplos gestos com as mãos.

– Mãe? – Analice percebeu algo que, aparentemente, nem sua mãe notara. Quando Beatriz finalmente olhou para Analice, a garota falou. – E o dia recém começou.

Analice mal terminou de falar e teve de se calar. O telefone, outra vez.

– Alô! – mais irritado, desta vez, o tom de Beatriz expressava todo o descontentamento dela. – Ah, desculpe, Christopher, querido!

– Ui! – cochichou Analice, fazendo careta.

– Tem de ser agora, querido? – continuou Beatriz, seus olhos expressando toda a tristeza que o momento pedia. – Sim, eu entendo. Mas é que ela está completamente desfeita lá em cima… Eu… O quê?!

Uma expressão de desespero tomou conta do rosto de Beatriz, assustando até mesmo Analice.

– Eu… Meu Deus, Christopher! – a respiração de Beatriz era intensa, e ela colocou sua mão livre sobre a testa. Alguma coisa estava errada. – É terrível, eu sei. Mas eu concordo. Eu te entendo, e acho que… É. Não tem o que fazer… Sim, pode contar comigo. Sim, eu ligo quando ela estiver mais calma.

Analice olhou para sua mãe com olhos arregalados. Um misto entre curiosidade e medo ocupava todos os espaços livres na mente de Analice.

– O casamento foi cancelado.

Analice manteve-se imóvel na cadeira onde estava sentada.

– Ele foi rápido, né? – ela encarou sua mãe, que também estava chocada.

– Para quem acabou de receber a notícia ele está bem adiantado, mesmo… – e, ao perceber o tipo de pensamento que ocorria na mente de Analice, Beatriz logo mudou o foco.  – Talvez ainda não tenha caído a ficha.

– É. Só pode, mesmo… – concordou Analice, toda desconfiada.

Outra vez o telefone de Beatriz chamou. Ela suspirou, fechou os olhos, então atendeu.

– Sim? – ainda com os olhos fechados, ela ouviu a mensagem. E, de um clique, ela estava de olhos arregalados e seu rosto já se moldava em uma expressão condolente. – Ah, sim. Acho maravilhoso! Contem comigo!

Outra vez o telefone estava desligado e Analice nas pontas dos pés.

– Me diga uma coisa, filha. – os olhos de Beatriz fitavam o vazio. Ela acabara de perceber alguma coisa.

– Diga, mãe. – o olhar desconfiado de Analice era perturbador.

– Quem está com os Steward, agora?

***

Chegar à casa dos Steward, sabendo o que deveria ser relatado a eles não era o ideal de mais um dia feliz de trabalho. O Delegado Eugênio Rodrigues estacionou o seu carro em frente à residência de dois andares no centro da cidade, em frente à praça com as mãos tremendo.

Olhou ao redor e confirmou a suspeita de que não teria plateia alguma para a situação dolorosa, pois a praça ainda não tinha sido liberada para o público, já que o palco continuava ali. Cerrou os punhos e respirou profundamente, carregando sua alma de algo que pudesse ser entendido por coragem. Sem saber onde, ele a encontrou. Ergueu o rosto, abriu a porta da viatura e saiu, fechando-a com determinação.

Enquanto caminhava em direção a casa, observou, não pela primeira vez, os detalhes das janelas pintadas de verde escuro em contraste com o branco das paredes da casa rodeada por plantas altas e frondosas. Provavelmente esta seria a última vez em que veria naquilo a alegria de uma família feliz.

Passou pelo portãozinho de madeira de utilidade basicamente estética. Sentiu o frescor do pequeno jardim, cheio do aroma daquela vida floral. Subiu os degraus da pequena área, sentindo suas pernas cada vez mais fracas. Seu estômago se retorcia diante do pavor de enfrentar pais desolados. Ergueu sua mão à medida que respirava profundamente outra vez. Tocou no botão da campainha.

O som estridente ribombo pelo seu corpo naquela manhã atipicamente quieta. Alguns minutos se passaram até que ouvisse um “Já vai!”, outra bomba ressoando pelo interior daquele homem.

A porta se abriu.

– Senhor Steward? Posso entrar?

Evidentemente, a conversa não seria longa. Mas seria suficientemente dolorosa para as próximas gerações daquela família.

– Entre, Delegado. – Inácio Luis Steward vestia um pijama azul escuro e chinelos de dedo. Sua expressão era de pura confusão. – Ah, e se for possível, por favor, me chame de Inácio. Me sinto menos… Ah… pressionado.

Ao entrar, Eugênio sentia-se tão desconfortável quanto o anfitrião. Aguardou que ele fechasse a porta.

– Como quiser, Inácio. – Eugênio respondeu com o máxima de gentileza que conseguiu. – Podemos, quem sabe, ir à biblioteca?

Por mais estranho que parecesse aos plebeus do reino à época, ter uma biblioteca era um grande motivo de orgulho para Inácio e, como bom amigo, Eugênio a conhecia muito bem. Tudo o que havia de sério na vida de Inácio Steward era discutido ali. E, para lá eles foram, com um Inácio cada vez mais intrigado a frente.

– Inácio, eu sei como você tem se dedicado à nossa cidade. – Eugênio iniciou sua conversa no momento em que Inácio fechou as portas. – Você sempre teve o meu apoio e sempre o terá. Acho que toda a cidade também.

– Eugênio, o que houve? – de uma hora para outra, Inácio percebia não ser tomar o café da manhã o motivo que trazia o delegado à sua casa. – O que você está fazendo aqui às seis e meia da manhã?!

– Eu sei que, geralmente, é você quem diz isso, mas… Sente-se, Inácio.

– Por quê? – duro, Inácio não aceitou a ordem de seu amigo, o Delegado.

– Inácio… – cada vez mais travado, o delegado sentia suas forças minarem. Conhecia seu amigo, e temia não haver outra escapatória, senão a dura e simples verdade.

Por longos segundos os dois se enfrentaram em uma batalha de olhares e convencimento. Reconhecendo a derrota, disse o delegado:

– Porque o seu filho foi encontrado no Casarão, Inácio. – o delegado deixou saltar de sua boca. Já estava bastante estressado pela situação para ter de engolir o orgulho de seu amigo.

– Fazendo? – o frio repentino que alcançou o peito de Inácio não era algo com o qual o pai de Richard estava acostumado. Especialmente quando o delegado a sua frente suspirou profundamente para dar o restante da notícia e se aproximou, com cara de velório.

– Richard foi baleado. – ao contrário da campainha, a notícia não ribombou pela biblioteca. Como se a resistência à aceitação de ambos estivesse viva, as palavras de Eugênio simplesmente foram como se abafadas por aquela força estranha.

– O… Como? – visivelmente transtornado, Inácio começou a balançar a cabeça.

– Ele foi baleado durante a noite… – e a faca deveria ser enterrada sem misericórdia. Como seu houvesse a possibilidade. – Inácio… Richard faleceu.

O som de tudo o que os cercava, fosse o que fosse, simplesmente emudeceu. O único ruído audível era a respiração de Inácio, cada vez mais ofegante. O olhar de quem era afligido pela maior dor do mundo.

***

O potente sino da Igreja Matriz anunciava a oitava hora após o meio-dia. O sol ainda iluminava Alberion Valley quando a população da cidade se reuniu na praça em frente à casa dos Steward. De um dia para o outro, a praça passou de palco para festa a púlpito para o luto.

Uma grande fotografia de Richard fora colocada em frente à casa dos Steward,  apoiada na grade. Ali, como no Casarão e na Escola, as homenagens cobriram uma grande área.

No banco de trás de um carro guiado por piloto automático, o prefeito Pedro Dunkle-Nacht sentia-se cada vez mais nervoso. Havia um sentimento nítido de dor expresso em seu rosto. Um mistura de dores, ele sabia. À medida que se aproximava da praça, via os cidadãos de sua pequena cidade, assustados e em luto, rumando para a reunião em homenagem ao jovem morto sem explicações.

Mais tarde, junto dos representantes de alguns setores da cidade, Pedro depositaria aos lados da fotografia de Richard, algumas coroas de rosas brancas em sua homenagem. Uma canção encheu os ouvidos de quem estava na praça. Uma canção bonita, mas cheia de dor e de boas lembranças. Uma canção para servir de consolo.

De repente, em meio aos cochichos, choros e soluços não contidos, um som chamou a atenção de todos e os fez ficar em silêncio. Era o som da porta da casa dos Steward, que se abria, expondo os rostos doloridos de Melissa e Inácio. Os pais de Richard se expunham pela primeira vez, desde então.

Melissa tinha seu marido ao seu lado, sendo quase carregada pelo esposo. Sua pele sempre sedosa estava branca, seu rosto carregava a expressão da doença. Lúcio, de rosto sempre fino, desta vez expôs algo que Alberion Valley não estava acostumada a ver. Seu rosto estava inchado. Seus cabelos negros sempre bem cuidados, desta vez exibiam alguma rebeldia. O casal Steward, definitivamente, não estava a caráter.

Era o momento que todos esperavam com ansiedade, ao mesmo tempo com temor.

Matias e Sara olharam para aqueles que eram quase tios para eles, com pura pena. Christopher, embora abalado, sabia o que deveria temer em um surto de sua noiva. Segurou-a, com firmeza, para que nada de besteira fosse feito por ela.

O momento em que aquele casal se dirigiu aos seus solidários amigos, depositando, também eles, uma pequena rosa branca de seu próprio jardim, foi o momento em que toda a cidade de Alberion Valley pôde, finalmente, entender o que aconteceu: Richard Steward estava morto. Já não havia mais dúvidas.


Imagem de destaque: Jaclyn Moy / Unsplash.

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