Episódio quatro: “Ouvidos atentos”

Você sabe o que eu quero! – dizia uma voz bastante assustadora de algum lugar dentro do Reino. No outro lado da linha um homem engravatado estava visivelmente assustado.

Olhou para todos os cantos ao seu redor, sem jamais parar de repetir o gesto. Estava com medo. Qualquer um poderia entrar e entender tudo errado. Ou certo demais, o que seria ainda pior.

– Olha, querido… – disse. Ele sustentava uma voz cautelosa, temerosa. – Não é a hora de você me dizer estas coisas. Eu tenho uma reunião neste exato momento. Tenho de ir. Beijo! Tchau!

E desligou, decidido e irritado.

Olhou para cima, girou a cabeça, sentidos os estalos atenuantes de sempre. Estava incomodado. Precisava de uma massagista.

Alguém bateu à porta e a abriu.

– Eu já estou indo, Fred! – o homem engravatado respondeu de dentro de sua sala.

Desfez-se da auto piedade e pegou sua pasta, agenda, caderno e caneta que estavam em sua escrivaninha. Conferiu e saiu da sala já com outro pensamento em sua mente.

Chegando à sala de reuniões, mal percebeu o pequeno grupo de pessoas que ali estava. A morte do rapaz ainda o perturbava, afogava sua mente em um lago profundo e gélido.

– Senhor Prefeito! – uma mulher chamou sua atenção, ao dizer aquelas palavras. Ah, sim! Ele era o prefeito, havia esquecido isso, neste último lapso de memória.

– Oi. – ainda perturbado, ele respondeu, sem entender quem precisamente estava à sua frente. – Oi! Tudo bem… Catarina?

– Oi. Mais ou menos, né prefeito. – ela respondeu, baixando a voz. – Não é um bom motivo que nos reúne em pleno sábado à noite.

– É verdade. – ele concordou, muito mais ciente da tristeza do fato que a própria Catarina ou que qualquer outra pessoa naquela cidade.

– Nós já vamos começar? – ela perguntou, parecendo indecisa entre os sentimentos de empolgação e tristeza.

– Claro, claro! – Pedro respondeu.

Após alguns minutos sentados à mesa, o Prefeito Pedro Dunkle-Nacht e o Conselho Municipal de Emergência foram interrompidos por Fred, que entrou vestindo um rosto completamente rosado. Desajeitado, achegou-se o mais próximo do ouvido do prefeito e deu o recado.

– O delegado ligou mais uma vez. Parece que alguma coisa séria aconteceu e ele quer falar com o senhor. – obviamente, o garoto de uns dezoito anos não entendia o motivo pelo qual o delegado queria aquela conversa, e sua testa ficou vincada o suficiente para passar esta clara mensagem.

– Você realmente não faz ideia? – aparentemente indignado com o comentário do garoto, Pedro pôs-se em pé e saiu o mais rápido possível da sala, deixando o grupo sozinho com Fred.

– Ah… – Fred sentiu-se ainda mais exposto e ridicularizado. – O prefeito ele… Teve de sair.

– Nós entendemos, Fred. – fria, Catarina deu o recado. – Quando vai aprender que os seu serviço é apenas passar o recado? Ainda não entendeu que a opinião quem tem é o Prefeito?

– Interessante… – magoado, Fred olhou diretamente nos olhos de Catarina. – Qual é a sua utilidade nesta mesa, mesmo, senão veio aqui para dar opinião?

– Talvez educar alguns garotos mal… – mas, por mais interessante que fosse ver um barraco na prefeitura, a conversa foi cortada.

– Por favor, Catarina! – Pedro cortou a conversa de uma só vez. – Isso é bastante constrangedor para uma mulher da sua idade! Espero não ver mais esse tipo de coisa na nossa prefeitura.

O silêncio pairou como senhor absoluto na sala. O constrangimento que se abateu sobre Catarina, Fred e os outros sete participantes, foi o mesmo que irritou o prefeito.

– Eu preciso de você, Fred. – e os dois saíram porta afora.

– Desculpe… – tentou dizer Fred, mas foi logo interrompido.

– Depois. – o assunto só podia ser sério. – O Delegado está vindo para cá. Está quase chegando, na verdade.

– Mas, o que houve? – Fred, definitivamente estava curioso.

– Parece que a história com o garoto Steward não terminou. – o prefeito falou, mas seu tom era muito mais profundo para que estivesse se referindo ao óbvio.

– Mas, prefeito… Isso já não estava claro antes? – outra vez de testa franzida, Fred deixava a dúvida reinar em sua cabeça. – Quero dizer, ainda tem uma longa investigação pela frente.

– Fred! – desta vez, foi o prefeito quem o encarou diretamente nos olhos, sem parar de caminhar. – Esquenta uma água e prepara um café bem forte, pode ser?

– Eu? – pego de surpresa, Fred arregalou os olhos e alisou a testa.

– O da cozinha não veio hoje…

– Sim, sim! – Fred interrompeu o prefeito, sabendo que o pedido extra não deveria ser deixado de lado. – Não é um dia comum.

– Exato! – com um sorriso extremamente sarcástico, o prefeito seguiu seu caminho. – Garoto bom!

Dez minutos depois, e o delegado estava sentado no gabinete do prefeito, tentando se endireitar em uma cadeira.

– O que foi que aconteceu? – o tom do prefeito era mais curioso e preocupado.

– A morte do Richard tem muito o que revelar ainda, Pedro! – o tom do Delegado era de urgência. – Roubaram o corpo dele.

– O que foi que você disse? – agora em sintonia, os dois homens tinham em seus corações o mais puro e gélido pavor.

– Ah, por favor! – cansado, estressado, emocionado, enjoado e completamente surpreso, Eugênio já perdera suas últimas doses de paciência no momento em que recebeu mais esta notícia. – Eu já reagi assim, você coloque a cabeça no lugar porque a minha deve ter sido roubada junto do corpo do garoto defunto!

Delegado! – como a cereja, que dá glória ao bolo, o delegado foi visto pelo prefeito como a cereja do bolo de caos que Alberion Valley acabava de receber. – Tenha mais postura!

– O café! – anunciou Fred, entrando na sala a toda velocidade. Aprendeu com sua irmã mais velha que entrar feito pavão em meio a uma discussão era um ótimo momento para dar fôlego ao round.

– Se bem que eu acho que seria melhor uma jarra de chá! – emendou o prefeito.

O quê?! – passado um momento aborrecido, Fred recobrou sua noção hierárquica. – Cidreira seria o melhor, certo?

– Não. – interveio o Delegado. – Eu tenho pressão baixa… Traz um de camomila, por favor.

– Ah, claro. – quase mordendo os lábios, Fred deixou a térmica e os copos sobre a escrivaninha do prefeito e saiu o mais rápido possível. Fechou a porta e sibilou. – Folgados!

– FRED! – gritante, o prefeito chamou de dentro do gabinete, apavorando o empregado.

– O que foi? – Fred entrou pálido na sala.

– Avise os outros que a reunião fica para amanhã.

– Ah… Amanhã. – imensamente agradecido, Fred entendeu o recado, fechou a porta e voltou a abrir a boca somente na sala de reuniões para dar o recado estritamente.

No gabinete do prefeito, o assunto continuava quente.

– O que se faz numa hora dessas? – o prefeito perguntou, tomando um copo generoso de café.

– Bem… – disse o delegado, mexendo o seu próprio café. – Nós vamos investigar, é claro. À prefeitura cabe um bom discurso e uma chamada à Guarda Nacional.

– Ah, sim! – incrédulo, o prefeito encarou o delegado por alguns instantes. – Eugênio! Isso é um salto enorme para um assassinato em Alberion Valley! Se chamarmos a Guarda Nacional isso chega… Você sabe a quem!

– Ao Primeiro-Ministro. – o delegado completou a ideia, terminando um gole de café. – Isso mesmo. Eu vim aqui para isso. O caso não compete à nós. Ocultação de cadáver cabe à Guarda Nacional investigar.

– Como assim, “ocultação de…” – então, o prefeito juntou as informações que antes estavam em mundos diferentes, em sua mente. – Meu Deus! Isso está indo longe demais!

– Eu o digo! – rebateu o delegado.

– Não tem outro jeito? – o Prefeito olhou para o Delegado, suplicante. Em resposta, o Delegado respondeu com gentileza.

– Infelizmente, não, Pedro.

– Então, Richard está sumido mesmo? – ainda inclinado sobre a escrivaninha e suplicante, continuou o prefeito.

– Sim.

– Quanto tempo até encontrá-lo?

– Sinceramente? Provavelmente os pais de Richard enterrarão um caixão vazio.

Em sua própria mente, muito distante dos pensamentos do Delegado, o Prefeito deixou um pensamento perseverar. “Espero que sim”

***

Finalmente, o Prefeito estava em casa, ainda muito nervoso com o que havia acontecido na prefeitura. A tensão da conversa com o delegado ainda vibrava em cada fibra de seus músculos.

Pedro saiu de si quando ainda sábado, pouco antes de virar para domingo. Recebeu este novo dia com uma garrafa de Dom Perignon e altas, loucas e estranhas gargalhadas.

Já se havia passado algumas horas desde o seu acesso de loucura, quando ele se deu por conta de que, no dia seguinte, haveria um velório a ser cancelado. Dramático demais para a sua cidadezinha. Demais para a sua vidinha. Demais para muita coisinha sua.

Enquanto o prefeito se lamentava embriagado em uma das propriedades mais bem guardadas de Alberion Valley, um copo de Malzbier era posto de lado em frente à uma casa muito mais humilde, embora não fosse pobre.

Eugênio sabia que Pedro escondia alguma coisa, ele era delegado, não o era à toa. Tinha um bom dedo para encontrar gente com rabo preso. Mas, francamente, quando se trata de política, quem não o tem?

− O que você tem? – uma voz interrompeu o silêncio da noite quieta da Rua Prinz.

− Amor! – Eugênio se viu pego de surpresa, o que o deixava extremamente desconfortável.

− O que faz o meu namorado ficar totalmente desprotegido em uma rua às duas da manhã, escorado em uma mureta bebendo… Malzbier? – um olhar espantado tomou conta da face de Marcelina, a namorada do Delegado.

− É, eu sei… – riu-se Eugênio, entendendo a surpresa reconfortante de sua namorada. – Não tem uma garrafa de Heineken por aqui!

− Eu sei, amor. – Marcelina riu, sentando-se ao lado dele. – Por isso que fico preocupada. Eu sei o quanto isso geralmente seria o motivo do teu incômodo. O que te fez ignorar essa falta grave?

O sarcasmo brincalhão de Marcelina revigorava Eugênio. Parecia coisa romântica demais. Mas era bom.

− Não se incomode com o que acontece naquele lugar. – sugeriu Eugênio.

− Quando um delegado diz isso é porque a coisa deve estar feia. – e, encarando seu namorado com olhos estreitados e cheios de desconfiança, ela perguntou. – Você acha que tem uma investigação dos sonhos nas mãos, é isso?

− Sinceramente? – os dois se encararam por um breve momento. − Eu tenho certeza!

Nossa! – imediatamente, os olhos de Marcelina arregalaram, seu coração pulou dentro do peito e sua respiração mudou completamente. Estava no meio de algo importante, finalmente!

− O que foi? – Eugênio perguntou, como quem deixa uma afirmação.

− Não me venha dizer que “você não faz parte disso”! – ralhou a mulher de meia idade, carrancuda, roubando a cerveja preta de Eugênio. – Você não gosta mesmo!

− Pode parar! – Eugênio chiou. – Eu não gosto normalmente, hoje eu tenho que gostar! Me dá aqui!

Passado um silêncio, a situação ficou evidente. Eugênio teria de abrir o jogo. Sabia disso desde o início.

− Tem alguma coisa muito macabra em torno da morte de Richard. – anunciou Eugênio, subitamente sombrio.

− Imagino que sim. – Marcelina falou, balançando a cabeça como se não estivesse nem um pouco surpresa. – Acho que o fato de ele morrer assassinado reforça isso, né?

− Eu vou ignorar… – riu Eugênio, sentindo-se humilhado pela mulher ao seu lado. – O negócio é que o corpo dele sumiu.

− Como é? – foi impossível conter a alta exclamação de surpresa na boca de Marcelina. – Eu pensava que isso era coisa de RPG!

− Sério, isso? – tamanho o espanto de Eugênio que ele até se esqueceu do assunto. – Desde quando alguém ainda joga RPG?

− Pare! – sentindo o incontrolável rubor colorir seu rosto de descendência italiana, Marcelina tomou um gole de cerveja antes de tornar a falar. – Faz o quê? Uns dez anos que ninguém joga isso?

− Ou uns vinte? – ao receber o olhar afiado de ameaça da namorada, Eugênio se conteve.

− Continua, vai! – ordenou Marcelina.

− O corpo dele sumiu.

− Mas como um corpo simplesmente some? – Marcelina não se cansaria de ficar chocada tão cedo. – Como vocês deixaram isso acontecer?

Marcelina! – indignado, Eugênio encarou-a. – Como? Sério, mesmo? Quem, nessa terra, imaginaria que Richard Steward teria seu corpo roubado?

− É. Verdade. – concordou Marcelina. − Mas, e agora?

− Agora a coisa vai ficar feia. – o olhar de Eugênio se transportou para outro lugar.

− Não me diga! – Marcelina, estendendo a cerveja para Eugênio, exibiu todo o brilho que seus olhos pareciam poder emitir. – Nacional?

Nacionalíssima! – concordou Eugênio.

− Se isso é uma brincadeira de alguém, com certeza não imagina o talagaço que vai levar. − Marcelina tentou brincar, exibindo um sorriso frio.

− O que me preocupa é que eu acho que esse corpo jamais vai ser encontrado, Marcelina.

− Como assim? – Marcelina o encarava, cada vez mais curiosa.

− Tem gente grande aí no meio. Não sei por qual motivo Richard foi parar no meio disso aí. – ele já respondia às perguntas que Marcelina fazia com o olhar. – Mas, eu sei que tem alguma coisa no meio disso tudo, muito maior que boatos.

− De onde você tirou isso, Eugênio? – agora sim, Marcelina carregava uma profunda preocupação.

− Até que ponto você iria para esconder um namoro proibidíssimo? – Eugênio perguntou, olhando sugestivamente para sua namorada.

− Eu não entendi. – perturbada, Marcelina abriu outra cerveja.

− O prefeito. – talvez pelo efeito do álcool, talvez porque já não aguentasse mais esconder aquele segredo, Eugênio deixou que as palavras corressem como água por seus lábios, até os ouvidos atentos e devoradores de Marcelina. − Faz tempo que ele anda estranho, sabe?

− Estranho como? – a ansiedade crescia a níveis assombrosos em Marcelina.

− Não sei. – sincero, relatou o delegado à sua namorada. – Suspeito, eu diria.

− Mas o que liga ele ao Richard? – ela perguntou, já se mostrando irritada.  Então, suavemente, e com um sorrisinho muito sutil em seu rosto, Eugênio virou-se e disse:

− Um amor é suficiente?

Os namorados não sabiam, mas a conversa toda era ouvida por alguém tão disposto quanto eles a investigar o mistério do sumiço do corpo de Richard Steward. Um vulto negro, escondido sob as árvores que rodeavam a casa de Eugênio e Marcelina, observava quase imóvel a intimidade e confidência do casal.

No dia seguinte, haveria motivo para que a cidade se alarmasse. Richard Steward estava desaparecido, a responsabilidade era do delegado, o prefeito poderia estar evolvido e o garoto santo parecia esconder máculas e ligações perigosas.

***

E amanheceu.

E uma bomba explodiu.

Alberion Valley acordou em choque. Outra vez.

Se, para dar um susto como o que paralisou a cidade quando da morte de Richard Steward, bastou uma ligação, desta vez, um calhamaço de papel foi o suficiente para colocar Alberion Valley no meio de uma trama perigosa.

 Fazia calor, já às oito horas da manhã, quando Analice, com sua cabeça recheada de perguntas sobre o caso de Richard Steward, se deparou com uma pedra preciosa na soleira de sua casa. O jornal regional estampava um novo escândalo em sua primeira página.


Imagem de destaque: Gabriel / Unsplash.

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