Episódio Cinco: “O Informante”

Na casa do prefeito, a escuridão tomava conta. Apenas uma respiração forte era audível no quarto, enquanto o tique-taque de um relógio antigo, em um lugar distante da casa, soava, entrando pela porta que estava escancarada.

As roupas jogadas à um canto do quarto, parte em cima de uma penteadeira, parte caída no chão, recordava que o amor também acontecia na casa do viúvo feito prefeito. Talvez, naquela noite, uma das poucas camas que sentiram o fogo de um amor vivido ardentemente tenha sido esta. Um amor cheio de vigor, e, também, cheio de segredos.

O olhar de Pedro, não o “Prefeito de Alberion Valley”, mas o amante de um certo Alguém, brilhava feliz e cheio de vida, refletindo uma discreta claridade que se enfiava através das cortinas de seu quarto. Ainda sentia o calor do peito de seu amante. Ele repirava com força e solenidade. Não era uma respiração duvidosa, da qual se pudesse temer estar matando alguém. E era um peito quente. Alguns pelos, mas o ideal, como todo peito de macho deveria ser. Nada podia atrapalhar aquele momento, nem mesmo o garoto morto, Richard Steward.

Somente quando a voz do seu amante soou doce, no meio da noite artificial de seu quarto, foi que Pedro percebeu que estavam os dois acordados.

– Está bom aí? – o amante perguntou, fazendo a cabeça de Pedro balançar com o esforço da respiração.

– Caramba, amor! – assustado, Pedro ergueu sua cabeça, arrepiando-se ao sentir o ar fresco gelar seu corpo nu exposto. E riu. Riram, então.

– Calma… – riu-se, cheio de dengo, o amante. Ele ergueu-se e, em segundos, estavam se beijando.

Pedro, tendo o seu amante em cima de si, sem se conter, deu uma enorme gargalhada, cheia de excitação.

– Que foi isso? – chocado, o amante também riu de um jeito gostoso, enquanto debruçava-se sobre o peito de seu prefeito, beijando-o desde o pescoço.

O celular de Pedro tocou. Ele o encarou por cima de seu amante, mas, infelizmente, nada conseguiria tirá-lo da tirania daquela língua voraz.

***

Olavo, o jornaleiro, quase não queria sair para distribuir os jornais naquela manhã de domingo, pois sabia o que tinha em suas mãos. Ele viu a manchete estampada na capa do jornaleco da cidade, o “O Informante”. Seria uma atitude destrutiva e desnecessária.

Jogou-os, sem amor algum, nas diversas soleiras dos assinantes da cidade, já que era isso que pagava o seu salário e o impedia de ser mais um vagabundo na sociedade.

Enquanto isso, nas redes sociais, a informação de que o corpo de Richard Steward fora sequestrado tomou conta de muitos olhos ávidos, desde as quatro horas da manhã. Boatos, como sempre.

– Como assim? – resmungou Analice, fechando a cara enquanto estreitava os olhos para certificar-se de que não estava lendo coisas erradas. – Não pode ser!

Ela, como tantos outros pela cidade, acabava de acordar e ver as notícias da manhã em uma página de jornal muito chocante.

Até que sentasse à mesa, ainda sozinha, pois os outros ainda estavam no andar de cima, preparando-se paro o velório, suas ideias ainda não tinham se organizado.

“Alberion Valley pode ter sido vítima mais que apenas da dor particular que se abateu sobre a Família Steward, que perde um membro jovem, muito querido pela comunidade toda, como pôde ser visto nas últimas horas…” – resmungava a garota, devorando as linhas que tinha à sua frente, até que chegou ao primeiro ponto crítico. – “O garoto, conhecido por ser ótimo professor, pode ter sido uma das vítimas da curiosidade. Segundo gravações não autorizadas, feita por uma repórter não identificada… O prefeito de Alberion Valley, Pedro Dunkle-Nacht, pode estar envolvido na morte de Richard Steward”.

Um momento de absoluto silêncio pegou Analice de surpresa. Um golpe em seu estômago, disso não duvidava. Seu sangue ferveu, sua cabeça pareceu pesar e, por um momento, ela esteve em qualquer lugar do Universo, menos na Rua Leinster, n.º47 de Alberion Valley.

Um clique, e ela agarrou o jornal e subiu as escadas a todo o vapor.

– MÃE! – ela gritou, enquanto ainda na metade do caminho. – MÃE!

– O que foi? – alguém com uma juba negra enorme meteu a cabeça para fora de uma porta com moldura de madeira branca. Era Beatriz, seguida de um homem com olhos furiosos e já quase ricamente vestido para a ocasião fúnebre. Fúnebre, sim, mas chique. Elegante, para que se fosse sensato com o Sr.º Brothwell.

– Que é isso, filha? – ralhou, suave como sempre, o pai dos Brothwell, Alberto. Tão rápido quanto surgiu seu rosto enfurecido pela porta, fez-se uma expressão de serenidade ao perceber a urgência de sua filha, em um contraponto impressionante.

– Vocês precisam ler isso! – e a Analice empurrou as páginas pálidas para o peito de sua mãe, empurrando os dois, sem qualquer pudor, para dentro do quarto do casal.

Na casa de n.º 57, Christopher Laster dava um nó mal feito em sua gravata. Sua pouca vontade era compreensível, embora não aceitável para uma família considerada nobre para a cidade. Um silêncio preenchia a sala onde os Laster estavam sentados desconfortavelmente, guardando a vontade angustiante de sair do lugar no fundo de seus estômagos ácidos.

– Não vai ter velório! – ela, a mãe de Christopher, despejou a notícia sobre os moradores, anunciando o fato da sala ode estavam todos reunidos, quase saindo da casa, pronta para anunciar ao mundo inteiro.

Um silêncio questionador preencheu o recinto. Obviamente, o questionamento era a respeito da sanidade da mulher, já não levada muito à sério por sua própria família. O olhar estreitado da mulher, tampouco, surtiu mínimo efeito, já estavam todos acostumados com os atos de Janice.

– Deixe eu ver isso, Janice. – suspirou Jonathan, pegando o jornal com uma delicadeza visivelmente forçada.

Leu. E parou de respirar por alguns segundos, encarando a página que tinha em suas mãos.

– Não vai ter velório. – ele informou, rompendo a desconfortável calmaria da sala. Magicamente, a reação foi absolutamente outra, rica em destalháveis cenas de arrepios e estremeções.

– Como assim? – Christopher foi o primeiro a sentir-se traído pelas premissas da sanidade, tanto da sua quanto a de sua mãe. Desistindo de seu estúpido nó de gravata, empoleirou-se ao lado de seu pai, meio palmo mais alto que ele.

– Minha gente, em que Alberion Valley se tornou?! – chocada, a dramática cópia de Janice ergueu-se do sofá, pendurando-se no ombro do pai para ler as mesmas linhas por ele lidas. – “‘O VELÓRO’ – O Delegado Eugênio, de Alberion Valley, responsável pelo caso, confirmou que o corpo do rapaz não será liberado em, pelo menos, uma semana, já que novas informações sobre a morte do rapaz podem estar apontando novos caminhos para a investigação”…

“Podem estar apontando”?! – Janice azedou completamente sua expressão, indignada como mau uso da gramática. Sob o olhar repreensivo unânime, a mulher revirou seus olhos e se interessou em encarar o espelho e contar para ele como era mal compreendida naquela casa. Cochichou para ele: – Está vendo? Depois que morre, querem perto. Mas, aí, fica difícil!

– Deus me livre! – disparou um Christopher teatral, olhando diretamente para Janice. – Eu não vou querer visagem alguma por perto! O Diabo que carregue!

– Menino! – um perplexo e risonho Alberto soube apenas encarar o filho em completo pavor.

“A nota da Delegacia informa que ‘Devido a necessidade de uma investigação mais detalhadas a respeito da forma como Richard Steward foi à Óbito, o corpo será retido no DML (Departamento Médico Legal) de Alberion Valley e transferido para a Capital Nacional, onde exames mais detalhados serão realizados no DML daquela cidade e pela Guarda Nacional’. Portanto, para os que esperavam o velório do garoto no dia de hoje, a notícia é de que isso não se realizará tão em breve.” – como se nada a tivesse interrompido, Rebecca continuou, arregalando e estreitando os olhos conforme as palavras eram lidas.

Enquanto os Laster se acostumavam com a ideia de um velório a não ser realizado para mexer com os pilares sociais da cidade, no centro dela, na casa dos pais de Richard, Melissa e Inácio Steward liam a matéria como se lessem uma nota de condenação.

À esta altura, eles já liam a provável pior notícia:

“O CORPO

De todos os escândalos em que pode estar se envolvendo Alberion Valley, o pior deles pode ser o do real motivo para o cancelamento do velório de Richard Steward. Segundo as gravações não autorizadas, o corpo do rapaz pode ter sido sequestrado do DML da cidade, levando à provinciana comunidade uma sombra jamais experimentada por aquela população, até então desconhecida do cenário Nacional. Contudo, esta morte, este possível sequestro e provável envolvimento de altos cargos da política do país em sua morte, dão maior importância ao caso, que passa de um interesse familiar ou, no máximo, comunitário, para o interesse de uma nação inteira. Evidência disso é o fato de que a Guarda Nacional assume o caso, a partir de agora.”

– Eu os quero queimando vivos, Inácio. – com um absoluto controle sobre sua voz, teimosa tremida. Embora soubesse muito bem como exercer controle sobre si mesma, a Sr.ª Steward jamais soube controlar seus desejos mais terríveis.

– Calma, querida! – pediu Inácio, enquanto via sua esposa largar suavemente o jornal sobre o criado-mudo de sua cama, onde estava deitada.

Inácio, de pé e desabotoando o pijama azulado, enxergava motivos suficientes para impedir que sua esposa saísse de casa por um longo período. Mas, quando olhou pela janela de seu quarto e viu o pequeno jardim, tendo, atrás, um carrinho de rolimã (uma relíquia que seu filho quis reviver), não pôde deixar de sentir o ódio preencher seu corpo inteiro, circulando em fogo por suas veias.

Fogo. Fogo para um assassino.

– Não podemos incentivar uma Inquisição em plena metade do século XXI, Melissa! – ele sibilou, sentindo sua respiração gelar seu peito já desnudo. Nesse momento, pouco conseguia ver através do ódio que enchia seus olhos de uma manta de brancos pontos luminosos.

– Inácio! – a voz distante de sua esposa o resgatou de um momento de afogamento em si mesmo. Ela o encarava movendo a cabeça de um lado para o outro. – Não. Não adianta.

Uma lágrima escorreu pelo rosto da mulher fria e dura. Pelo rosto de Inácio, alguma coisa quente também escorreu. Poderia ser o seu próprio sangue, mas ele jamais reconheceria que um jornal o fez chorar.

Enquanto as lágrimas dos Steward escorriam dolorosamente, o delegado segurava a sua cópia de jornal com absoluto desprezo. De um lado para o outro, aquela pessoa caminhava, uma mão na cabeça, outra agarrando, ou melhor, estrangulando o chumaço de papel, manchando sua mão de cinza, até que jogou-o contra sua escrivaninha, deixando-o caído no chão.

– Isso não vai adiantar, Eugênio. – com uma simplicidade e serenidade incríveis em sua voz, Marcelina não tentava acalmar seu esposo com docilidade, mas com inteligência. Ele era delegado, afinal! – Coloque uma roupa, logo essa casa vai ter um monte de fotógrafos aqui na frente…

– Marcelina! – ríspido e de tranco, um Eugênio vestindo apenas um calção de banho estacou em frente à sua namorada, com rosto em fogo. Se fosse um dragão, seria bom correr. O vermelhão de seu rosto provocava a impressão de que cuspiria fogo a qualquer momento. – Sai daqui!

E, erguendo o braço indicando a sala de sua casa, Eugênio encarou, furioso, a mulher que o fez soltar a língua ao ar livre, durante a madrugada. O motivo de sua desgraça estava em pé na sua frente.

Um olhar frio e enojado foi o suficiente para deixar claro o recado de Marcelina. Ainda assim, um amor valia uma arriscada fala.

– Você não tem que se culpar, nem me culpar. – ela olhou o seu namorado com a mesma raiva que tinha de gente que considerava burra demais para viver em sociedade. – Ninguém te ouviu falar que o prefeito estava envolvido com algum senador ou congressista algum. Ninguém pode dizer que te ouviu mencionar a Guerra Civil como foco de ódio pelo garoto da parte do Prefeito…

– NÃO INTERESSA, MARCELINA! – Eugênio gritou, furioso, enfiando os seus dedos em seus cabelos, os olhos cheios de lágrima, provenientes de um oceano de emoções, agitando-se em um coração difícil de acessar. – Eu falei qualquer merda pra você! Coisa que eu não deveria falar… Eu nem coloquei aquelas palavras nos relatórios porque eu estava defendendo o prefeito!

– Por que você estava defendendo o prefeito, Eugênio? – indignada, Marcelina repreendeu-o, movendo sua cabeça, confusa.

– Ele é um prefeito muito bom. Você sabe disso! – como se a resposta fosse óbvia, Eugênio encarou Marcelina com certa indignação. – Além do que, até ontem à noite eu nem imaginei com seriedade que ele pudesse estar no meio disso tudo.

– Mas, Eugênio…

– Nem vem! – toda vez que alguém se empoleirava na arrogância do “Mas, Eugênio” o homem quase perdia o controle sobre si. – Nada de “Mas”! Eu sei que foi burrice…

E um coração que era quase inacessível explodiu para não perder-se na morte, fazendo um delegado desandar em choro. Uma namorada, antes de ser a inteligente da casa, foi o coração que faltou. Abraçou o homem choroso e o envolveu em um perfume reconfortante que saía de seus cabelos. O toque delicado dos dedos de Marcelina na nuca e no rosto de seu namorado tinha efeito terapêutico.

Enquanto, minutos depois, Eugênio se deitava em sua cama, mergulhado em sonhos profundamente tristes e caçadores de sua consciência, Marcelina se debruçava sobre o jornal amassado e jogado a um canto da sala de trabalho de Eugênio, o delegado citado na matéria tão incômoda.

“CONSPIRAÇÃO

Que o Governo está sujo, isso não é novidade. Os escândalos envolvendo relacionamentos escondidos e indevidos já são notícia velha, mas a traição de um dos Congressistas parece ter dado dor de cabeça muito maior ao prefeito da cidade. Pedro Dunkle-Nacht pode ter se envolvido com uma das damas mais cobiçadas do Governo, acusada de se envolver com apoiadores separatistas.

Isso seria motivo suficiente para um crime e sumiço do corpo de Richard Steward. No meio de uma crise que coloca o próprio Rei no olho do furacão, o surgimento de uma testemunha ocular de um movimento conspiratório contra o Reino poderia muito bem ser considerada uma morte necessária. Mas, se existe algum motivo para se desconfiar do envolvimento do senhor Prefeito de Alberion Valley, temos motivos o suficiente para crer que o garoto se envolveu com gente de poder.”

– Ou seja, Eugênio está desgraçado. – suspirou Marcelina, pondo o pedaço de papel de lado e sentando-se, absolutamente desanimada, na cadeira da escrivaninha. Olhava para a parede à sua frente como se ela fosse o perfeito retrato do futuro que via para seu futuro esposo: era uma parede vazia.

***

Já se tinha passado quase uma hora desde que os dois amantes tinham acordado e, já em pé e enrolado em uma toalha, após um banho rápido, foi que Pedro pegou seu celular. Quando o desbloqueou, viu que eram chamadas importantes, mas não surpreendentes. Saindo do quarto, retornou as chamadas.

– Bom dia, Delegado! – cumprimentou. Afago na voz, ódio nos olhos e zombaria no rosto. – O que foi?

– Temos um problemão! – audivelmente irritado, o delegado quase gritava. – Tu não leu o “Informante” de hoje?

– O que foi? – alarmado de súbito, Pedro desceu as escadas correndo, mas nem chegou ao pé dela quando Eugênio o deixou paralisado.

– A tua casa está cheia de fotógrafos!

Por um longo minuto, Pedro ficou sem respirar, completamente chocado, sentindo-se entregue às cobras. Foi quando recobrou sua memória, encaixando as informações uma a uma, até que chegasse ao quadro ideal.

– Na cidade? – ele perguntou.

– Sim – Eugênio respondeu.

– Ah… – tomado pelo alívio, Pedro começava a sentir seus pés, novamente. – Eu estou na casa da fazenda.

– Fazendo o quê aí?

– O que você acha? – ralhou Pedro, indignado com a pergunta e com o tom de Eugênio. – Estou fugindo um pouco!

– Venha logo para a cidade! – o Delegado ordenou, já alterado.

– Ok. Me espere na delegacia. – achando absolutamente estranho o tom do Delegado, o Prefeito desligou, sentindo o suor escorrer por todo o seu corpo, como se não tivesse recém saído do banho. – Querido!

E, outra vez pelas escadas, Pedro subiu ao quarto onde estava seu amante, quase todo vestido.

– Querido! – Pedro chegou sem fôlego em seu quarto, pesquisando em seu celular.

– Que foi? – um olhar desconfiado foi lançado para Pedro. – Se é sobre o Richard Steward, eu já sei.

– Como assim? – paralisado, Pedro encarou o homem que estava à sua frente enfiando-se em uma camiseta verde claro. – Do que você está falando?

– Ué. – sem espanto, o amante do Prefeito sorriu, maliciosamente. – Você realmente acha que eu estou por fora do que as bocas andam dizendo por aí a respeito do meu namorado?

– Eu não estou por dentro, portanto me explique! – incrivelmente irritado e impaciente, ignorando o forte impacto de ser chamado “namorado”, Pedro colocou seu telefone sobre a penteadeira robusta, já sem roupas penduradas.

– O jornal de vocês publicou uma matéria enorme sobre a morte do menino e coloca você no centro de tudo. – disse, com displicência, o amante, sentando-se na cama. Colocou o par de sapatos escuros.

– Meu Deus! – Pedro girou. Pirou e ergueu suas mãos. Jogou-se na cama, olhou para o teto. – MEU DEUS!

– Calma, amor. – um sorriso malicioso, outra vez, e estavam os dois se encarando, um estirado na cama, outro apenas sentado.

Duas figuras completamente estranhas conversavam em uma cama: o completo caos de um lado e, de outro, a serenidade maldosa em pessoa.

“O Informante” falou da morte do garoto e disse que o caso está nas mãos da Guarda Nacional. Eles tiveram acesso ao caso, sabem de tudo o que podem saber da parte da Delegacia.

Perplexo, encarava-o Pedro.

– E sabem mais coisas, também. – então, o amante deu uma risada e explicou toda a história para Pedro que, a cada palavra dita, sentia mais um membro seu desaparecer de seu controle sensorial.

– E o que se faz agora? – já vivendo um perfeito luto por si mesmo, Pedro encarou seu amante, esperando dele uma saída, já que exibia um rosto tão alegre. – Você tem uma saída, não tem?

– Fique sossegado. – o olhar de seu amante brilhava daquele jeito perigoso. – Temos como resolver a situação.

– E como será isso?

– Você terá apenas de fazer poucas coisas. Na verdade, aquilo que melhor sabe fazer e que vem fazendo bem há tempos. – aqueles lábios sedutores delineados por um discreto reflexo da luz que vinha de fora do quarto davam ao homem uma aura ainda mais obscura e sensual. – Você precisa falar.

– Falar o quê? – um frio involuntário percorreu a espinha de Pedro, que lançou outro olhar preocupado para o amante.

– Minta. – o amante simplificou, dando de ombros.

– Hum… – Pedro não sabia como deveria entender aquilo, mas se inspirou a escutar.

– Nós temos um plano muito simples e específico. – disse o amante, ajeitando-se sem deixar de olhar profundamente, direto nos olhos de Pedro. – Precisamos que as pessoas fiquem em dúvida nesse momento, ou, ao menos, tenham uma certeza a nosso favor. Mais cedo ou mais tarde você será odiado, sabe disso.

– É, eu espero que eu realmente saiba. – remexeu-se Pedro na cama, como se tivesse com dores de barriga. A incerteza da opção por aquela loucura começava a perturbá-lo.

– Enfim. – o amante continuou. – Vamos desviar o foco e jogar a dúvida sobre o menino Richard. Ele será o motivo de incômodo de Alberion Valley.

– Como assim? – chocado, Pedro o encarou como rosto distorcido pela confusão. – Como vocês vão fazer Richard passar de vítima à… criminoso?

– Nem sabes o quanto a gente tem feito isso, meu amor. – riu, cheio de si, o amante. – Fique tranquilo. Disso a gente entende. Mas, eu preciso que você tenha algo em mente.

– O quê? – a essa altura, Pedro já se sentia nos bastidores de um programa sensacionalista.

– Richard Steward não surgiu para nos prejudicar. – o brilho insano naqueles olhos lembravam Pedro de que ele estava no meio disso tudo, o que foi terrível. – Ele é a nossa porta de entrada, é o apresentador do nosso espetáculo!

Uma risada doentia, arrepios por todo o corpo de Pedro e uma pedra de moinho se acomodaram no fundo da consciência de Pedro Dunkle-Nacht. Mas, ele sabia: infelizmente, era tarde.


Imagem de destaque: Luka Vovk / Unplash.

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