Episódio Seis: “Geada em dezembro”

*1*

Richard Steward pode até morrer, mas nunca será um nome tranquilo de se pronunciar nesta cidade! – em alto e bom som, foi esta a frase, mais tarde feita épica, que saiu gritada pela garganta de um dos conselheiros mais influentes da cidade de Alberion Valley.

Naquela manhã de terça-feira, já dois dias após o escândalo que rompeu com a paz do Senhor Prefeito Pedro Dunkle-Nacht, o Conselho Municipal se reuniu em caráter de emergência para tratar do assunto que remoía os lares da pequena cidade.

*2*

A manhã atipicamente fria chocou a todos. O dia 20 de dezembro assustou os habitantes de Alberion Valley, que viram a última geada ainda em julho, quando ali era o auge do inverno. Naquele dia não geou, mas fez frio o suficiente para deixar a todos com um pé atrás.

O carro de cor azul escura que supostamente carregava o corpo de Richard Steward saiu silenciosamente do DML de Alberion Valley, sendo eventualmente fotografado por algumas pessoas que aguardavam a sua passagem logo após os primeiros raios de sol.

Na casa do prefeito, o crime frio congelara o ânimo e a boa atividade política daquele homem havia dias, desde os boatos de que ele teria participação na morte de Richard Steward.

Uma silhueta se colocou muito próxima da janela, quase desistente de si mesma. Como se olhasse para algo que ninguém mais enxergasse. Era Pedro, o Prefeito. Algo dolorido e vazio deixava um vácuo estranhíssimo dentre dele mesmo. Semelhante à dor que sentiu quando sua esposa morreu.

Teria de sair de casa dentro de dez minutos para chegar no horário de sempre à prefeitura, de onde não o afastaram por considerarem absurdas as afirmações contra o prefeito.

Ele pegou o jornal, girou em sua cadeira, admirando a enorme manchete:

“Jovem pode ter sido assassinado por posicionamento político. Entenda.”.

– É, Richard Steward. – quase inaudível, ele deixou a frase rolar de sua boca. – Você vai perder, garoto. Infelizmente…

Noutro ponto da cidade, na casa do Delegado Eugênio, afastado de suas funções, um celular brilhava na escuridão de um quarto fedido e triste.

“As investigações apontam para o envolvimento de um grupo separatista na morte do garoto de Alberion Valley, contradizendo as acusações que abalaram a cidade, dias atrás.”

– Eugênio leu, sem pronunciar palavra alguma. Ao seu lado, Marcelina dormia profundamente. Os olhos de Eugênio se estreitaram perigosamente. Alguma coia se passava em sua mente.

Na casa dos Steward, desta vez, foi Inácio quem leu a matéria.

“Em Aurora, com as investigações andando apressadamente para descobrir as reais motivações para a morte de Richard Steward, a Guarda Nacional tem sido levada a crer que o envolvimento com grupos separatistas possa ter engatilhado a morte do rapaz”.

– Inácio leu pausadamente. O seu olhar cheio de curiosidade percorreu vagarosamente o caminho entre o jornal e o rosto de sua esposa, que mantinha uma atenção enorme no rosto de seu marido.

– O que foi, Inácio? – fria, ela perguntou, sem sair do lugar.

– Chocante. – apenas isso. Foi o que ele soube dizer, despertando ainda mais a atenção de sua esposa.

Ela sabia. Chegaria o momento certo. Calou-se e seguiu quieta.

Christopher, Sara, Matias. Eles estavam incomodados. Enquanto, na cidade inteira, o que predominava era o medo de uma Guerra Civil estourar na outra ponta do país, nesses três corações, algo a mais imperava assombrosamente.

– Chris! – a voz suave de Sara interpelou-o ao telefone.

– Que foi? – ele respondeu sua quase esposa, prontamente. O coração batia mais forte. Sabia que aquele romance seria marcado para sempre pela trágica morte de Richard, mas jamais aceitaria que o esse amor morresse junto do garoto.

– Precisamos nos encontrar. – o tom era grave.

– Precisamos quem? – uma nota de preocupação.

– Nós três. – a pergunta pronta e firme não pegou Sara de surpresa. Era justa. – Eu, você e o Matias.

Passou-se um tempo desconfortável de silêncio, até que Christopher respondesse alguma coisa.

– Nos vemos no porão.

– Nos vemos no porão.

*3*

O dia 21 de dezembro chegou, mas não passou o frio, garantindo aos residentes de Alberion Valley a dolorosa surpresa de uma manhã de geada, três dias antes da Véspera de Natal.

Encontrar-se no porão da Igreja Matriz era um hábito comum dos três. Eles só não esperavam que aquilo acontecesse de uma forma literalmente fria.

– Sara! – reclamou Matias, falando baixo, enquanto os dois andavam enganchados pela rua, ainda escura, naquele nascente 21 de dezembro.

– Quê? – ela permitiu que sua boca falasse, mesmo que estivesse ainda em choque com o frio repentino que tomou Alberion Valley.

– Você está fedendo! – ele respondeu, desviando o rosto da direção de sua irmã.

Ela não falou. Uma cotovelada acertou as costelas de Matias, dando o recado.

Chegaram ao porão da Igreja Matriz pela entrada que o padre José ainda não descobrira que existia.

– Oi amor! – sorriu Christopher, abraçando Sara. Um espirro audível ecoou pelo porão da igreja, espalhando-se de forma macabra por toda a construção.

– O que foi?! – Sara ralhou seu namorado, o autor do disparo nasal.

– Você está fendendo naftalina! – ele reclamou, esfregando o seu nariz.

Foi necessário que se passasse ainda uns dez minutos até que os três estivessem mergulhados no motivo de seu encontro clandestino.

*4*

Sibilia chegou em casa cansada. Jogou as chaves sobre uma mesa com tampo de vidro, sentindo o peso em sua consciência por riscar o material por ela amado. Jogou-se, rendendo graças, aos braços do sofá, seu melhor amante. E viajou por muitos mundos.

Quando estava aproximadamente em Marte, foi resgatada emergencialmente de seu sono. Seu telefone tocou.

– Não entendo por que motivo você continua a existir! – ralhou a mulher, atordoada, catando o aparelho. – Quê?!

O azedume na voz da mulher pareceu não surtir efeito.

– Sim. – e desligou o telefone, pegou suas chaves novamente e saiu de seu apartamento, em despedir-se do sofá.

Enquanto descia pelo elevador, discava o número de sua filha mais velha, que estava na faculdade.

– Oi, querida! – seu tom já anunciava que haveria motivos para pedir desculpas. – Eu fui chamada com emergência pela delegacia. Eu não vou com vocês hoje, está bem?

Depois da áspera conversa com sua filha, pedindo que tomasse conta do apartamento sem incendiá-lo, a mulher entrou no carro, jogou o celular no banco do carona, trancou a porta e bufou libertadora e demoradamente, batendo a cabeça no encosto do banco. Então, saiu.

Uma hora mais tarde, e ela tinha sobre uma mesa o caso mais ridículo que ela esperava ter de analisar.

– Pediram que a Guarda Nacional examinasse isso? – surpresa, deixou cair o calhamaço de papel sobre outra mesa de tampo de vidro. – Por qual motivo?

Seu dia a impedia de disfarçar o desagrado.

– Porque um corpo desapareceu, Juíza! – a resposta tão azeda e na defensiva fez com que Sibilia se contentasse por saber que chegara onde imaginava. – Isso é responsabilidade da Guarda Nacional!

– É, eu sei disso. – concordou a mulher cansada, olhando evasivamente para os lados. – Faz o seguinte. Quando o caso tiver o suficiente, jogue esse calhamaço em cima da mesa de uma dessas estagiárias, aí eu penso no que eu faço.

Uma veia latejava furiosamente na busca pelo autocontrole, no pescoço de Sibila. Agulhadas faziam seus olhos enxergarem quase nada, tamanho estresse.

– Dr.ª Sibila. – no meio de uma tempestade, a calmaria era sinal de que se tinha chegado ao olho do furacão. O frio que visitou Sibila não devia ser em vão.

– O que foi, Aurélio? – a resposta veio com toda a cautela do mundo.

– Eu acho que é ele.

O frio não veio em vão. As trevas que cegavam Sibila se dissiparam, a dor de cabeça se foi e uma atualização foi descarregada naquela mulher. Não era um simples “ele”. Era “ele”.

*5*

Marcelina, apropriadamente, encheu duas canecas de um chocolate quente delicioso que ela fazia e que deixava Eugênio cerca de dois níveis mais calmo. Entrou pelo escritório de seu namorado e deixou a caneca tentadora em frente ao homem emburrado que olhava para aquela mesma parede vazia que a própria Marcelina encarou dias antes.

E ele se deixou vencer. Tomou o chocolate quente.

– O Prefeito tem culpa, Marcelina. – suspirou Eugênio, sem olhar para ela.

– Eu sei. – Marcelina respondeu, encarando-o.

Passou-se um longo tempo de silêncio até que os dois tornassem a falar.

– Você vai fazer alguma coisa? – Marcelina provocou-o.

– Eu preciso te contar uma coisa, Marcelina. – Eugênio manteve seu tom de voz e a posição de sua cabeça. – Puxe uma cadeira. Eu preciso que você preste bastante atenção.

– Eugênio… – Marcelina conhecia aquele tom. Não seria uma fofoca. Seria outra bomba.

– Eu sei quem é o amante do prefeito. – ele falou, agora encarando Marcelina diretamente nos olhos.

– Como assim “o” amante, Eugênio? – uma sensação esquisita tomou conta de Marcelina, uma fraqueza incomum e premonitória.

– Sente-se, Marcelina! – ele foi mais firme.

Sentada, Marcelina largou sua caneca e encarou seu namorado com toda a atenção do mundo.

– Faz tempo que eu sei quem é o amante de Pedro. – continuou Eugênio, acariciando nervosamente a sua caneca quente. – Eu tinha uma reunião marcada com a prefeita Cecília, porque ela queria que eu a ajudasse naquele projeto de conscientização sobre o cigarro. Eu também queria falar com ela, mas não queria que isso acontecesse na delegacia porque lá existem muitos ouvidos curiosos, você sabe disso.

– Na Prefeitura é que não existe disso, né, Eugênio? – Marcelina resmungou, incrédula.

– Eu fui, como sempre, cheio de coisas pra fazer, então fui entrando na sala da prefeita, só que… – ele parou de falar. Parecia que algo doía nele. – Eu não encontrei a prefeita, encontrei outra pessoas. Pessoas, na verdade…

– Daniela? – a suspeita jamais se aquietou dentro de Marcelina.

– Sim. Daniela. – então, com olhar entristecido, ele terminou a história. – E Leonardo de Mattos.

– Leonardo… de Mattos? – aquilo não foi um tapa na cara. Foi uma sequência de socos no estômago de Marcelina. – De Mattos?

– Sim, esse mesmo. – confirmou Eugênio. – Ele é o amante de Pedro Dunkle-Nacht, há, pelo menos, oito anos, Marcelina.

– Ah… – as emoções dentro de Marcelina eram muitas. O choro foi inevitável. – Eugênio! Me diga se…

– Sim. – Eugênio foi duro. Seco, em sua resposta, outra vez sem encarar Marcelina. – Eu acho que Pedro foi responsável pela morte de Daniela…

– Não, Eugênio… Eles foram responsáveis pela morte da Dani…

*6*

– Mas, Sara! – Christopher estava apavorado com o que acabava de ouvir. – Não tem como a gente saber se essa história do prefeito tem alguma coisa com a morte do Richard, pelo amor de Deus!

– Chris… – Sara tentou falar, mas foi interrompida.

– Não adianta a gente ficar culpando qualquer um pela morte do Richard, Sara! – Christopher estava alterado. – Nós não vamos embora da cidade! O prefeito não matou o Richard!

– Christopher! – Matias rugiu como jamais em sua vida. – Ninguém disse que foi o prefeito quem matou Richard.

– Não. – um sibilo assustador soou por detrás dos três, pondo-os em pé, de súbito. – Não foi o Prefeito quem tentou matar Richard Steward, rapazes. Foi Leonardo de Mattos. Como vocês bem sabem, amante do senhor prefeito.

Padre?!

– Há um clima pesado se constituindo em Alberion Valley. Um peso desajeitado de se carregar. Delicado demais. Perigoso demais. – a voz cavernosa do padre assustava a qualquer um. Ele se aproximou dos três, fazendo sinal para que se sentassem novamente.

Estando os quatro sentados, uma nova conversa começou.

– Vocês não podem fugir da cidade. – continuou o padre, sério. – Vocês estão metidos nessa história mais do que imaginam.

– Richard está morto! Eu não quero terminar assim, padre! – resmungou Matias, sentindo suas palavras saindo de sua garganta como facas afiadas.

O padre riu, exibindo um arrogante ar de superioridade.

– Meus filhos… – então ele encarou cada um dos três e, desdenhando, deu o golpe do dia. – Quem realmente viu Richard Steward morto?

Com uma troca de olhar, a mensagem ficou clara.

– Richard não está morto.


Imagem de destaque: Michel Stockman / Unsplash.

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