João Paulo II e Bento XVI: 15 anos de um marco histórico

Há 15 anos, um senhor olhou com genuína fragilidade para seus mais próximos colaboradores pela última vez. Mesmo que provavelmente não entendesse o que estava enxergando ou o que acontecia, foi de maneira descrita “pacífica” que ele morreu, às 21h37min de dois de abril de 2005, aos 84 anos, em seu quarto, de onde se podia ver e ouvir uma multidão de cerca de cinquenta mil pessoas que rezava por ele. Partira um homem extremamente famoso, amado e odiado por muitos, admirado sem dúvidas, e histórico. “O Santo Padre João Paulo II retornou à Casa do Pai”, comunicou certo bispo.

À morte de Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, milhões de pessoas mudaram suas agendas. Somente na cidade Roma, para despedir-se do pontífice, milhões de pessoas se espremeram pelas ruas da cidade. Pela primeira vez na história, um número tão grande de líderes mundiais e religiosos participaram das exéquias (funeral/encomendação) de um papa. Números que tiveram eco anos depois, em 2011, por ocasião de sua beatificação e em 2014, quando de sua canonização, ocasiões que reuniram 1,5 milhão e 800 mil pessoas respectivamente.

A explicação para tamanho apreço e comoção é facilmente encontrada até hoje: por 26 anos, João Paulo II foi o pivô de eventos políticos importantes para a humanidade, como a queda do comunismo na Europa e a denúncia dos perigos do capitalismo selvagem; acordos de paz entre nações na iminência de guerras e no diálogo inter-religioso sem precedentes que ajudou a diminuir consideravelmente os conflitos religiosos e aumentou a capacidade de tolerância e convivência entre os diferentes credos. Para a Igreja católica, representou renovação: deu nova cara ao jeito de ser pastor, incentivou as comunicações sociais, promoveu maior envolvimento do papado com a mídia, foi o pontífice que mais canonizou (declarou santos) até então e encontrou a joia mais preciosa de seu ministério na juventude. Foi o idealizador do maior evento do mundo, a Jornada Mundial da Juventude, que reúne, em um só lugar, milhões de jovens a cada dois ou três anos para rezar e refletir com o papa (no Rio de Janeiro, o encontro reuniu o recorde de público jamais visto no Brasil: 3,7 milhões de pessoas na praia de Copacabana. Manila, nas Filipinas, reuniu 5 milhões – a maior missa da história, até então). Foi um papa peregrino como nunca se viu: 129 países visitados em 26 anos e meio de pontificado. Falava relativamente bem 13 idiomas.

Assim, torna-se fácil entender o motivo pelo qual a sua substituição, em 2005, se converteu em marco para a história. O mundo perguntava-se quem estaria a altura de substituir um homem tão importante quanto este que acabara de se despedir do mundo. Perfis foram traçados pelos jornais, cardeais foram caçados pela mídia, fiéis rezavam incessantemente pelo novo papa e uma angústia quanto ao futuro incerto da Igreja preenchia inúmeras mentes e corações. Católicos e não católicos aguardavam com muito interesse o resultado do Conclave de 2005, que aconteceria entre 18 e 19 de abril.

No dia 16, o cardeal alemão Joseph Ratzinger completou 78 anos de vida e ganhou de presente o leme da Igreja três dias depois, em 19 de abril, quando passou a ser conhecido por Bento XVI. No dia 24, recebeu os sinais de seu ministério – o pálio de lã e o anel do pescador – e foi “empossado” Soberano Pontífice da Igreja católica. E o mundo queria saber quem era este homem.

Diferente daquilo que aconteceu em março de 2013, quando foi eleito papa o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Joseph Ratzinger era bem conhecido da mídia. Havia mais de vinte anos era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, órgão da Cúria Romana que substituiu a Sagrada Inquisição com a função de cuidar dos assuntos doutrinais da Igreja ao redor do mundo. Com o passar do tempo, tornou-se o braço direito de João Paulo II, que o escolheu para ser decano dos cardeais, conferindo a ele a função de presidir as cerimônias subsequentes à sua morte até a eleição do novo papa. Surpreendentemente, negou a Ratzinger o pedido de aposentadoria por três vezez – para muitos, um sinal claro de que João Paulo II já via em Ratzinger o seu sucessor natural.

Nascido na Alemanha (Marktl am Inn, Baviera), o novo papa viu de perto e sentiu na pele o peso do nazismo e do sofrimento humano como consequência das guerras. Viu, também, desde muito jovem, uma beleza particular na liturgia e espiritualidade da Igreja católica, da qual toda a sua família era tradicional discípula.

Seu perfil ficou marcado pela academia: professor, um dos mais eloquentes do seu tempo é considerado um dos maiores teólogos do século XX, a ponto de contribuir tão decisivamente no Concílio Vaticano II que chamou a atenção do próprio papa São João XXIII. Isso, quando era ainda apenas um jovem padre da Baviera com seus 35 anos.

Em 1977, foi nomeado arcebispo de Munique e Frisinga pelo Papa São Paulo VI. Naquele ano, passou de padre e professor para cardeal e arcebispo. Sua amizade com o então arcebispo de Cracóvia, na Polônia, fez com que os dois trocassem muitas cartas e colaborassem entre si nos estudos da teologia. Um ano depois, em agosto de 1978, morreu o papa Paulo VI e os cardeais entraram em conclave para eleger o cardeal Albino Luciani, Patriarca de Veneza, Papa João Paulo I. Apenas 33 dias depois de sua eleição, este também morreu, ao que os cardeis reuniram-se outra vez em conclave, em outubro daquele mesmo ano, para eleger papa o arcebispo de Cracóvia cardeal Karol Wojtyła – João Paulo II.

Portanto, os cardeais apresentavam ao mundo um papa muito próximo do estilo pessoal do anterior. Bento XVI, sob muitos aspectos, é um homem conservador, de linha tradicional da Igreja e amante da liturgia. Alguém que daria continuidade a obra começada por João Paulo II e proporcionaria um processo de transição sutil. Em outras palavras, a Igreja não queria uma transição abrupta de estilos pessoais. Bento XVI abriu caminhos consideravelmente e, além de ter sido protagonista de seu próprio papado, soube dar continuidade a muitos projetos de João Paulo II e foi quem preparou os caminhos para um sucessor de estilo pessoal e pastoral um tanto diferente, atitude que possibilitaria a eleição de um alguém como o Papa Francisco quase oito anos depois, por exemplo, sem que houvesse qualquer sombra de conflitos ou contradições entre os pontificados.

A Igreja católica sabia quais os desafios a serem enfrentados. Sabia que necessitava de mudanças drásticas e, mesmo assim, a Igreja elegeu alguém que se alinhava a quem estivera no comando “até ontem”. Colocaram em primeiro lugar a necessária processualidade ao levar em conta capacidade de seu povo administrar grandes mudanças. Este foi o legado e marco histórico da transição de papado de 2005: a capacidade de pensar longe.

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