Um amor na varanda

Foto: Brian Suman // Unsplash.

O que você quer? – ela perguntou, impositiva, socando uma mala de mão no pequeno espaço que ele deixara sobrar no bagageiro.

– Você nua sentada em meu colo nu e alegre. – ele respondeu de imediato, perceptivelmente sem muitos filtros.

Foi assim que eles se conheceram, aquele casal curioso. Um primeiro encontro nada ordinário em um sentido literal.

Se eles concretizaram aquele desejo dele, logo de cara, naquela cabine, naquela noite? Não posso dizer. Não que eu não queira ou que me contenha por questões de respeito a alguma moral que pudessem ter. Eles apenas jamais me contaram.

Se bem que eles gostavam de exibir suas façanhas entre quatro paredes… Ou ao ar livre, ou entre quatro portas… Se bem que, no início deve ter sido de duas portas. E, se bem que eu não sei se varanda pode ser considerado “ao ar livre”. Chega de “se bem que” e vamos à história! Ah, mas houve “ao ar livre” em quantidade!

Sim, eles eram cheios de um fogo inesgotável. Gostavam de amor, amor quente e desraigado, mas, como bem sabemos nós, amigos mais íntimos ou herdeiros, aquilo não se tratava de um desleixado sexo sem compromisso, de fim de festa, no beco atrás da boate com algum desconhecido, apenas por fazer, para matar a coceira entre as pernas ou outro lugar ou outros lugares, assim, com “s”, no plural. Porque isso eu também já ouvi dizer, mas de outras pessoas, é claro. Não eles. Eles não.

Tratava-se de uma rica troca de afetos sinceros, amor de verdade, sabe? Mas, o curioso é que surgiu assim, de primeira, na lata, no instante em que olhares e vozes esbarraram-se pela primeira vez, em que cheiros misturaram-se àquele da cabine velha de trem dos anos noventa em plenos anos 2010. Desde o início, fogosos.

– Arthur – ela me disse, a minha velha. E eu entendi.

Ergui-me, como se um político prestes a discursar após sua eleição presidencial ou um poeta antes de morrer declarando sua obra prima. Estava diante dos dois, ali deitados em caixões separados. Parecia errado demais. Eles teriam de juntar-se, ficar unidos ainda ali, talvez ali ainda mais! Unidos como em vida. Quem sabe nus, estes dois que jamais se cobriram de fetiches sociais, de maquiagens enobrecidas. Enfim. Levantei e fiz uma fala breve, chata e digna de velório.

Quem seriam os próximos, afinal? Seria eu e minha velha? Seríamos? Ou o Eriberto e a Jaqueline?

Não sei. Deixei isto para os outros, os demais. Eles que pensem sobre isso, que constatem e nos informem quando estivermos juntos no paraíso ou no inferno. Porque, sim, encaminhemo-nos para onde encaminharmos-nos, estaremos sempre juntos, esses bons amigos.

E acordei!

– Foi esse o sonho, Arthur? – ela riu. Era minha velha, muito mais jovem, no hoje do presente e eu penso: graças a Deus!

– Amor, vamos ali na varanda? Eu quero tirar uma dúvida…

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