Episódio Um: “José de Via-Fuore”

Cinco anos antes do encontro inesperado no porão da igreja matriz, uma escarrada. Ele cuspiu na pia branca a gosma quase incolor. Vivia muito bem para ter doenças. Bem demais, aliás. Ajeitada a camisa preta, de colarinho clerical, de sapatinho lustroso e maleta na mão, saiu de casa. Caminhadas algumas poucas quadras, chegava ao prédio comum em que trabalhava o cardeal arcebispo.

No sexto andar, a secretária o atendeu bem. Como sempre, feliz por vê-lo. Alguns instantes admirando a parede clara da secretaria com uma enorme foto do papa e outra do arcebispo e este último apareceu à porta também de clesma[1].

– Padre José! – ele saudou. José percebeu uma falsidade naquele sorriso: a conversa seria desconfortável.

No escritório do prelado a situação se tornou mais clara:

– Precisamos de você em Alberion Valley.

– E aqui? Quem assumirá?

– Ainda estamos vendo. – o bispo olhava desconfortável, como se olhasse para alguém a quem quebrasse uma promessa. – Eu sei que te havia prometido um lugar tranquilo, agora.  Mas, sabe, Alberion Valley precisa de alguém com conteúdo, não um rosto bonitinho. Você tem este conteúdo de que a paróquia precisa.

– Não sei do que o senhor está falando! – uma sobrancelha alteou-se quando José ouviu aquilo. – Não encontro feiura em meu rosto! E Alberion Valley é tranquilíssima. O que poderia acontecer naquele lugar minúsculo?


Quando os sinos badalavam em Alberion Valley, alguma coisa interessante acontecia. Uma hora a mais do dia já se tinha passado, por exemplo. Naquele dia, foi um pouco diferente. Mais empolgante: um novo padre chegava!

José de Via-Fuore era um homem tão velho em seus setenta e alguma coisa! Vinha da capital. O arcebispo o havia nomeado no mês passado, provavelmente para evitar que ele se envolvesse nas eleições da cidade, que já pegava fogo sem bedelho de padre intrometido. Por isso, inclusive e naturalmente, todos os candidatos estavam na igreja matriz para receber o novo padre. E os demais cidadãos votantes também. Uma santa assembleia.

– Por que diabos eu estou aqui, mãe? – Analice reclamava a um canto, enquanto, do outro lado, Anderson, um rapaz mais velho, de quem ela gostava, estava prestes a dar boas razões à celebração. Um Matias beiçudo sabia que não poderia se encontrar com seu amigo Richard antes do fim da celebração, então o negócio era esperar.

Mais feliz que todos, Cecília Schneider, a prefeita até então, cumprimentava gloriada, o cardeal arcebispo saído da sacristia. No banco de trás, outros cinco homens e mulheres olhavam para o religioso como se fosse um produto valioso exposto.

Distante a um canto, a moça muito bonita abriu ainda mais o sorriso naturalmente bem disposto, quando viu Marcelina.

– Mulher do céu! – ela vibrou, dando alguns pulinhos. O toc toc dos saltos chamou a atenção de um jovem rapaz chamado Richard Steward, que estava perto de Marcelina. Sem notá-lo, a conversa prosseguiu.

– E aí? Como anda o estágio pra Primeira-dama? – Marcelina provocou Dani.

– Pedro ainda anda com a ideia… – ela não estava tão lamentosa assim. Na verdade, gostava da autoimagem de primeira-dama da cidade. – Já pensou?!

– Professora! – Richard deu um susto nas duas. – Eu adoro a ideia! Podia levar a gente pra fazer um churrasquinho no pátio da prefeitura, né?

– Richard! – uma falsa repreensão de Marcelina. – Ela será primeira-dama, não Miss Simpatia!

– Vou aproveitar que o Pedro está lá fora no telefone que ele não me vê dizendo isso! – e ni cochichou como confessasse um pecado. – É certo, né, Richard! É capaz, mesmo, que eu vá deixar de lado os meus terceiranistas!

E uma mulher começou a falar no púlpito, chamando a atenção de todos. A missa ia começar. Dani apressou-se a buscar seu marido e cada um foi para seu lugar fingir santidade.

Deste jeito mesmo a missa encheu e aconteceu. Em grande parte, naquele dia, recebeu a Comunhão uma parcela sequer crente em Deus. Para quem se preocupava com a imagem na capital, Alberion Valley poderia dar bem algumas aulas, concluiu pe. José.

Com a sua chegada, foi isso que mudou: Analice teve de ir a uma missa e a professora Daniela, oxalá futura primeira-dama, marcou um churrasco no pátio da prefeitura com a turma do terceiro ano do Ensino Médio.


O cardeal não havia saído de Alberion Valley quando o telefone da secretaria da paróquia começou a chamar loucamente. Dom Joaquim olhou torto para a secretaria escura desde a cozinha onde ele conversava com o Pe. José sobre o cenário político de Alberion Valley. O bispo atendeu ao telefone.

– Deixe que eu atendo, dom Joaquim! – o padre já jogava a louça de lado. Era tarde: o bispo já atendeu.

– Paróquia, boa noite! – ele foi perdendo o sorriso desde as sombras da sala escura. – É dom Joaquim. Ahã. Hmm. Sim. Eu aviso o pároco.

A cara feia naqueles minutos passados era prelúdio. O padre, com um pano de prato nas mãos, parou de repente. Com um olhar, perguntou e foi respondido:

– Um dos candidatos pra prefeito. Parece que a esposa morreu num acidente de carro.

– Bem, parece que eu vou começar bem tranquilo, mesmo! – um padre preocupado alfinetou um bispo constrangido.

– Eu presido. – era um bônus. Bispos geralmente não se desculpam. – A cerimônia, eu presido. Pode ficar tranquilo. Mas prepare algumas palavras o senhor também!


Finalmente, o dia amanheceu. Padre e bispo estavam sentados à mesa do café, ouvindo rádio.

– Já informei a Cúria. – o bispo rompeu o silêncio.

– Sim. Faz bem. – O padre enchia a xícara. E riu.

Outro minuto quieto e a pergunta não podia faltar:

– Por que, dom Joaquim? – um olhar curioso ao bispo. Duas xícaras cheias. Um padre curioso. – Por que ficou para hoje?

– Porque sim. – prontamente, uma resposta.

O silêncio pedia mais.

– Eu não posso deixar o senhor sozinho agora.

– É por causa do padre Tadeu? – os olhares contaram toda a história traumática de mais de vinte anos.

– Imagine! – Joaquim balançou a cabeça e suspirou. Estava entregue. Precisava falar. – Quando Tadeu morreu, o senhor foi meu pai, meu avô, meu amigo, meu ombro. Quando eu nunca esperei isso. Hoje, eu sou seu bispo e o senhor meu padre. Eu preciso te apoiar, mesmo que seja pouca coisa.

– Entendo. – e o padre bebericou. Já o sabia desde bem antes. Amor não se esquece, ainda mais o de um amigo tão fiel e inspirador como Tadeu foi para Joaquim. – Não é pouca coisa. Mas sabe que não precisaria…

– Eu sei. – ele estava nervoso e inseguro outra vez! “Saco!” – Mas eu quis… Eu quero! Vamos juntos.

O padre riu por ser querido.

– O senhor foi um bom seminarista, dom Joaquim. – o bispo surpreso encarou o padre que falava com certa cautela. – E se tornou um pastor ainda melhor.

– Bem… – Joaquim precisava de uma saída antes que a conversa ficasse emotiva e pegajosa demais. – Já que eu tirei o senhor da tranquilidade da capital, te dou a tranquilidade de não começar com um velório.

– Já é alguma coisa! – e riram.

Uma hora depois, estavam numa igreja matriz lotada de gente. Daniela di Felipa era do lado católico da cidade e passaria a usar esta parte do cemitério.

Quatro amigos em especial se reuniram num dos primeiros bancos da igreja: Matias e Sara Brothwell, Christopher Laster e Richard Steward. Ex-alunos da professora, todos teriam nela uma inspiração. Não foram os primeiros a saber, mas foram os que mais perderam depois da família Felipa.


Ela me telefonou. – Marcelina falava com voz tremida. – Estava muito nervosa, eu percebi que ela estava chorando e daí eu ouvi ela gritando, só que…

– Sim, vamos com calma. – a esperança do padre era de, a partir daquele momento, a história passar a fazer sentido. Marcelina chegou arrasada na paróquia pedindo uma bênção porque não conseguia seguir com sua vida, mas não parava de falar da morte de uma amiga, que aconteceu três meses antes. Finalmente, o copo d’água chegou e Marcelina bebeu com vontade. Uma porta foi fechada.

– Ela… – e mais um gole. Então, silêncio e uma fungada da mulher chorosa. – Desculpe, padre.

– Nem pensar! – alívio e curiosidade passaram a remoer o padre José. – Estou aqui para te ouvir. Sou ouvido fiel. Não se preocupe. O que se fala aqui, aqui fica.

– Ela me ligou porque tinha certeza de que ele estava traindo ela.  Eu entendi isso muito bem. – Marcelina continuou com a história. E o padre curioso ouviu atentamente.

– Sim. – ele disse, vincando as sobrancelhas.

– Mas aí ela falou que eles estavam atrás dela, e que ela precisava se esconder e que não sabia o que fazer e…

E Marcelina respirou profundamente.

– Eu tenho tanto medo contar isso para alguém, padre!

– Não se preocupe. – e o padre segurou o ombro de Marcelina com força. Ele precisava ouvir porque ela precisava falar.

– E então ela deu um grito e… – um suspiro demarcatório. – E eu ouvi barulhos estranhos e os carros na estrada e mais nada.

O padre parecia juntar as peças.

– A Dani, padre. – Marcelina confirmou.

– A Dani… – o padre suspirou. – Marcelina… Por favor, me explique melhor.

– Ela me telefonou porque estava furiosa. Parece que ela tinha visto o Pedro com alguém, pegou ele no flagra e que não poderia continuar mais com ele. – Marcelina olhava com olhos vidrados para um imenso nada, como se visse o que narrava diante de si. – Mas, antes que ela pudesse me dizer mais eu percebi que ela já não estava mais com raiva. Ela estava com medo.

– Medo? – ele ficou confuso.

– Sim. Medo. Eu também não entendi muito bem. Mas percebi na hora. Ela estava com medo e começou a falar nervosa. Começava a falar alguma coisa, mas não terminava. – Marcelina sentiu sua voz afinar. – E, então, ela começou a chorar e eu acho que foi quando aconteceu o acidente.

– Marcelina… – um frio percorreu José por inteiro. – Você não está querendo me contar que ela sofreu um acidente intencional, está?

– Que ela foi assassinada, o senhor quer dizer? – ela assinalou.

– É. Que ela foi assassinada. – um silêncio seguiu esta conclusão e foi quebrado somente alguns instantes depois. – Para quem…?

– Ninguém. – Marcelina logo o cortou, com urgência na voz e no rosto. – Somente o senhor, agora.

– Por que razão você veio aqui hoje? – a voz do padre parecia sumir aos poucos.

– Porque eu preciso de uma bênção, padre! – e Marcelina desmontou diante de um padre surpreso. Mesmo sentados, foi possível um afago nas costas da mulher.

– É claro que eu te dou a bênção. – José tratou de esclarecer. E propôs. – Mas posso te oferecer algo mais: meu conselho.

Marcelina fungou. – Eu confio no senhor.

– Que permaneça assim. Um segredo para somente nós dois compartilharmos. – o olhar foi firme e não deixou dúvidas. – Vi muitos morrerem por saber um pouquinho que era demais. Fique entre nós, Marcelina. Confie nesse velho e venha falar comigo sempre que precisar. Serei todo ouvidos.


PAM! PAM! PAM!

– Eh?! – um padre completamente assustado congelou a meio caminho da saída da capela privada da casa paroquial. Era José, seis anos depois, deixando a capela ao concluir sua oração matinal das laudes[2]. E o que faria?

PAM! PAM! PAM! Mais uma vez.

Definitivamente, era real, na casa e com ele. Inspirou com coragem, temendo um assalto. Os empregados da paróquia ainda não haviam chegado. Na verdade, sequer havia clareado o dia e era já verão avançado.

Só faltava isso: poucos dias antes de ser transferido, ser assaltado e espancado na canônica!

Tremendo, mas agarrado ao rosário que carregava sempre consigo no bolso da calça, encontrou coragem e seguiu até a cozinha, olhando pelas janelas iluminadas pelas lâmpadas externas. Viu uma silhueta.

PAM! PAM! PAM! Outra vez.

– Quem é? – ele gritou, ainda do outro lado do cômodo. Agarrando ainda mais o terço, complementou. – Estou armado!

– Por favor, padre.

Era uma voz jovem, conhecida do padre, mas não tanto assim. Pensou. Não era Marcelina. Era um homem. Aproximou-se, decidido a ser mártir se fosse o caso, para abrir a porta. E quase morreu. Do coração.

– Eu… – e não conseguiu mais falar. Um turbilhão se passou por sua cabeça confusa.

– Pelo amor de Deus, padre! Me deixa entrar. – olhos suplicantes impediram o padre de pensar qualquer outra coisa:

– Entre logo! – o rapaz entrou, a porta da cozinha foi fechada. – Já deveria ter me acostumado com isso. Ver mortos andando não deveria mais ser uma surpresa pra mim!

      Um café foi ajeitado para os dois.

– Infelizmente, você não é o primeiro morto que eu vejo andar, Richard.

– O senhor? – uma curiosa expressão pouco interessada descrevia bem Richard Steward. Meio bobo também.

Depois de tantos anos de prática, pe. José soube logo o que fazer. Depois do café, enfiou-o embaixo de um chuveiro e o deixou dormir por algumas horas longe de qualquer olhar.


Neste momento, o padre respirou profundamente e encarou Sara, Christopher e Matias. Estavam no porão da igreja matriz, mas, ao contar tudo isso, era como se José tivesse refeito toda sua trajetória.

– Ele não estava morto, mas se continuasse daquele jeito, logo estaria. – o padre continuou a contar aos três amigos ainda aterrorizados pelo encontro inesperado. – No fim do dia, finalmente conversamos e Richard contou o que pôde. E tudo mudou.

– Ele contou da noite do tiro? – foi Matias quem perguntou. Sua voz parecia um pouco presa. Talvez sentisse ainda vergonha. – Que a gente abandonou ele?

– Matias… – o padre respirou fundo. – Supere isso. Todos cometeram erros grandes. Eu mesmo cometi bem maiores. De qualquer forma, não foram vocês que tentaram matar alguém. Foi Leonardo de Mattos que tentou matar o amigo de vocês.

– Como o senhor sabe disso? – o nervosismo de Matias era evidente. – Richard também não viu quem era.

– Claro que viu! – o padre retrucou. – Richard estava observando os dois antes de você chegar. Foi ali que ele viu que se tratava de Pedro e de Leonardo.

– Gente, eu ainda estou tonta com isso. – Sara não parecia bem: estava cada vez mais pálida.

– Eu também estou, amor. – Christopher falou, afagando sua noiva.

– Enfim, quando ele recebeu o tiro, ele desmaiou. – o padre continuou. – E acordou já estava no necrotério. Ele conseguiu fugir por uma pequena janela que dava para o mato ao lado do prédio. Vocês conhecem o lugar. Ele me disse que vocês brincavam lá quando eram crianças.

O balançar de cabeças confirmou a história.

– Então ele cruzou o mato a correr, até chegar na paróquia. – e então o padre parou de falar. – Só não entendi ainda o motivo de ele vir até mim, não até vocês.

– Eu sei. – Matias quebrou o silêncio. Todos se concentram nele. – Porque ele sabia que viríamos até aqui.

– Eu não confio tanto na astúcia de Richard, ainda mais desgastado como ele estava naquele dia… – o padre começou, mas foi interrompido por Sara.

– Ele consegue. – o olhar dela era o de quem recém entendeu alguma coisa. – Ele fez isso na noite em que foi baleado. Ele pensou rápido e em tudo mesmo quase morto.

E um silêncio reinou outra vez até que Christopher o quebrasse.

– Tudo bem, ele fez tudo isso, mas… – e olhou a volta como se procurasse ou quisesse mostrar alguma coisa. – Onde ele está agora?

A justa pergunta fez o ar vibrar de expectativas.

– Não está comigo mais. – e o banho de água fria endureceu os jovens outra vez. – Ele foi embora hoje pela manhã para concluir uma tarefa.

– Que tarefa, padre? – aquilo não foi uma pergunta. Foi quase um rosnado.

– Vocês ainda tem muito o que entender. A história está recém começando.

– Como assim?! – Christopher gostava cada vez menos daquele padre.

– Pensei que não me envolveria mais com esses assuntos, mas… Estamos num barco que só segue adiante. Vamos ter de remar juntos, rapazes.


[1] Colarinho branco usado por  padres e bispos católicos e anglicanos.

[2] A primeira oração da Liturgia das Horas.


Imagem de destaque: Jinwei Ding / Unsplash.

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