Episódio Três: “Chamada de grupo”

O telefone vibrou mais uma vez e ele atendeu:

― Que foi? ― Christopher perguntou. As pessoas pareciam não saber mais dizer “oi”, simples e educadamente.

― Só faltava você! ― Sara resmungou, assim que o rosto de seu namorado apareceu. Era uma chamada de vídeo. ― O Matias está emburrado porque você não atendia!

Embora parecesse o contrário.

― Oi cunhado! ― saudou Matias. Olhos semicerrados encaravam Sara de seu lado da tela. Era Matias, fritando sua irmã com um olhar já gasto e, portanto, pouco eficiente contra ela. Aquela ali já criara imunidade.

― Não adiante me olhar azedo. ― sua irmã retrucou o olhar.

― Tá, o que foi? ― Christopher cortou. Era evidente: alguma coisa eles estavam tramando e, pior, na expectativa de que Christopher participasse. O detalhe era que ele não sabia se quereria participar depois do resultado da última armação surpresa de participou. Naquela, Richard morreu sem morrer e, no início da brincadeira, ele mesmo quase foi parar num saco preto de verdade por infarto.

― Assim, amor: eu estava pensando sobre o que aconteceu hoje na delegacia e fiquei bastante preocupada, sabe…

― Só agora? ― Christopher sabia ser grosso, curto ou seco, quando queria. E, nos últimos dias, essa se tornou uma característica mais evidente.

― Bem, é que eu me refiro a uma coisa mais específica, sabe?

E, antes que Sara pudesse respirar o suficiente para fazer drama de forma apropriada, Matias chutou o resto da informação:

― A Sara acha que o delegado é um vendido safado.

― Minha namorada inventando teoria da conspiração? ― deboche, sim e, junto dele, um toque de surpresa pela ousadia da garota.

Noiva, senhorzinho Laster!

― Noiva… isso! Amorzinho.

― Enfim, a Sara acha que a gente não pode confiar nele.

― Mas, isso é evidente, eu também acho! ― Christopher riu, alteando as sobrancelhas.

― Sim, claro que sim! Eu disse que ele ia concordar comigo, Matias! ― o olhar de vitória era o cartão de visitas para uma das mais chatas versões de Sara.

― Hum… ― Matias ainda teria de esperar.

― Amor, eu…

― Eu já explico! ― um pigarro e uma ajeitada numa mecha de cabelo e ela seguiu após interromper o namorado. ― Acontece que eu ando desconfiada de uma metrópole de gente, sabe. Mas, estive pensando em algumas alternativas para investigarmos por conta a morte… o paradeiro, melhor dizendo, do Richard…

Ein?! Como assim, investigarmos?

― É, mana, ele concordou com tudinho… ― e a vingança de estava servida. Esperar valeu a pena.

― Cala a boca Matias! Bando de frouxos…!

O diálogo seguiu, mesmo diante do repentino temporal que se armou na cara de Sara.

― Explica isso, amor! O quê? Frouxos?

― Ai, não dificulta, Christopher!

― Ela te chamou pelo nome… ― mesmo Matias, já sabia que isso era sinal ruim, um trovão saído daquele temporal.

― Eu percebi, Matias! ― aquela característica nova de Christopher exibia-se novamente.

― Chega, vocês! ― ela deu um basta. E uma encarada ardilosa para o irmão.

― Hum! ― mais uma bufada de Matias e um olhar de desdém.

― Hum… ― não tão certo, Christopher buscou concordar.

― O Delegado Eugênio parecia ter mais informações de fundamento sobre o caso do que a Guarda Nacional. Não sei até que ponto, mas…

― O Eugênio?! ― Christopher quase engoliu sua língua quando falou.

― Sim. Amor. O Eugênio.

― Escuta, Christopher! Você vai entender.

Uma suspirada de Sara e continuou sem agradecer a intervenção do irmão:

― Ele deixou um bocado de pistas na matéria do Informante e eu acho que a gente deveria seguir isso.

― Seguir as pistas do Informante? ― Christopher estava chocado.

― Sim.

― Mas, como? Lemos o jornal outra vez e depois fazemos o quê? Vamos atrás do que o Eugênio disse? Seguimos com a investigação dele? Chamamos ele pra ciranda…? O que a gente faz?

― Olha…

― O que foi Matias?! ― Sara mais pareceu latir.

― Cruzes, garota azeda. Estou pensando numa coisa aqui…

― Que coisa, cunhado?

― Vocês lembram quem é a namorada do delegado, né?

― A Marcelina. Sim, é óbvio que a gente lembra. ― Sara respondeu saltando por sobre seu namorado prontamente.

― Sim, eu co… é isso aí.

― Tá. Lembram quem era a melhor amiga dela?

Não era difícil, embora não fosse tão fácil lembrar disso, seis anos depois da morte da moça. Levou apenas um instante.

― A professora Dani? ― Christopher deformou sua face diante do dilema da tentativa e erro.

― Isso, Christopher, da prô Dani!

― E o que isso tem a ver com a investigação da morte do Richard? ― Sara parecia ficar mais impaciente a cada minuto que seu irmão enrolava o assunto não a deixava entender.

― Sara, quem falou conosco sobre o sumiço do corpo de Richard?

― O padre. ― e, nem ela nem Christopher encontraram sentido algum naquela informação. ― O que me deixa mais confusa ainda!

― Ok. Te deixa confusa, eu sei. Tô acostumado com isso.

― Beleza, vocês dois. ― Christopher conseguiu se meter em tempo de evitar mais um conflito e voltou ao assunto principal. ― Mas, eu também estou confuso, Matias. O que os dois têm a ver?

― Vocês não sabem? Mesmo?

Qualquer um que observasse os noivos de caras confusas naquelas telinhas, perceberia que a resposta era óbvia.

― Não.

― Hum… não.

― Ah… Por isso vocês foram diferentes com o padre. ― então um semblante pacífico se fez no rosto de Matias.

― Tá ficando estranho, cunhado. ― e estava mesmo. ― Desembucha de uma vez.

― Olha só: se nós queremos investigar o paradeiro do Richard, temos que nos aliar a quem entende da situação. O padre foi o último que sabemos… ― e se corrigiu em tempo. ― quer dizer, ele disse que viu o Richard em pessoa na manhã seguinte à tentativa de assassinato. O padre também é meio que confessor, amigo, guru, não sei… da Marcelina. A Marcelina acompanhou a morte da Dani e foi depois da morte da Dani que ela passou a se aconselhar com o padre e namorar o delegado.

― Nossa! ― havia um levíssimo tom admirado naquela observação de Sara. ― Como você sabe disso?

― Ainda não entendi. ― Christopher não se admirou. Simplesmente não entendeu.

― Eu também não. ― Sara.

― Ai, gente! O padre é o nosso elo! Eu tenho certeza que ele sabe alguma coisa sobre a morte da Dani que a Marcelina contou pra ele e por isso eles conversam volta e meia. E aposto um dinheirão – que eu não tenho – que eles estão juntos na suspeita sobre o prefeito. Agora, com o sumiço do Richard, os dois devem estar por um detalhe de descobrir onde o prefeito se relaciona com as duas mortes porque eles se juntaram ao delegado.

― Tá, o padre tem umas ligações sinistras com essa gente, mas achar que ele e a Marcelina desconfiam do prefeito…

― E o delegado, lembra, Sara? ― aquilo precisava ser registrado.

― Isso é loucura, Matias! ― ela reafirmou.

― Loucura que saiu no jornal. Se você não lembra, amor, eu lembro. ― embora fosse visível que Christopher entendera o ponto de Matias, era ainda mais visível que ele não gostara daquilo.

― Como assim, Christopher? ― Sara já se sentia uma estrangeira numa conversa sobre a capital de outro país.

― A matéria deixou bem claro que o delegado sabia de alguma coisa que ligava o prefeito à morte do Richard e que talvez fosse uma amante… No caso a gente já sabe até quem é o infeliz.

― Tá, mas e daí?

― E daí que, se o motivo da morte da Dani foi ela ter descoberto o amante do Pedro? A Marcelina provavelmente saberia da traição porque a prô Dani sempre contava tudo para ela. E, depois, ela quis alguém pra desabafar e achou o padre.

― O que quer dizer, mana, que a tentativa de assassinato do Richard pode ser apenas uma repetição do que aconteceu com a Dani.

― E a Marcelina, estando por dentro e informando o padre, fez com que um elo surgisse quando o Richard apareceu na casa dele. Entendeu, amor?

― Não esqueça que ela é namorada do delegado renegado. ― Matias pontuou.

― Também tem isso, mesmo. ― e os dois pareciam dois amigos de longa data falando com alguma iniciante sobre um assunto há muito tempo entendido por eles.

― Ela pode ser a nossa ajuda! Tenho certeza que ela gostaria de nos ajudar. ― Sara não se importou com isso. Aquela postura era dela também, volta e meia.

“Gostaria” não sei se é a palavra certa, Sara, mas, enfim…

― Hum… Matias? ― aquele tom utilizado por Sara incomodou seu irmão. Era prelúdio de alguma coisa perigosa.

― Que foi? ― Matias deixou claro conhecer o perigo.

― Você ainda é amiguinho dela?

― E eu já fui? ― foi a tentativa dele de esquivar o golpe iminente.

― Vamos ter que dar um jeito! ― o cerco se fechava.

― Pelo amor de Deus! Estamos dizendo até agora que o nosso elo é o padre, caramba!

― Que é isso, Christopher?!

― Vocês são meio burrinhos, às vezes!

― Cunhado! ― até Matias chiou. Ela, tudo bem, mas, ele?

― A gente tem que falar com o padre, não reto com a Marcelina! Ele é o elo, vocês mesmos disseram isso!

― Ah… é mesmo.

― Ai, amor! Às vezes você é grosso demais!

― Eu? Ãh?

― Gente… E nem casaram ainda.

― Quem vai falar com o padre?


Alô? ― soou a voz de um velho.

― Oi padre!

― Oi. Quem fala?

― É o Matias.

― Não é. ― e um velho muito franco.

― É sim! Falamos há pouco tempo sobre um amigo meu…

― Sim, sim! É você. Eu sei que é. O que você precisa, garoto?

― Ah, bem, eu… Como eu poderia dizer…?

― Pessoalmente. Fica sempre melhor. Já vi que aprontou de novo! ― aquele tom do padre era completamente desconhecido de Matias. Se bem que, na verdade, só pouco conhecia do padre. ― Amanhã estarei no confessionário às dez da manhã. Você tem que parar de assistir essas coisas, rapaz! Isso vicia.

― Oi? Como é, padre?

― Tudo bem, eu já tive minhas mulher nessas telinhas, na minha juventude. Depois, criei juízo.

― Ah, padre? ― e crescia um calor a subir pelo pescoço de Matias e queimar o seu rosto. ― Ai, meu Deus! Eu não sei se…

― Não se preocupe! Esteja amanhã às dez horas na secretaria paroquial que eu te confesso outra vez. Um abraço. Tchau!


Mulheres nas telinhas?

― Não te faça de sonsa, Sara!

― Você se confessa com o padre?!

Sara já não sabia se deveria rir ou se espantar.

― Não! ― aquilo foi muito veemente, quase como se o ato religioso fosse motivo de vergonha para Matias. ― Eu não me confesso. E se me confessasse é meio óbvio que seria com o padre!

― Tá. Mas, afinal, essas mulheres de telinhas, eu conheço?

― Garota… Espero que não. Não gostaria te ver ali no meio… ― depois da defensiva, uma provocação. ― Se bem que é melhor eu ter um pouco de cuidado, não é?

― Matias! Olha bem com quem tu ta falando! Sou sua irmã mais velha. Há! Há! Há!

― E mais sem vergonha também. Nunca vi isso na minha vida. Fogueteira.

― Rapaz!

― Ó, o Chris atendeu.

― E aí, o que deu?

Desta vez, na chamada, havia apenas duas telas se relacionando. Sara usava seu próprio telefone e os irmãos estavam no mesmo quarto, agora.

― O Matias vai se confessar porque fez calo na mão de novo. ― ela riu.

― Sara! Nojenta. ― outra vez o rubor tomou conta de Matias.

― Relaxada! ― Christopher não sabia se ria ou se socorria Matias. ― Espero que isso não seja verdade, Matias.

― Não é. Fique tranquilo.

― Ufa! Pensei que você estivesse louco. Se confessar por bater uma?! Daí sim, né?! Logo você.

E uma gargalhada preencheu o quarto de Sara, na casa n.º47 e o de Christopher, na 57.

― Vocês dois andam muito folgados pro meu gosto. ― falou o Matias mais beiçudo dos últimos dias.

― Tá bom, chorão. E daí? ― Christopher retomou o foco.

― Não sei. Amanhã teremos um encontro com o padre, às dez da manhã.

― Eu não quero ouvir você falar das tuas nojeiras… ― Christopher começou a brincar outra vez, quando Sara interrompeu,

― Cala a boca! Vamos todos juntos, sim! Está decidido: vamos investigar o Richard Steward.


Naquela cidade, simplesmente não havia como ser muito distante. Portanto, não muito distante da casa de Matias e Sara ou de Christopher, Eugênio sentou-se somente de roupão em sua cama, cruzando as pernas, ao lado de Marcelina, já deitada, que vestia uma camiseta folgada de seu namorado. Ele falou:

― Quando você fica assim, alguma coisa se passa nessa cabecinha, eu sei. E, o que eu acho que pode ser pior, quando você me encara assim, sei que sou eu o assunto.

― Hum. Analisando linguagem corporal agora, é delegado?

― Sim. Faz parte do pacote.

Um sorriso frouxo, um tanto forçado, e os dois ficaram em silêncio por algum tempo. Até que:

― Eu acho que as coisas não deveriam ter seguido por onde seguiram. ― era Marcelina, enquanto ajeitava o rosto sobre uma de suas mãos.

― Mas, seguiram. ― ele tinha algo mais naquele olhar. ― Não se preocupe com isso, Marcelina. Eu vou dar a volta por cima. Logo descobrirei um jeito de me recuperar do coice do Rei.

― Não fale assim. Até porque… Deixe quieto.

― Deixe quieto? Quando alguém deixou quieto depois de ouvir essa frase?

Teriam rido se fosse em outros tempos.

― Eu estou preocupada com o jeito que esta situação está sendo levada.

― Como assim?

― O padre José pediu que eu vá à paróquia amanhã… ― sua testa vincou. ― Ele disse que precisa falar comigo sobre algo muito sério.

― O padre? O que um padre tem pra falar de urgente com a minha namorada?

― Você nem imagina. ― um suspiro. Estava aquela hora que ela não queria que chegasse. Ainda mais naquela situação.

― Quero saber mais disso.

E uma inevitável explicação do relacionamento entre Marcelina e o padre José foi colocada às claras para o namorado.

― Meu Deus! Ele te deu todo esse apoio esse tempo todo?

― Sim.

― E nunca me contou isso… ― a única coisa que se poderia dizer é que Eugênio estava incomodado, embora não se pudesse saber os motivos. ― Por quê?

― Ora, Eugênio! Eu me comprometi. Além do mais… ― um sorriso tímido quis nascer nos lábios de Marcelina. ― Eu ia arriscar quebrar promessa feita pra padre?

― Ave Maria, Marcelina! ― o incômodo tornou-se ainda mais evidente.

― Cheia de graça! ― ela precisa contornar a situação. ― Amor, eu não poderia te contar, a nossa situação era outra. Além do mais, eu queria manter isso entre dois amigos, entende? Não entre eu e meu namorado. Queria outra coisa, outro tipo de relação… Queria a Dani de volta.

― Eu sei.

Outro silêncio se passou. Uma mão pousou sobre os cabelos de Marcelina e fez carinho. De namorado.

― Descanse. Amanhã você tem um compromisso às dez.


Foto de destaque: Bernardo Artus / Unsplash.

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