Lá e cá sem graça

Uma moça bonita, acostumada que chamasse a atenção, entrou num ônibus prateado, apresentou uma língua de papel com um monte de letras pontilhadas, uma carteirinha verde com uma foto ainda mais escabrosa que o papel em si e pôde seguir a diante.

Uma veia pulava no pescoço branquelo. Se, por um lado, o seu cachorro não queria um solzinho no início da manhã, ela, com certeza, queria um solão o dia inteiro.

A poltrona azul esperava para acomodar seu corpo desejoso de praia. Viajaria feliz, apesar do incômodo de ser assim: num ônibus velho e cheio de gente fedida e feia. Ela não era. De acordo com seu padrão, ao menos.

Jogou-se na poltrona e engasgou no ato de conter uma risada mais louquinha que quase escapou de sua garganta, excitada pela expectativa da jornada naquelas praias chocantes. Um desaforo de lindas, isso elas eram!

Olhou para seu celular que mostrava seus cabelos ajeitados que logo estariam desgrenhados por dormir tipo uma bêbada naquele banco – ônibus jamais foi incômodo para seu sono – e pensou “que se lasque!”. Teria todo o dia seguinte para ajeitá-lo em um apartamento à beira-mar… “Ui! Tudo de bom!” e estremeceu de expectativa.

O dia seguinte chegou e, junto dele, aquela nojenta sem noção que não foi convidada: a chuva.

Mas, não uma chuva potencialmente perigosa pra os telhados mais frágeis, um temporal que chega com tudo e logo passa. Era daquelas fininhas e sem graça, que deixam o dia mais curto e as horas mais compridas, se conseguir entender o raciocínio dela. Aquelas que chegam para ficar por alguns dias.

Era só o que faltava! Não se recordava de ter convidado o inverno para passarem as férias juntos. E estava solteira, não queria um rabugento azedo estragador de programas de verão no seu encalço.

Quem diria… Lá se foram cinco dias de frio e chuva… O jeito era aceitar.

Mudou os planos e decidiu embarcar outra vez: voltaria às terras vermelhas, distantes de mares e oceanos, de badalação de uma praia pulsante de vida, do jogo de frescobol na areia, de gente bonita e paisagens deslumbrantes… Voltaria: o desaforo já era demais!

Embarcou naquela lata outra vez e voltou, nas mesmas condições: outra dose de embriaguez sem álcool. Desta vez, para curtir o friozinho de um inverninho gostoso fora de estação.

Chegada ao destino e… que inverninho, que nada! Era um inferninho, mesmo. 35 graus Celsius e, outra vez, o clima puxou o tapete.

Foto: Tristan Hess / Unsplash.

Foto Destaque: Church of te King / Unsplash.

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