Episódio Quatro: “Entre sonhos e pesadelos”

Os sons dos sapatos de salto alto e os tacos de madeira dos homens enchiam um corredor na prefeitura de Alberion Valley, pois um conselho se reunia. Toda terça-feira, os conselheiros se encontravam para discutir os assuntos públicos da cidade e o serviço do senhor prefeito. E, desta vez, seria exatamente esse o personagem principal daquele encontro.

― Um prefeito envolvido num escândalo de morte e traição? ― um senhor mais ou menos idoso cochichava ao ouvido de outro homem, um mais jovem. ― Se fosse só uma traição…

― Eu não vejo problema nisso. ― o mais novo respondeu. ― Sei de gente aqui de dentro que tem mais amantes que filhos.

― Se esse fosse o real problema, tudo bem! ― o velho resmungou, como se falasse com alguém desatento. ― O problema não é a amante do prefeito… Mas quem é essa pessoa. E como se envolveram nesta história de guerra civil.

― O Pedro não tem esse gabarito, Adélio. ― o mais novo disse, debochando. ― Eu duvido. Mas, mesmo que ele estivesse envolvido nisso, o que a gente tem que ver?

― Você foi eleito conselheiro exatamente para isso, ora bolas! ― Adélio resmungou mais alto. Estava irritado.

Uma mulher entrou na sala. Era Catarina. Atrás dela, Fred chegou, carregando algumas pastas pretas e colocando-as nos lugares dispostos ao redor da mesa. Era a pauta.

― Antes que comece, saiba que eu estou com medo de que isso tudo seja apenas a ponta do iceberg, Dagoberto. ― o velho puxou sua cadeira para mais perto da mesa oval e passou a analisar o papel que tinha diante de si, antes de ser interrompido uma última vez.

― Hum. ― Dagoberto desdenhou. ― Seja como for, eu duvido que ele sequer sonhe com uma namorada.


Uma mulher estava a poucos passos de uma casa onde encontraria a secretaria paroquial de Alberion Valley. Ao lado do edifício, um campanário anexo à Igreja Matriz indicava os três minutos que faltavam para as dez badaladas da hora seguinte da manhã. O sol estava quente e a cidade voltava à normalidade do verão abafado dos dias que se aproximavam do natal, depois daquele frio descabido dos dias anteriores.

― Ah! Sara?… Matias? ― foi uma novidade encontrar aqueles dois ali. Surpresa, Marcelina flagrou-se calculando qual deveria ser a religião dos Brothwell.

― Oi Marcelina. ― disse Sara, por algum motivo, visivelmente constrangida.

― Oi Marcelina! ― embora também constrangido, Matias parecia muito mais empolgado que a irmã.

De qualquer forma, algo sugeria que os dois foram pegos fazendo arte, no sentido negativo da palavra. Alguns sorrisos constrangidos, como se todos estivesse naquela situação de “fazer algo indevido”, então um barulho pouco delicado de abrir de porta quebrou o clima antes que ele se formasse.

― Ah! Que bom! Chegou mais um! ― e o padre José de Via-Fuore surgia. ― Aquele que faltava!

― Bom dia, padre! ― os três presentes na sala saudaram o clérigo ao mesmo tempo em que procuravam o recém-chegado.

Esbaforido e um pouco vermelho, respondendo ao comentário do padre e a pergunta dos demais, quem entrou foi Christopher:

― Ah… Bom dia gente… ― suspirou. Havia corrido. Mas chegara a tempo.

O sino recém soava as suas primeiras badaladas quando ele entrou na secretaria.

― Ótimo dia! ― o padre concordou, com um enorme sorriso na cara e o olhar brilhante de quem está pronto para uma diabrura.

― Sim, padre, ótimo. ― Marcelina disse. Em resposta ao olhar do religioso, o dela expressava apreensão.

Foi somente, então, que se passou pela mente de Marcelina a dolorosa lembrança: Sara devia ter-se casado no sábado que passou. Não pôde por causa da morte de seu padrinho. Provavelmente estivessem ali para resolver isso. Quem sabe, remarcariam a cerimônia. Contudo, o chamado do padre pegou os quatro desprevenidos:

― Venham comigo. ― e já retornava ao corredor.

― Quem? ― o olhar nervoso que encarou as costas do padre era de Matias.

― Ora, todos vocês, é claro! Marquei com vocês ontem. Ou já estão esquecidos? ― a impaciência na voz do padre reforçava a impressão do sorriso histérico.

Algo estava fora do lugar. O padre havia combinado a confissão de Matias, no caso, o encontro com os três. Marcelina deveria ser o passo seguinte, não o imediato.

― Venham logo, vocês quatro! ― resmungou o padre, sem perceber o olhar indignado do secretário da paróquia, um elemento quase decorativo.

Havia um senso de pressa no caminhar do padre, como se esperasse ver interrompido seu assunto com os quatro a qualquer momento. Assim, foi seguido por pessoas um tanto confusas.

Outra porta se abriu e, à passagem dos cinco, se fechou para guardar o Padre José, Marcelina, Matias, Sara e Christopher numa sala de catequese. Lembranças vieram às mentes dos alberionvalenses quase de imediato. O cheiro, sobretudo, de madeira e pó numa combinação característica. Um assoalho de madeira coberto por cera vermelha. E o quadro negro deteriorado. No fundo da sala, um monte de cadeiras empilhadas. Para Marcelina, lembranças de um passado muito distante, mas, para os outros, nem tanto.

Uma mesa estava arrumada a um canto, num gosto típico de igreja, como se fossem iniciar um encontro catequético também eles: a bíblia aberta ao centro da mesa, o crucifixo de um lado e uma caixinha de fósforo mal escondida à base de uma vela acesa do outro lado davam esta impressão. Havia ainda mais quatro bíblias a um canto.

― Sentem-se, à vontade. ― o padre recomendou, e dirigiu-se à cadeira mais próxima da mesa.

À vontade nas cadeiras duras de madeira e iguais.

― Vamos começar nosso encontro.

Os quatro entreolharam-se, desconfortáveis e confusos.

― Eu sei que não estão entendo muito bem. ― o padre ponderou. ― Mas, antes de entrarmos no núcleo do que nos reúne aqui, quero fazer uma recomendação: não tenham medo de enfrentar o caminho que se abriu a vocês. Mas, saibam: ele é perigoso.

Uma bíblia para cada um e a citação de um evangelho: Mateus, capítulo cinco. Deveriam ler em casa. Sim, ele passou aquele tema de casa.

Feito isso, uma reunião secreta teve início.

― Espero que entendam que estamos em guerra, nesta cidade.

O ar, o tempo. Tudo pareceu parar. De bem-aventurados estes e aqueles por isso e aquilo, passaram a falar sobre a iminência do perigo.

― E, em breve, no nosso país inteiro.

― Como assim? ― o sorriso educado ou, quem sabe, cínico de Marcelina não bastou para disfarce. Havia um choque marcando aquele rosto levemente maquiado e um calafrio percorreu seu corpo.

― Não se preocupe, Marcelina. ― José suspirou, sorrindo na intenção de passar confiança. ― Eles estão mais envolvidos nisso do que você pode imaginar.

― Como assim, padre? ― a voz de Matias saiu falhada. Sua garganta estava seca.

― Pelo amor de Deus, o que está acontecendo aqui? ― com um estalo, a bíblia de Sara estava fechada.

Christopher permaneceu quieto. Realmente, algo estava errado.

― Vocês fazem parte da mesma história. Uma história da qual não deveriam fazer parte. ― agora sim, a história avançaria. Padre José chegou aonde queria.

― Marcelina, há seis anos, eu te fiz um pedido de amigo: que confiasse em mim. Isso aconteceu quando Daniela morreu.

O olhar de Marcelina não disfarçava: ela não estava gostando do rumo que tomava aquela conversa. O ar pesava mais e mais. Ela não conseguia parar de olhar do padre para os três, possivelmente já imaginando a que a sua história seria ligada naquele momento. Sua respiração pesava e fluía mais e mais curta.

― Peço que continue a confiar agora. ― então, o padre passou a olhar para os três mais jovens da sala. ― Você está vendo três pessoas que se ligam diretamente a você e a história de Daniela porque cruzaram o caminho da mesma pessoa. E não me refiro a Pedro Dunkle-Nacht.

A partir dali, a longa história foi narrada: aquela que une Matias, Sara e Christopher ao assassinato evidente de Daniela, sua ex-professora.

― Matias, eu peço o mesmo a você. ― era preciso que todas as partes estivessem cientes de onde estavam se metendo. ― Confie em mim.

Matias encarou o padre com um rosto lívido: ele não sabia o que dizer.


Fale! ― Richard apontava um dedo para a cara de Matias. Seus olhos ferviam de ódio. Sua voz expressava toda a mágoa do amigo.

― Eu… ― Matias balbuciou, mas não conseguia.

― Conte, Matias! ― Richard ergueu suas sobrancelhas, aquele gesto que ele fazia quando estava diante de alguém que ele sabia estar errado. Diante de um pecador. De um criminoso, aliás. ― Conte como você me abandonou.

― Eu não… ― mas Matias não conseguia dizer qualquer coisa. Estava apavorado. Sua voz não saía de sua garganta. Sua língua endurecia, parecendo protestar. A mandíbula travava em denúncia de sua responsabilidade pelo desastre.

― O que foi? ― Richard encarou-o com desprezo. ― Não consegue falar? Não consegue falar, como não conseguiu chamar socorro para mim? É isso?

― Pare… ― um suspiro saiu falhado, raspando sua garganta. Isso não estava certo. Ele era seu melhor amigo.

― Amigos, né? ― de alguma forma, Richard conhecia os pensamentos de Matias. O que não seria estranho, ele quase sempre acertava o que Matias estava pensando. Eles até fizeram apostas sobre isso, algumas vezes. E Richard quase sempre ganhava. ― Até quando? Até um tiro nos separar?

― Rich… ― não seria possível dizer aquele nome. Matias já não era digno de pronunciá-lo. ― Por favor… Pare!

― Nunca. ― a palavra saiu como um suspiro desinteressado. Os frios olhos de Richard encararam os desesperados de Matias. ― Até que você morra e me encontre no outro lado, nem que seja no inferno!

― PARE! ― Matias gritou.

Seu corpo inteiro sofria com espasmos. Suas mãos eram folhas ao vento, tremendo estupidamente. Sua garganta doía. Sua camiseta estava encharcada e, de sua testa, escorreram as gotas de suor que caíam sob seus olhos arregalados. Seu quarto parecia pulsar, assim como seu peito, prestes a ver saltar o coração. Já não tinha certeza da suficiência do tamanho de seus pulmões. Todo o ar da Terra poderia entrar por sua boca e ainda seria pouco. Tinha morrido, ao menos em sua mente. Richard o chamava do mundo dos mortos. Um mundo do qual jamais fez parte, mas de onde o assombrava.

Não era Richard. Era apenas um rosto que ela assumiu para atormentá-lo. Era a culpa. Outra vez, batendo à porta.

Deitou-se, ainda de olhos arregalados, sentindo o suor gelado causar-lhe arrepios. Não se trocaria. Ainda haveria outras rodadas. Sempre tinha. Suspirou e deixou mais lágrimas rolarem.


Matias. ― era Christopher, finalmente abrindo a boca naquela conversa. Ele tinha uma das mãos apertando o bíceps de seu cunhado. Era um sinal. Era proximidade, confiança. Fidelidade. ― Estamos juntos de ti. Conte.

“Amigos, né? Até quando? Até um tiro nos separar?”, ecoou na cabeça de Matias.

― Sim. ― por fim, Matias espantou o fantasma e conseguiu falar. Respirou profundamente e seguiu a conversa que já era esperada com receio desde a noite anterior.

Marcelina encarou-o confusa, mas, curiosa. Percebeu o momento. Percebeu o olhar. Aquele que, sabia, ela mesma já carregara.

― Estávamos na festa da despedida de solteiro da minha irmã e do Christopher, na clareira, na noite de sexta-feira, quando aconteceu a cantata, aqui na praça. Quando a Sara e o Chris sumiram, eu o Richard fomos investigar onde eles estavam. Nos separamos…

Aquietou-se e baixou a cabeça. Ninguém o pressionou. Sugou mais um pouco de ar e ergueu a cabeça, novamente.

― Nos separamos. Richard foi para um lado e eu para o outro. ― então, sorriu como quem ri para não chorar. ― Não fosse eu querer dar um susto nele…

Matias narrou como chegou ao momento em que os dois amigos se depararam com Leonardo e Pedro abraçados no meio da floresta, sua fuga, o momento em que Richard foi deixado caído por Leonardo, a ordem do amigo e a fuga do local. Matias parou aí. Christopher, então, retomou a história até que chegassem à noite anterior. E o padre concluiu:

― Foi quando entendi que já não havia mais como querer lidar com isso tudo sozinho em Alberion Valley. ― ele os encarou séria e demoradamente. ― Eu preciso de vocês. Aliás… Nós precisamos.

A confusão tornou-se visível naqueles rostos.

― Eu já trabalhei em muitos lugares, como vocês podem presumir. ― o padre começou a contar a sua própria história. ― Um desses lugares, há muito tempo, foi a linha de frente da batalha pela independência de nosso país. Eu era um padrezinho há pouco ordenado, então cuidava daqueles homens e mulheres quase mortos atendendo confissões de arrepiar até A alma, administrando unções dos enfermos, fazendo homilias de esperança e de coragem… Tentava, ao menos.

― Quando cheguei a Alberion Valley, cheguei sonhando que aqui eu seria, finalmente, um bom e velho padre. ― ele riu. ― Mas, foi eu tomar posse e a história se mostraria outra. Eu teria de ficar aqui para resolver mais que assuntos paroquiais.

Com um brando gesto de mão, indicou os quatro.

― Vocês mudaram para sempre a ideia de novidade paroquial que eu pretendia viver. Mas, não se preocupem. Isso não é culpa de vocês, nem algo errado. Essas coisas me procuram, e não é de hoje.

Todos riram timidamente, mas o padre riu plenamente.

― Riam com vontade. ― ele disse, colhendo uma lágrima feliz equilibrada no canto do olho. ― Descobrirão que isso ajuda muito. Às vezes, ajuda mais que remédio e, eu diria… E me arrisco em dizer isso, vejam bem! Eu diria que, às vezes, quando já não se sabe mais nem rezar, ajuda mais que a oração.

Desta vez, sim, uma risada mais encorpada encheu o espaço, e viram dissipar parte da tensão existente. E ele prosseguiu:

― Enfim. Nesses anos todos acabei criando uma rede de amizades bastante interessante, que me permitiu ajudar muitas pessoas em situação semelhante à de vocês. Hoje, espero que essa rede me ajude a colocar certos pingos nos “is”.

Marcelina, então, falou:

― Tudo bem. ― ela estava assimilando. Quase não falou durante as narrativas. ― E por qual motivo estamos aqui? De verdade? O que vamos fazer?

― Acho que você já sabe a resposta. ― o olhar profundo do padre era evidente demais.

― Sim. ― e ela suspirou. ― Vim esperando por isso. Foi por esse motivo que, ontem, contei pro Eugênio sobre nossas suspeitas.

― Imaginava que tivesse feito isso mais cedo. ― o padre confessou surpreso. ― Mas, isso é bom. Como ele reagiu?

― Grato pelo seu apoio.

Ele olhou para o chão.

― Entendo.

Outro momento de silêncio. O padre pensava, sorrindo para alguém distante.

― Vamos precisar dele. Essa sua atitude nos poupará tempo. ― então, voltou a incluir os outros três na conversa.

― Hoje, estamos selando uma união. ― aquilo era tão solene quanto prático. ― Nesta sala, nos reunimos como um mesmo grupo. A partir de hoje, vamos investigar a história que une Richard Steward a Daniela di Felipa. Para os outros, somos apenas um grupo bíblico: Discípulos de Emaús.

Não havia dúvidas sobre isso.

― E qual é o próximo passo, padre? ― Marcelina perguntou. Havia um leve tom de entusiasmo em sua fala.

Obviamente, Marcelina estava muito mais adiantada no processo de aceitação daquela ideia. Quanto a Matias, Sara e Christopher, isso ainda era motivo de assimilação, não de decisão e comprometimento. No entanto, esse tempo eles não tinham e a assimilação natural não seria uma opção. Tudo era para ontem.

O próximo passo… ― José mastigou as palavras. ― Tudo bem. Mas, precisamos de Eugênio.

― Por quê? ― Christopher perguntou. Uma sobrancelha estava alteada.

― Porque Eugênio tem acessos. Eu também tenho, e preciso dele e ele de mim. ― então, deu o comando a Marcelina: ― Chame-o.


Imagem de destaque: Ian Espinosa / Unsplash.

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