Um trem covid-19

Foto: Dmitrii Vaccinium // Unsplash

O processo aconteceu como de costume: tudo começou quando a cancela baixou, a sirene apitou e o trânsito parou. Lá vinha ele.

Os carros pararam, o pessoal escutou se o trem vinha, olhava para ver de que lado chegaria, que cor teria, quantos vagões e o que carregava. Sabiam que era um trem, mas não sabiam qual era e o que trazia.

Quando o trem chegou, entenderam que pouco ou nada se descobriria de dentro de um carro, que as perguntas não seriam verdadeiramente respondidas por que ninguém consegue acompanhar o ritmo de um trem passando para contar os vagões. Então as pessoas voltaram suas atenções para si mesmas e seus carros e, em seguida, para a estrada que continuava do outro lado do trilo. A esta altura, já impacientes e a buscar por culpados.

Outros, sequer buscaram saber de tais informações: alguns nem mesmo chegaram a estressar-se. Muitos aproveitaram o tempo para ler, se atualizar nas série e no cinema, fazer suas orações e até descobriram que existem outras pessoas além de si mesmas dentro do mesmo carro. Foram tantas as surpresas que estiveram todo este tempo mais próximas que o outro lado do trilho…

Houve até quem descobriu vocação para profetizar! Subiram nos capôs, abriram tetos solares, usaram megafones e brandiram cajados anunciando medidas infalíveis, sendo profetas da desgraça e, alguns, anunciando esperanças. Certas pessoas acalmaram umas às outras, ajudando especialmente aquelas que ainda eram criança demais e não aceitavam o fato de que realmente existia um trem passando bem em frente.

Mesmo assim, nem tudo se pôde proteger. Houve quem superestimou a si e ao lado de lá dos trilhos, tentou furar o bloqueio: apanhou feio, saiu destruído, sentou a um canto a lamber as feridas e não chegou ao outro lado. Além disso, permaneceu deste lado com menos do que tinha antes e a espalhar sujeira do resultado catastrófico de sua impaciência.

Por fim, entre esperneio e gritaria, choro e ranger de dentes, orações e bom uso do tempo, o trem terminará de passar. Entre as rezas, um recitava: “Queira Deus que o primeiro da fila saiba sair do lugar com segurança, chegue ao outro lado dos trilhos para terminar de percorrer o seu trecho da Avenida 2020 e os demais também”.

Até lá, o jeito será escutar: Piuí! Piuí! E ao pessoal dos automóveis, lembrar que a função de todo trem é esta mesma: passar. E este trem está passando. Uma hora terminará sua trajetória, mesmo que, em sua passagem, faça o chão tremer. E dirão: “Adeus, covid-19!”.

Porque a vida segue!

Foto: Markus Spiske // Unsplash

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