Cancelamentos por covid-19 ensinam coletividade

Ao redor do mundo, os grandes eventos cancelados ou adiados para diminuir o contágio da covid-19 dão indicações de como se está enfrentando a pandemia e mostram como convivemos em coletividade.

Vista panorâmica de Tóquio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos do ano que vem. Foto: Yoshikazu Sekiguchi // Flickr

Cancelados![1]

Simplesmente, o freio do mundo foi puxado. E quem o fez? Covid-19! A doença tem alcançado relevância histórica desde pouco depois dos brindes e desejos de feliz ano-novo (que parecem ser as preces que ainda seguram maiores tragédias) e mudou o calendário desde que apareceu. Um dos maiores prejuízos são os cancelamentos e remarcações dos eventos, dos grandes aos pequenos, atingindo os mais diversos eventos:

Das St. Patrick’s Day Parade, que reúnem milhões de pessoas em Dublin, Nova Iorque, Boston e outras grandes cidades colonizadas por irlandeses, e 420 Vancouver, festival de maconha no Canadá, passando pela Hannover Messe, feira comercial na Alemanha, que reúne em torno de 200 mil pessoas e pela London Book Fair, famosa feira de livros Inglaterra, pela qual passam cerca de 25 mil pessoas, até à Assembleia Geral Anual da Anistia Internacional, realizada em San Diego, EUA, e reúne uma base de 600 pessoas.

Os parques da Disney e Universal de Orlando, Califórnia, Paris, Tóquio, Hong Kong e Xangai também fecharam suas portas por enquanto para evitar disseminação do vírus. O mesmo aconteceu com a Broadway e outros grandes palcos do mundo, como os festivais Lollapalooza e tours de vários artistas.

Esportes

Houve certo espanto, em março, quando o Comitê Olímpico Internacional (COI – em português) anunciou o adiamento das Olimpíadas de Verão de Tóquio 2020 para 2021[2], embora a medida já fosse esperada por alguns havia algum tempo. Os passos seguintes, que incluíram o cancelamento da Libertadores, UEFA, La Liga, Eurocopa, etc. e do adiamento da Copa América, também para o ano que vem, geraram ainda mais surpresa.

Outros eventos, mais conhecidos de grupos específicos, também ficarão a ver navios: NASCAR, Maratonas de Boston e de Tóquio, NBA, Carolina Cup Races, Houston Rodeo e por aí vai.

Non habemus Missa

A Igreja católica, conhecida por ser quase imutável, também foi protagonista de grandes surpresas ao reorganizar seu calendário e liturgia. Missas são celebradas com pouquíssimos fiéis, a partir de agora transmitidas apenas via live ou televisão. Redes católicas de televisão – bem como de outras confissões religiosas – tornaram-se mais importantes que nunca para muitas pessoas.

Alguns eventos que incluem preparação para grandes públicos, como o Congresso Eucarístico Internacional de Budapeste e o Nacional de Olinda e Recife, ambos programados para este ano, agora acontecerão em 2021.

Encontros que são caracterizados por acontecerem com o Papa também foram remarcados[3], mesmo sendo previstos para outros anos: o Encontro Mundial das Famílias (EMF) de Roma 2021 passa para 2022 e a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de Lisboa 2022, para 2023. Ambos são encontros que reúnem pessoas na casa das centenas de milhares ou mesmo dos milhões. Para quem tem boa memória, os 3,7 milhões de jovens na praia de Copacabana na JMJ de 2013 ainda impressionam.

Eleições no Brasil e Enem

Domesticamente falando, as eleições municipais do Brasil para este ano estão na mira da covid-19. Bem como o Enem. Uma vez que foram programados para o fim deste ano (outubro e novembro), ainda não se sabe ao certo o que se deve fazer.

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) instituiu um Grupo de Trabalho para analisar e prever os impactos da pandemia que possam alcançar as eleições.[4] Até lá, existe um longo caminho.

O Enem também aguarda, mas ainda não despertou muita preocupação. Ele está previsto para acontecer somente em novembro. Por enquanto, nada além do normal.

Um enfrentamento coletivo

Foto: Ashkan Forouzani // Unsplash

Talvez pelo fato de este ser um ano de Olimpíada e pelo esporte conseguir unir pessoas com as mais curiosas diferenças, o adiamento da Tóquio 2020 e das sucessivas repetições nos mais específicos torneios somados à situação que vivia a Itália chamou a atenção do mundo para algo decisivo: a maneira como o novo coronavírus seria enfrentado.

Ao ver estes eventos, dos maiores e mais importantes econômica e politicamente falando, serem cancelados a toque de caixa, as pessoas ao redor do mundo passaram a entender que uma maneira histórica, inédita, seria utilizada para conquistar a libertação da pandemia. E isso passou a preocupar um pouco mais.

Preocupar pelo fato de que estes grandes eventos geralmente são muito bem salvaguardados mas, justamente estes foram os primeiros a dar o recado: cancelado! E, em nossa sociedade, o verbo “cancelar” associa-se ao verbo “perder”, uma vez que o cancelamento traz consigo, de maneira quase natural, uma perda singular e, no caso, o medo era da perda de dinheiro e de vida. Para alguns, pelo que se pôde perceber, nesta ordem mesmo. Mas, quem sou eu para julgar?

E entrou em jogo uma realidade que facilmente se esquece: que vivemos, se não em uma comunidade, ao menos em uma coletividade. Vive-se numa coletividade (algo que, no Brasil, é previsto na Constituição, que a coloca acima do interesse individual).

E o ensinamento destes cancelamentos me parece ser facilmente encontrado aí: na ideia que a coletividade traz, quando nos força a colocar os interesses individuais de lado para que possamos ter uma coletividade com a qual contar durante e depois da crise da covid-19, ou das crises que ainda estão por vir.

Veja bem, quando hospitais abrem mão de receber tantos pacientes quanto poderia para diminuir o contágio e, assim, deixam de lucrar o normal, ou quando profissionais da saúde se dispõem a lidar de frente com um vírus desconhecido e altamente contagioso, quando pessoas se voluntariam colocando-se na linha de frente na batalha contra um vírus como este, na verdade, é isso que pode ser visto: interesse particular colocado de lado por um tempo necessário e possível para existir o bem estar da coletividade.

Quando uma Prefeitura de Passo Fundo (cidade onde resido) exige por meio de decreto que seus cidadãos usem máscaras, no fundo, é por uma preocupação com a coletividade. Assim como uma empresa que libera (perceba que eu não falo em demissão!) pessoas que estão nos grupos de risco e remaneja seu pessoal para não parar. Haverá maior esforço do grupo da empresa, mas a coletividade que é a sociedade estará mais tranquila por ser protegida e haverá um retorno.

Assim, sabe-se que uma crise é vivida no hoje por todos, e que no amanhã se celebrará uma “vitória” por este esforço de todos.

Frase “Heróis trabalham aqui” em frente ao Columbia St. Mary’s Medical Center. Foto: Tom Barrett // Unsplash

[1] Forbes. Disponível em: <<https://forbes.com.br/negocios/2020/03/covid-19-saiba-quais-eventos-foram-cancelados-ate-agora/>> Acesso: 27/4/2020.

[2] BBC. Disponível em: <<https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52021589>> Acesso: 27/4/2020.

[3] A Santa Sé. Disponível em: <<http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2020/04/20/0237/00519.html>> Acesso: 27/4/2020.

[4] Tribunal Superior Eleitoral. Dispnível em: <<http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2020/Abril/presidente-do-tse-cria-grupo-de-trabalho-para-projetar-impactos-da-pandemia-na-realizacao-das-eleicoes-2020>>. Acesso: 27/4/2020.

Imagens da colagem (da esquerda para a direita do leitor, de cima para baixo):

1 – Jae C. Hon // AP.

2 – Rachel Moore // Unsplash.

3 – Luke Jones // Unsplash.

4 – Nathana Rebouças // Unsplash.

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