Episódio Dois: “Vermelho-sangue”

Aparentemente, Steward tornou-se um sobrenome assombrado a partir da matéria de “O Informante”. A situação não estava nada agradável para eles. E isso piorou significativamente naquela manhã.

De sua cozinha, os Steward podiam ver os fundos da casa e apenas isso, já que ela ficava no andar térreo voltada pra a horta. Para chegar até lá, era preciso descer as escadas e passar pela sala de estar que, naquele momento, tinha apenas as vidraças fechadas e disfarçadas pelas cortinas brancas muito finas que quebravam o forte de um sol que não aparecera naquela manhã. Então foi apenas graças ao acaso que eles perceberam uma movimentação estranha em frente à casa… Outra vez.

Melissa desceu as escadas como se sem vontade de tomar café, mas o que faria? Estava sem sono. E não, ela não era uma mulher de ficar rolando na cama ou estaqueada olhando alguma coisa pela janela de seu quarto. Isso era para outros, para ela não.

Os restos das homenagens ao seu filho já haviam sido limpos pela prefeitura, afinal de contas eram flores e cartazes e velas que estavam espalhados pela calçada, não em seu pátio. Então não havia motivos aparentes para estarem ali outra vez. Ao contrário do que ela esperava, estaqueou.

Sentia o frio corrimão de aço sob sua mão começar esquentar. Ficou parada por tempo demais. Não havia motivos para isso. Era apenas mais baderneiros, gente sem respeito ou consideração… E um flash.

Já era demais!

Verificou se seu roupão a protegia da indecência e rumou à porta da frente, decidida. Abriu-a e deu de cara com um pequeno grupo em frente à sua casa, analisando seu muro com expressões variadas. Algumas beiravam o horror, alguns pareciam trazer dó à face.

– Melissa… – um vizinho, Gheno, já idoso e sempre muito amigo dos Steward, acabava de chegar com um balde e uma vassoura de cerdas grossas na mão. Seu olhar era assustado. Ele também soube o que era estaquear-se naquela manhã.

– Seu Gheno… – ela o cumprimentou ao mesmo tempo em que lançou a pergunta. Melissa tinha o rosto travado numa carranca à la inquisidor esperando tragédia.

– Não saia, Melissa. Deixe que eu já dou jeito nisso… – e o velho começou a esfregar o muro, um tanto atrapalhado. Boa parte pelo constrangimento, outra parte pela tristeza, indignação e raiva visíveis naquela salada de frutas sentimentais que se transformou o velho Gheno. – Não é certo! Não é!

Seu resmungo deixou Melissa insegura, mas não menos decidida. Vagarosa, contudo sem parar, desceu os degraus que davam à calçada, olhou firme, dura, na verdade, para cada rosto ali presente para, então, olhar para seu próprio muro.

Estava em vermelho. Típico, como se quisessem imitar o sangue escorrendo. Eram garrafais, as letras.

“Richard foi só o primeiro”. E a assinatura: “MMC”.

– Deixe isto, seu Gheno. – Melissa pediu, fechando os olhos na tentativa de conter as lágrimas mal-educadas que insistiam em aparecer no momento mais inadequado.

Ainda de olhos fechados conseguiu ouvir o som de uma máquina de fotografia. Estaqueou. Outra vez. Virou-se e encarou o dono do aparelho, abrindo os olhos enquanto sentia as gotas quentes escorrem por sua face. Mais um clique.


Matias estava sentado próximo à sua janela, observando a fina camada de geada no gramado aos fundos da casa despedir-se de sua aventura atípica em meio ao verão. Sara, no outro quarto, estava deitada em sua cama analisando as redes sociais. Christopher, várias casas distante, também. Ambos sem o interesse necessário, ainda com o pensamento do que encontraram em frente às suas casas.

Foi por uma questão de poucos minutos. Quem sabe passaram-se vinte ou menos que isso. Teriam sido pegos ainda com cheiro do velho porão da igreja matriz caso não tivessem sido avisados pelo padre da situação iminente. Que descobertas estranhas, aliás. Que padre estranho!

Ainda agarradas às suas retinas as frases pichadas: “Não adiante se esconder!”, assinadas por “MMC”.

“Ameaça”. Uma palavra que saiu da boca do padre mais vezes que os três pudessem contar. Obviamente, nenhum deles contou aos donos das casas que já tinham visto tais frases, uma vez que ninguém os vira sair ou chegar. Precisavam manter segredo.

De repente, um som concentrou a atenção dos três quase que ao mesmo tempo. Era o som de portas de carro. Elas soaram ao fechar forte e decidido daquelas pessoas. Alguns homens e mulheres de uniforme escuro, roupas grossas e desenhadas para intimidar, assim como seus próprios rostos.

PAM! PAM! PAM!

Em seguida.

Eles haviam chegado. Era a Guarda Nacional.

Os sons de portas abrindo e fechando, junto dos cochichos perturbados dos Brothwell e Laster em casas separadas pareciam um o eco do outro. Havia tensão no ar, mesmo entre os que já esperavam aquela visita.

As batidas tinham um objetivo muito específico, como qualquer outra: levar alguém para intimidar e apavorar em um interrogatório na capital. Sob o mandado judicial, não haveria Cavalheiros de Sua Majestade que poderiam fazer qualquer coisa além de torcer o nariz arrogante em frente aos vizinhos intrometidos a gravar e fotografar a situação vexaminosa.

Assim, em dois carros diferentes, ambos pretos e com o emblema da Guarda encimado pela coroa à que serviam, os jovens amigos de Richard Steward foram levados para a capital nacional, seguidos de perto por seus pais aflitos.

– Bom dia! – o Delegado do Primeiro Distrito da Guarda Nacional saudou os três recém-chegados. Então se dirigiu àqueles que mais tarde descobriram chamarem-se Priscila Zuccha e Tomás Belizário. – Obrigado, Tenentes.

Eram os responsáveis pelas batidas.

Matias, Sara e Christopher foram encaminhados para uma antessala a poucos metros de onde entraram, então foram separados. Haveria uma sala já preparada.

Pouco depois, seus pais chegaram, mas, como era esperado, foram impedidos de aceder ao lugar onde os garotos se encontravam por já serem maiores de idade.

Matias sentia-se grato por não ter sido algemado. Seu medo era aparecer em alguma tela por aí desse jeito. Ou pior, ser visto assim por seus colegas de trabalho. Seria um desastre para ele que lidava com tradições tão diretamente.

Sentados, os três aguardaram enquanto cada um era chamado.


Já cuidei de limparem o que eles picharam. – Pedro Dunkle-Nacht informou Leonardo de Mattos por telefone.

“Não fosse essencial que você fizesse isso eu ia pedir que deixasse lá para que eles limpassem de quatro no chão.” Leonardo disse. Sua voz estava carregada de uma crueldade doentia e boba. Como uma criança a vingar-se da sacanagem de seu coleguinha do ensino fundamental.

– Hum. – Pedro resmungou. Havia algo em sua mente perturbando-o.

      “Que é?” o azedume na voz do amante do prefeito tornou-se tão visível quanto sua infantilidade anterior.

– Eu estou com uma sensação esquisita aqui, sabe… – ele conferiu se estava realmente só em seu gabinete. – O que mais você sabe sobre isso?

“Sobre as pinturas?” debochou. O silêncio de Pedro bastou como resposta. “Alguém precisa mexer as coisas para que o bolo fique bem misturado… Não adiante só bons ingredientes, meu bem.”

– Ninguém viu? – a insossa preocupação de Pedro mostrava que o “é claro que não” de Leonardo já era esperado. – Está bem. Tchau.

Leonardo poderia mandar quantos “é claro que não” que quisesse. Depois da noite em que Richard e Matias os viram na clareira, Pedro jamais confiou por completo em seu amante. Fosse antes disso, aquela segurança e poder o fariam desligar o telefone já dentro do banheiro.

– E agora, hein, Pedro? – o murmúrio saiu de sua própria boca. Três dedos de cada mão agarraram cada lado de sua boca para deixar sair o grito mudo de sua ansiedade. Respirou fundo, olhou para baixo e fitou o pedaço de estofado vermelho da cadeira que via entre suas pernas. – Idiota!

Ergueu sua cabeça e batucou em suas coxas.


Eles já haviam deposto.

Estavam, agora, na espera de algum retorno do delegado sem-vergonha. Agora, eram eles que estavam na expectativa de ouvir alguma coisa. Mas o encontro prévio com ele não fora agradável para ninguém. De maneira alguma.

– Sabemos que você estava lá, no local do crime e que viu quem atirou em Richard. – foi assim. De soco, sem introduções nem tranquilização, muito menos um “estou aqui para te ajudar”. – Tenha isso me mente sempre que for responder.

Esse início de conversa foi tenso e quase condenatório por si só.

– Dê-nos um bom motivo para não prendermos você agora mesmo por omissão de socorro e da verdade.

O pedido do delegado não foi bem um pedido. Foi quase uma acusação. Sem saber o motivo, cada um dos três sentiu-se plenamente culpado pelo ocorrido.

– Eu… – esse foi o início igual dos três para as respostas. – Não sei. Estava com medo, em choque, assustado.

– Eu nem entendi o que estava acontecendo. – Sara. – Quando vi, já estávamos parados lá havia um tempão… Eu realmente não sei o que nos fez ficar tão duros e congelados… Acho que foi o medo.

– De quê?

– Se o senhor realmente sabe que estávamos lá, sabe, também, que tinha uma pessoa armada que baleou nosso melhor amigo. – Christopher. Azedo e na defensiva.

– Então vocês viram que ele foi baleado.

– Foi a sua premissa. – Matias. Estava um pouco irritado.

– Você sabe que não prestar socorro é crime?

– Eu não sabia nem meu nome, delegado, que dirá um código de lei que eu nunca peguei na mão, nem li, nem ouvi falar, nem me ensinaram de qualquer maneira.

– Certamente a autoescola deve ter ensinado, faz parte do currículo!

– Eu não dirijo. – o rosto de Sara era quase ofendido.

– Quê? – o do delegado também.

– Meu pai dirige e eu moro em Alberion Valley, para que preciso de um carro? Eu não sei dirigir, mal sei abrir a porta de um carro pra entrar!

– Pra ser sincero a autoescola foi a última coisa que me passaria pela cabeça ao ver meu amigo cair com uma bala no peito. – Christopher.

– Então você viu onde foi o tiro. – não era uma pergunta.

– Não, eu… – por que havia pensado em algo tão específico? – Não sei. Imagino, sei lá.

– Estavam tão perto, mas não quiseram dizer quem deu o tiro. Por quê? – outra vez, parecia uma acusação, mais que uma pergunta.

– Quem disse que não quisemos? – Matias ergueu as sobrancelhas.

– Você.

Era uma conversa absurda.

– O que você realmente quer? – Christopher azedou quase de vez.

– A verdade. – o tom foi simplista, como se falasse o óbvio.

– Então procure isto. – recomendou Matias.

– É o que estou fazendo. – outra vez simplista seguida de zombaria. – Você poderia ajudar.

– Que absurdo!

– O que é absurdo?

– Não estamos envolvidos com a morte do Richard! – Sara estava afinando a voz. Estava prestes a chorar. De raiva. De indignação.

– Então prove. – ele não diminuiu a tensão sobre ela. Sobre nenhum.

– Sinto muito, delegado. – Christopher pareceu “vestir as calças”. – Eu coopero. Desde que você me prove que está disposto a investigar com seriedade, não essa situação vergonhosa.

– Vergonhosa? – não foi uma surpresa. Era uma fuga já esperada pelo delegado.

– Humilhante! – Matias.

– Humilhante?

– Chega! – Sara. – Daqui em diante, eu me calo.

– É agora que você pede um advogado? – o delegado pareceu ter alcançado seu objetivo.

Uma pequena vitória, talvez?

– Quem sabe um psiquiatra… – resmungou a garota, por fim.

– Um advogado será melhor.

Mas não é um advogado que os esperava quando tudo isso passa. Enquanto remoíam o corrido, surgiu um alguém desconhecido, vestindo um uniforme com o mesmo brasão encimado pela coroa, chamando-os. Uniam-se novamente, após horas separados em salas pequenas.

Definitivamente não era um advogado ou, se era, seria do Diabo.

– Senhor Prefeito? – resmungou Christopher.

Matias estava em choque visível, como se seu rosto tivesse sido refeito sem expressão alguma, em cera. Sara sorriu cinicamente.

– Boa tarde, rapazes! – Pedro Dunkle-Nacht saudou os três com um sorriso amigo. E falso. – Sei que a situação não é ideal para um encontro nosso, mas resolvi arriscar. Não poderia deixar vocês nessa situação sem apoio algum.

– Já temos nossos, pais, obrigado… – resmungou Matias. E completou: – Senhor Prefeito.

– Imagino que sim. – Pedro sorriu, como se não percebesse o sarcasmo do rapaz. – Sorte a de vocês, sabem? Na idade de vocês eu já não tinha os meus. Enfim. Aproveitei a estadia de vocês aqui para comunicar algumas coisas de maneira discreta.

– Que coisas? – Chris perguntou.

– Sobre os desagradáveis recados que vocês receberam hoje pela manhã. – o prefeito ergueu as sobrancelhas e torceu a boca em sinal desgosto. – Aquela maldade tosca.

– Hum… – foi a resposta uníssona.

Será que ele realmente não imaginava que eles sabiam o que ele tinha feito, ou no que estava envolvido? De qualquer forma, nenhum deles o iria acusar ali.

– A equipe de higienização da prefeitura fez um trabalho maravilhoso, modéstia à parte. – Pedro sorriu muito contente. – Os muros e as calçadas de vocês e dos Steward estão limpos e pintados novamente. E na cor que tinham antes…!

– Dos Steward?! – Matias sibilou. – O que havia na casa deles? O que foi que escreveram, hein?!

Calma, Matias! – Sara chiou e agarrou o braço de seu irmão com toda a força que tinha. Encarou-o nos olhos. – Eu sei. Eu entendo. Mas, calma!

– Eu também, Matias. – Pedro parecia realmente triste e indignado ao mesmo tempo. – Isso não se faz. Não se faz mesmo! Escrever aquelas coisas horríveis bem no muro de pais enlutados pela morte do único filho morto em uma armadilha dessas… Deus é Pai!

– E o que escreveram, Senhor Prefeito? – Christopher parecia não variar de expressão. Seu rosto era um mar sereno, como se nada suspeitasse em relação ao prefeito. Quase como se confiasse nele, de verdade.

– Ah! – o balançar de cabeça, o fechar de olhos e o estremecer de corpo seguido de um discreto distanciamento da mesa transmitiram o repugno ensaiado de Pedro. – Uma coisa que não se faz. Horroroso!

Depois de um breve silêncio, como se avaliasse os três ou se esperasse mais pedidos, ele continuou.

– Não gostaria nem de dizer isso a vocês visto que eram amigos, mas… – o suspiro indicava ter sido derrotado por uma força maior. – Enfim! Vocês saberão na mesa. Está por tudo, esse lixo absurdo! Eles escreveram “Richard não foi o primeiro”. É o que eu sei, ao menos o que pude ler no “O Informante”… Muito embora já não represente jornalismo de qualidade aquele negócio.

Os três ficaram como se mortos. Um silêncio mortal. Um clima fúnebre, velavam alguém, certamente. Quem seria? O constrangimento, o desconforto, então:

– Muito bem! – Pedro falou, esboçando um sorriso que havia murchado nos instantes anteriores. Pôs-se em pé e olhou ainda mais sorridente para eles. – Podem contar comigo. Vocês não fazem ideia do quanto quero ajudar.

E, de fato, eles não faziam ideia. Ninguém sabia. Talvez, nem mesmo Pedro.


Vinte e poucos anos, quem sabe. Essa deveria ser a idade daquele rapaz parado à janela, metido entre algumas cortinas finas que o escondiam da mira furiosa da multidão lá fora, do lado de lá das grossas grades. Era evidente que aquilo o incomodava, mas, em particular, ali havia algo mais. Lembrava-o de si mesmo, por algum motivo. Talvez fosse a coroa ensanguentada.

– Vossa Majestade.

Virou-se para quem o chamava.

– Vicente! – havia um alívio naquela voz um tanto estrangulada. – Que bom que apareceu!

– O senhor me chamou.

Era uma mistura. Não se podia dizer se era uma pergunta ou uma informação. Será que duvidava também da sua capacidade intelectual? Eduardo não gostou da ideia. Pestanejou e seguiu pelo cômodo escuro.

– Venha comigo, por favor.

E caminharam brevemente, o suficiente para que saíssem das vistas das janelas, adentrando um cômodo bem iluminado. Era a sala em que seu tio, Carlos II, costuma reunir-se para discutir com a Chefia de Governo. Era mais aos fundos do palácio em relação ao próprio gabinete do Rei o que, nas atuais circunstâncias, era uma decisão sábia.

– Vicente. – Eduardo colocou-se em uma das poltronas bem estofadas e indicou outra defronte para Vicente.

– Sim, senhor. – Vicente notou. Ele ainda parecia desconfortável, como se ainda não sentisse a coroa bem assentada em sua cabeça. Era compreensível, até certo ponto, ainda mais naquela noite.

– Preciso ser direto… – mas não sabia como. Juntava as mãos e as esfregava à altura do peito. Depois de um tempo, continuou: – Eu preciso entender o que está acontecendo e o motivo do tumulto lá fora. Não entendo o porquê tem uma foto de um cara morto com uma coroa de sangue bem em frente à minha casa.

Então encarou Vicente suplicante, quase desesperado.

– Eu não matei ninguém, Vicente… Nem mandei matar! – as mãos espalmadas apresentavam a confusão.

– Ah, sim. – um suspiro e olhar cansado e Vicente seguiu a explicação que esperava ter de dar mais cedo ou mais tarde. – Não se trata bem do senhor, especificamente. Não é com o senhor.

– Então por que aqui em frente do palácio?

– Porque trata-se daquilo que o senhor faz. – e Vicente inclinou-se discretamente em direção ao rei. – O senhor é o Soberano deste país. Mas não foi eleito e nem se candidatou para isso. O senhor simplesmente nasceu no lugar e hora certos para cumprir esta missão.

– É verdade! Eu que o diga! – seu suspiro refletia a tensão de pouco tempo antes, quando tudo virou em sua vida e no país. – Mas, num geral, o povo me apoia! – ele sabia disso. Pesquisas foram feitas e ele estava em alta. Mais de setenta por cento das pessoas de seu país o apoiavam. – O que estas pessoas esperam?

– Que o senhor as escute e conceda o pedido que elas tem: conceda parte das terras de seu reino para elas formarem um novo país e, em seguida, acabe com a coroa. Simples assim, Vossa Majestade.

A verdade foi nua e crua. Simples assim. Como ele disse. O silêncio que se passou foi necessário para assimilação.

– Alguma coisa precisa ser feita! – e o rei ergueu-se outra vez.


Alberion Valley sussurrava os acontecimentos do dia: em três casas diferentes surgiram ameaças em vermelho-sangue; Christopher Laster, Matias e Sara Brothwell levados à delegacia de Aurora; o prefeito foi flagrado saindo da mesma delegacia; um protesto na capital em frente ao palácio do Rei levava a cara de Richard Steward com uma coroa ensanguentada à cabeça.

– Alguma coisa precisa ser feita! – Melissa rosnava. – É muita coisa, Inácio!

– Eu que o diga, Melissa! – ela ter saído sozinha àquela manhã ainda era difícil para Inácio engolir.

– Mas, o quê? – ela parecia agonizar andando de um lado para o outro daquela cozinha ainda iluminada pela luz do resto do dia.

– Já fomos à delegacia, o que mais podemos fazer? – ele perguntou, seriamente preocupado com a sanidade de sua esposa. Estaria entrando em parafuso após a morte do filho único?

– Sempre existe alguma coisa que se pode fazer! – ela parou e encarou seu marido sentado atrás do balcão da cozinha. Ao iluminar-se seu rosto, tornou-se obscuro o de Inácio.

– Quê? – ele sabia: vinha alguma coisa séria.

– Eu sei o que fazer, amor.

Ela usou “amor”. Isso era pesado, um sinal claro de que Inácio teria um desafio enorme pela frente.

– Hum. – ele respondeu. Ombros encolhidos.


Imagens de destaque: Monica Galentin / Unsplash.

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