Um sol de matar!

Ele era preto. E, sob aquele sol, isso era um problema: ele esquentaria ainda mais.

Na sua linguagem, dava sinais de que queria sombra e água fresca, com certeza.

Mas, pouca atenção lhe era dada.

Ele grunhiu, gemeu, se contorceu um pouquinho, fez alguns gestos, mas, ainda, pouca atenção lhe era dada.

Então, decidiu-se: se não bastasse o amor, conquistaria pelo encher de saco!

O som saía de sua garganta como se testando os ouvidos de quem o cercava. Havia sido colocado – bem dizer jogado – ali fora para tomar banho de sol porque ele precisava, afinal, estava doente. Precisava de sol, mas não cozinharia sob seu calor. Fazia um século estava debaixo daquela luz impertinente e daquele calor que fazia seu suor escorrer e penetrar suas feridas que doíam em contato com seu próprio sal.

Era verdade que havia tomado banho no dia anterior, mas, pouco ou nada adiantava. Bastavam algumas coçadas na pele ferida e o cheiro já tomava conta. Talvez não fosse cena chamá-lo de leproso, pois, pelo tratamento, certamente podia sentir-se como um. “Ora, banho com shampoo especial!”, ele resmungava para si próprio.

Seu gemido saía mais alto e mais alto e mais alto até que, de repente:

Iago! – uma voz feminina, nada delicada, mas, isto sim, irritada, foi dirigida a ele. Havia alcançado seu objetivo primeiro. Mas a missão não estava ainda completa. Precisava fazê-la entender seu resmungo.

Ele não sabia falar, caso não tenha percebido isso. Mas sabia se mexer.

Ah! Que tortura! Sair daquela cama, com aquelas coisas que coçavam e aqueles passos que deveriam ser dados… tudo muuuito chato! E desgastante também.

Era melhor quando o outro criado o carregava. Na cama mesmo, para este ou aquele canto, com mais ou menos sol, mais ou menos vento, conforme seu resmungo.

Enfim! Precisava fazer aquela criatura entender seu chororô de uma vez, para que não se desgastasse demais.

Corria de um lado para o outro, apontava para sua cama banhada pelo sol tirano e, na verdade, até muito próxima do barulho daquela mulher que precisava… Arrrg! Trabalhar!

Um problema que não era dele, definitivamente. Iago bufava, como se a medida já devesse ter sido cumprida. E, ao seu entender, deveria mesmo.

– O que é, bicho chato?! – ela rosnou novamente.

Ora, bolas! E isso era jeito de lidar com um lorde ancião como ele? Jamais precisara escutar isso de sua criada anterior. Aliás… Onde estava a criada anterior? Enfim, isso não importava naquele momento. Sua cama estava à espera de uma nova sombra! Depois haveria de acertar-se com a outra criada…

Mais resmungos, sua paciência estava esgotando e ele já não sabia mais para onde correr, como apontar, como se mexer, dançar, sacudir seu traseiro, empinar sua cabeça para que aquela mulher se desafogasse daquela overdose de trabalho em madeira e saísse de cima daquele negócio que jogava uma poeirama plebeia para todos os lados, olhasse para ele e cumprisse com sua vocação natural: mudar a maldita cama de lugar!

Não aguentou mais! Seu choro, seu gemido, nada parecia funcionar, então…

– Whoaaaa! – foi isso.

Uma tentativa de fala? Talvez. Uma reclamação nível máximo daquele serzinho folgado e irritadiço? Com certeza.

– Pelo amor de Deus, criatura! O que você quer agora? – o azedume da ousada criada também era sensível. – Nunca tive de cuidar de um tão folgado!

“Tive de cuidar”. Ela mesma reconhecia que era sua criada. Então, raios, por qual razão aquela pouca boa vontade? “Vamos!”, ele resmungou, daquele jeito.

– Ah, tá!

Amém! Aleluia! Finalmente ela entendeu! Limpou suas mãos e, sem pressa alguma, moveu-se a ajeitar a cama dele sob uma sombra.

– Tá bom, Iago. Tá bom! – ela reconheceu que a reclamação era justa. – Está aqui sua cama, senhor. Arrumadinha. Do jeitinho que você gosta.

E estava mesmo. Agora sim. Gostosa, longe daquele sol nojento, quente demais. Jogou-se ali, aliviado por poder descansar do tremendo esforço empenhado em sua necessidade extrema.

– Credo! – a criada resmungou, rindo.

Iago não sabia qual a graça. Fungou, empinou o nariz, fechou a cara, virou a cabeça com desprezo e voltou à sua meditação matinal. Dormiu. E roncou. Roncou como se fosse gente.

– Nunca vi um cachorro tão cheio de barda! – ela concluiu, voltando à sua lixadeira, depois de admirar o cão idoso e esnobe, deixando-o em seu canto. – Ao menos ficou quieto. Querido!

Riu e ligou a lixadeira. Mais meia manhã pela frente. E mais uns três pitis do velho cachorro chamado Iago.

Foto: Matthew Henry // Unsplash.

Foto em destaque: Andrey Grinkevich // Unsplash.

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