O grito da coruja

Um guincho horrendo seguido de pancadas surdas ao lado da parede de seu quarto a acordaram.

“Amor!” ela chamou. Suas mãos apoiadas no colchão enquanto seu tronco tentava desesperadamente colocar-se ereto. Os olhos estavam arregalados e uma mão tateava, atrapalhada, um móvel logo ao lado da cama. Finalmente, achou os óculos e vestiu-os sedenta para que pudesse escutar adequadamente. Sim. Isso mesmo.

Mais algumas pancadas bem ao lado de sua parede.

“Eh?” ele resmungou. A cabeça enfiada embaixo das cobertas não lhe concediam grande coragem para sair do quentinho.

“Levanta, homem!” com um tapa, ela xingou. Os baques na parede não diminuíam.

“Quê?!” ele se sentava, sentindo o corpo balançar debilitado pelo torpor do sono.

“Fala baixo, criatura!” parecia que ele não conseguia fazer surtir efeitos com suas falas e seu tom de emergência. “Ouve! Tem um barulho ali fora.”

O barulho parou. Deve que foram ouvidos.

“Hum.” Ele juntou as sobrancelhas e tateou no móvel ao seu lado da cama. Eram quatro e vinte da manhã. “Quem, a essa hora?”

“Exatamente!” com sua respiração forte, ela deixou a cama, enrolando-se em um roupão rosa vibrante.

“Espera, amor!” e lá se ia ele atrás daquela inconsequente.

Outro guincho macabro e um casal paralisado à entrada de seu quarto. Se encararam. Um dedo indicador em frente aos lábios.

Pé por pé, desciam uma escada. Como poderia? Ao lado de seu quarto? No segundo andar?!

“Será que escalaram uma escada?” ele resmungou. Os olhos arregalados e frenéticos denunciavam seu medo. “E se estiverem armados?”

“Meu Deus!” ela colocou a mão na testa. “A arma está lá em cima!”

“Eu busco.” E ele subiu num só movimento. Ela ficou olhando indignada por ser abandonada no meio da escada.

“Frouxo!” resmungou sozinha. E uma pancada numa janela logo ao lado. “AHHH!”

“O que foi?” as precauções foram jogadas de lado. Arremessadas, chutadas, não colocadas. Catapultadas. “Amor, eu to descendo!”

E, num instante, outra vez, e ele estava li, vermelho, com uma arma na mão, apontando para o teto. Ela olhava pela janela, furiosa com o criminoso que acabara de ver caindo do seu telhado.

“O que foi?” ele perguntou.

“Eu…” ela tinha uma mão no peito, um pescoço muito vermelho e olhos furiosos semicerrados. “Aquele filho de uma…!”

“Onde?” ele apontou a sua arma para baixo, em direção ao primeiro andar, dentro da casa. Uma veia latejou em seu pescoço e um zumbido chegou aos seus ouvidos. Sua espinha pareceu enrijecer. Um espiral de frio subiu por seu tronco.

“Ai! Ele bateu aqui na janela, o desgraçado.” E apontou com o polegar para a janela ao lado dela.

“Aqui?!” prontamente escondeu-o homem, ao lado de sua esposa, olhando para ela indignado. “E só me avisa agora? Eu podia ter levado um tiro ou coisa pior!”

“Não, não ia.” Um olhar frio e quase de desprezo o encarou de canto de olho. “A outra já foi voando atrás dele.”

“Atrás dele? Voando?” os olhos pareceram ainda maior. “Ela?Ela quem?”

Então, às quatro e meia da manhã, uma risada preencheu a escada e uma mulher falou entre risos para seu marido.

“A coruja, amor.” Ela se dobrou, apoiando as mãos nos joelhos, ainda escorada na parede.

“Que coruja?!” embora ainda não fosse o suficiente para que ele baixasse a arma, bastou para que começasse a sentir-se um idiota.

“A que queria o zorrilho, é claro! Que outra seria?” enquanto mais risadas soavam pela casa.

“Zorrilho?!” o espiral de frio pareceu fazer o caminho contrário, atravessando suas costas e descendo pelo seu estômago até atingir a bexiga. “Ah! Esses bichos!”

“Sim.” Ela ainda ria boba. “Amor?”

“Quê?” ele já conseguia respirar mais leve.

“Você precisa urgentemente de um pijama novo.”

Ele olhou assustado para baixo. Teria se mijado? “Por quê?”

“Porque seria horrível se um bandido te visse com esse trapo velho!”

“Ah! Vamos dormir, que eu estou congelando!”

“Sim. Só me deixe ir ao banheiro antes. Acho que eu sujei o meu pijama com o susto daquele desgraçado!”

Eles recém haviam se virado e tudo mudou. De repente, outro barulho chamou a atenção do casal. Como se alguém quisesse molhar a janela com a água de uma mangueira, a vítima do ataque mirou certeiramente e encharcou a janela da escadaria com seu mais puro perfume urinado.

“ARRRGGG” aquelas contorções nos dois estômagos torciam os dois inteiros. Inesperadamente, nenhum calibre parecia ter força suficiente para combater aquele inimigo terrível.

“Que fedor!” ele conseguiu deixar escapar antes que o vômito tomasse a frente. Ela procurou por ele e, a tapas e empurrões, indicou que alguém precisaria dar um jeito naquele cheiro.

Assim, às quatro e meia da manhã, havia um homem de pijama fino e furado, tremendo inteiro, com uma mangueira mirando a janela de sua escada enquanto o pobre cidadão se contorcia e procurava manter seu nariz e boca fechados.

Ao lado dele, uma mulher também tapava a boca e fazia sinais com uma das mãos e caretas visíveis apenas pelos olhos lacrimejados e sobrancelhas dançantes.

Uma linda história de amor.

Foto: Bryan Padron / Unsplash.

Foto de destaque: Zdeněk Macháček / Unsplash.

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