Episódio Seis: “A convite do Rei”

Havia pouco tempo que ele chegara ali, mas já era mais que o suficiente para saber quando ele enfrentava alguma questão complicada. De temperamento inconstante, o garoto enlutado que viu cair sobre sua cabeça a coroa do Reino agora andava perdido de um lado para o outro em seu gabinete. Estava furioso. E com razão.
― Eu não entendo… O que… O que está acontecendo neste país… ― e então olhou para a sua mãe. ― É tudo tão estranho, mãe!
― Vossa Majestade. ― chamou outra voz conhecida. ― Vicente chegou.
Eduardo resumiu-se a um gesto impaciente de mãos para mandar que Vicente entrasse.
― O que foi isso agora, Vicente? ― e ergueu as mãos em sinal de impotência.
― Vossa Majestade… ― Vicente parou de falar quando notou a presença de Letícia, então dirigiu-se a ela. ― Vossa Alteza Real.
― Olá, Vicente. ― ela saudou, com um sorriso cúmplice no rosto. O Reino precisa de você, mais uma vez.
― Eu imagino que sim. ― o tom contido de sua voz arrastou-se como um lembrete de perigo. ― Por acaso tem a ver com o que vi no caminho para cá?
― Se tem a ver… ― resmungou o Rei. ― Tem, Vicente.
― Pois, bem. ― Vicente mostrou as palmas de suas mãos. ― Eu estou aqui, senhor.
― Eu quero saber quem foi que fez isso e como um prefeito deste país foi parar em um hospital por ser gay, diabos! ― Eduardo explodiu.
Por um momento, parecia que o lugar havia sido congelado no tempo. Então, quando Vicente estava prestes a falar, o Rei complementou:
― Eu quase consigo ver daqui aquela foto… ― e sentou-se em sua cadeira, deixando suas mãos baterem em seu colo, procurando, em seguida, sua testa e seus cabelos. ― Por que essas coisas estão acontecendo justamente agora, Vicente?
― Senhor. ― Vicente falou, assim que percebeu que o Rei não abriria mais a boca. ― A Guarda Nacional pode investigar isso. Não cabe a este gabinete diretamente este tipo de questão.
― Vicente… ― Eduardo ergueu a cabeça avermelhada pelo sangue que subia. ― O homem foi parar no hospital por causa de uma foto que colocaram praticamente no meu jardim um dia antes de um atentado na fronteira!
― Sim, Vossa Majestade. No entanto, até mesmo o senhor tem limites que o prendem. E os limites de seu jardim são apenas uma parte disso tudo. ― ponderou Vicente.
― O que eu faço? Chamo a Guarda Nacional? ― Eduardo encarou seu conselheiro à beira do desespero.
― Na verdade, senhor… ― Vicente encolheu os ombros, escolhendo bem as palavras. ― Acredito que tenho uma possibilidade que será ainda mais eficiente que a Guarda Nacional.
― Quem? ― o rosto de rei mudou. De desespero, passou a sustentar insegurança.
― Uma juíza e um padre. ― e Vicente começava a descortinar a real situação.
― Quê? ― repentinamente, a irritação tornou-se a descrição do rei outra vez. ― O que um padre e uma juíza tem que ver com isso?
― Só poderemos descobrir quando eles estiverem aqui. ― embora sua voz tenha soado firme, poucas vezes Vicente este diante do medo de ver tudo desandar.
E um incômodo silêncio tomou o gabinete. Eduardo olhou para sua mãe, impassível como se fosse de pedra. Olhou para Vicente outra vez e juntou suas sobrancelhas, até que tivesse decidido.
― Quanto tempo para que eles estejam aqui? ― ele finalmente rompeu o silêncio.
Com um pigarro, Letícia, chamando a atenção dos dois.
― Que foi, mãe? ― o rei perguntou, inclusive com o olhar.
― Na verdade… ― e ela abriu um sorriso que poderia ser interpretada como maroto. ― Eles já estão à sua espera.
Os três se encararam com um visível constrangimento. Quando Eduardo estava prestes a abrir a boca, o telefone em sua mesa chamou.
― Então? ― o rei falou, num tom ansioso, transformando radicalmente em seguida. ― Obrigado.
― Alguma resposta? ― Letícia perguntou, séria. Quase punha-se em pé em sua cadeira, tão reta sua coluna estava.
― A Argentina não se envolveu com os assuntos do atentado na fronteira. ― Eduardo parecia mais tranquilo e distraído.
Todos, inclusive Vicente, permitiram que um suspiro aliviado saísse de seus corpos estressados. Um problema a menos. Então, Letícia chamou-os à realidade latente.
― Filho? ― ela encarregou-se de chamá-lo ao problema imediato. ― Sibila e José tem muito o que te contar. Quando posso chamá-los?
― Sim. ― Eduardo continuava encarando sua mãe, desta vez, pensativo, até que se decidisse. ― Já.
― Serão chamados, então. ― Letícia inclinou sua cabeça com um sorriso simples, pôs-se em pé, fez a reverência e saiu da sala, deixando Vicente e Eduardo a sós.
― Por que motivo vocês dois se olhavam daquele jeito? ― Eduardo não esperou até que Vicente encontrasse uma forma sorrateira de escapar.
― Ah… ― qualquer um que encarasse Vicente perceberia que havia um mundo de confusão em seus olhos. ― Na verdade… Na verdade, eu ainda não tenho muito certeza do que acabou de acontecer, Vossa Majestade.
― Como assim? ― Eduardo intimou.
― Sinceramente, eu não estou muito certo de que tenha entendido o que Sua Alteza fez. ― então Vicente alteou as sobrancelhas surpreso. ― E nem de onde ela conhece estes meus dois amigos ou o que sabe que eu mesmo não sei sobre eles. E isso me pareceu bastante coisa para ficar impressionado com Sua Alteza.
― Hum. ― não havia certeza naquele resmungo do rei. ― À tarde saberemos.
― Sim, senhor. ― Vicente concordou e, em seguida, guiou a conversa para outro rumo. ― Se Vossa Majestade achar prudente, o assunto da fronteira ainda não foi encerrado.
― Sim. ― Eduardo mudou por completo seu rosto, outra vez. ― Por falar, nisso, alguns parlamentares parecem querer um pronunciamento meu sobre isso.
E encarou Vicente, outra vez pedindo socorro.
Não tão distante do gabinete de Eduardo, o telefone chamou e ela atendeu.
― Sim. ― ela dispensou um olhar cheio de significado ao padre que estava quase em frente. ― Estaremos esperando.
― Do Palácio, Sibila? ― ele perguntou.
― Sim, padre. ― e sorriu. ― Está na hora de contarmos ao Rei o que já sabemos.
― Está. ― José sorriu, também.


Em um prédio de frente para uma praça no centro de Aurora, o outdoor com a imagem de Pedro agarrado ao seu homem ainda causava cochichos e risadinhas aos transeuntes. Imediatamente em frente à cena, em um dos bancos oferecidos pela praça, sentavam-se uma mulher e um homem.
― Espero que dê certo, Sibila. ― o homem rompeu o silêncio. Ele era visivelmente mais velho que ela.
― O que te deixa com medo de que não vá dar? ― Sibila devolveu a pergunta sem deixar de olhar para a sua obra.
― O Rei. ― e José de Via-Fuore suspirou pesadamente. ― Ele é tão jovem e parece ser tão imaturo.
― Como se isso fosse um problema, de fato. ― ela respondeu, rindo. ― Com Letícia norteando Eduardo, as coisas vão se acertar.Se ele falhar… Ela não vai falhar.
― Eu espero que não. ― José respondeu. ― Até por que, se ela falha conosco, falha com ele e com o reino.
― Temos muita coisa a nosso favor, padre. ― a frase carregava confiança e expectativa verdadeiras.
― Não vá com muita sede ao pote. ― o padre ponderou, alterando o tom da voz. ― Ele foi assim e veja onde estamos agora.
― Longe de qualquer possibilidade de acordo pacífico que dê fim ao conflito. ― ela completou. Sabia onde José queria chegar. ― Eu entendo, padre. Sei que parece que não temos um rei de verdade, mas…
― Mas precisamos confiar. ― desta vele completou. ― Eu sei. E te entendo. E apoio, na verdade. Você sabe disso…
― Eu sei, sim. ― ela sorriu timidamente.
Um carro prateado sem qualquer indicação de a quem pertencia parou quase imediatamente em frente a eles, mas Sibila sabia de quem se tratava.
― Vamos. ― ela disse, finalmente olhando para o padre que também já tinha tirado seu olhar da cena bruta do outdoor. ― Eles chegaram.
― Que chique. ― o padre zombou enquanto encaminhavam-se para entrar no carro que os levaria à soleira de Sua Majestade.


O delegado com quem se haviam encontrado Christopher, Matias e Sara estava em sua sala sentado, assinando alguns papéis, apressado. Em seguida chamou:
― Júlio! ― ele gritou para um rapaz que o atendeu prontamente.
― Diga. ― o rapaz chegou à sala.
― Dá jeito nisso e encaminhe o pessoal para a execução. ― e entregou ao rapaz a folha que recém assinou.
Com a folha em mãos, Júnior prontamente encaminhou-se a executar a tarefa que lhe havia sido confiada. Percebendo de qual caso se tratava, olhou surpreso para o delegado, parando o no meio do caminho.
― Não entendeu alguma coisa? ― o delegado perguntou desdenhando. Em seguida, gesticulando com as mãos, complementou. ― Eu tenho pressa, garoto. Ande logo com isso!
Recebido o recado, Júlio seguiu para a sua mesa e executou a ordem de seu superior, perguntando-se até que ponto ele mesmo não teria sido tragado para dentro de uma armação.
Pouco depois, uma comitiva de três carros da Guarda Nacional partiu para cumprir o mandado de prisão preventiva de Christopher, Matias e Sara a toda a velocidade de Aurora em direção a Alberion Valley.


Quando a conversa com o padre no dia anterior terminou, os membros do “Discípulos de Emaús” passaram a saber boa parte das investigações que envolviam o outro lado da guerra civil.
― Eu estou nervoso com isso! ― reclamou Matias, percebendo que sua tensão era partilhada por sua irmã.
― Ele ainda não mandaram nada. ― Sara falava como se querendo tranquilizar Matias. Mesmo assim, o rigor visível de seu pescoço desmentia sua consciência. ― Eles foram bem claros: só vão mandar alguma coisa quando houver algo para contar. Isso quer dizer que provavelmente nada demais aconteceu ainda.
Eles não faziam ideia de que, a poucos quilômetros dali um grupo de policiais encaminhava-se para efetuar uma prisão criminosa tendo-os por alvo.
Na rua Prinz, Eugênio foi pego de sobressalto. Saltou de sua cadeira, de onde analisava as imagens que recebera sobre o caso de Richard Steward e correu com um celular na mão, fazendo uma chamada.
― Amor, eles estão a caminho! ― disparou para Marcelina, que já estava pronta, no outro lado da linha.
― Eu vi. ― ela respondeu, enquanto colocava um casaco, toda sem jeito, com um celular em uma mão e um molho de chaves na outra.― Eu estou a caminho.
― Ótimo. ― Eugênio desligou o telefone já saindo de casa e enfiou o aparelho no bolso de sua calça junto das chaves da casa recém trancada. Pegou a chave do carro e desativou o alarme, então ele vacilou.
Alguma coisa o acertou no ombro direto. Sua chave voou de sua mão e o estampido foi ouvido. Foi tudo tão rápido que ele sequer pôde entender o que acabara de acontecer. Mais um golpe, um movimento rápido de sua cabeça para trás e Eugênio Rodrigues desmontou, inerte, caído no chão. Alvejado no ombro e morto por um tiro certeiro em sua testa.
Um senhor que fazia seu turno diário de varanda viu tudo. Só não pôde enxergar de onde viera o tiro. Assustado, pôs-se em pé, soltou um grunhido e chamou por socorro. Entrou em casa e dali não saiu até que o pronto socorro chegasse.
Marcelina, sem saber o que havia acontecido a seu namorado, seguiu com o plano. Em poucos instantes estava diante da porta da casa de Matias e de Sara, carregando-os para dentro do seu carro.


Imagem de destaque: Mads Schmidt Rasmussen / Unsplash.

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