A luz no abacateiro

Era uma vez, numa cidadezinha minúscula, uma coisa brilhando entre os galhos de um abacateiro. Aquela coisa diferente, cujo brilho débil apenas conseguia iluminar pouco mais que alguns centímetros ao seu redor, não passou despercebida aos olhos de um pequeno rapazinho, uns sete ou oito anos, que saía à soleira de uma casa de madeira, com cara emburrada e testa vincada, como se fosse um executivo frustrado após um grande e decidido “não” numa reunião crucial.

Como previsto, o garoto percebeu aquela luz. Aquele ponto pulsante que dava a impressão de flutuar dois centímetros distante de qualquer superfície. Ele, então, desfez o vinco na testa e deixou no passado a perturbação que o afligia para viver o momento da curiosidade que agora o deixava atônito.

Por suas veias, uma curiosidade mórbida percorria a toda velocidade, eriçando seus pelos e fazendo o corpo inteiro assumir uma nova forma de tato… interno. Porque ele sentia cada movimento dentro de seu corpo, sentia uma vibração curiosa, desafiadora, instigante, marota. Novamente, aliás. Ele sentia isso sempre que ficava de frente para o capitão do time de futebol, à iminência de pedir para bater o pênalti. Geralmente, ele demorava demais.

O que faria naquele momento?

Uma luz curiosa apontava desde aquele abacateiro, uma luz vibrante, cheia de vida e… e de possibilidades. Justo agora, quando acabara de receber um grandioso “NÃO”. Seria uma aventura? Um portal para outra dimensão, aquela onde os homens podem voar em grandes máquinas… Como chama mesmo? Naves! Naquilo lá. Ou andar apoiados em grandes cajados, vestir capas suntuosas e carregar um objeto valioso para um reino distante, desafiando os perigos de uma jornada audaciosa em terras estrangeiras e de gente menos… boa?

A luz brilhava e o garoto encarava. Ou a luz encarava e o garoto é quem olhava? Enfim. Detalhes, apenas. O tipo de pergunta que mereceria uma repreenda de imediato.

Aquela sensação sentida por dentro de seu corpo parecia querer abandoná-lo. Era o restinho daquele momento inquieto que precedia a resposta em definitivo. De repente, poderia a luz saber a proximidade da desistência de qualquer aventura da parte do rapaz, pois aquele pontinho brilhou mais forte. Lançava uma última súplica, um sinal do conhecimento da expectativa que gerava aquela negociação fina e íntima, tão discretamente mencionada apenas em um jeito de olhar e num brilho mais ou menos fraco.

Imitando a primeira onda após o estouro de uma barragem, que passa varrendo e destruindo, apenas para sumir quase tão rápido quando surge, o tato inverso sumiu. O último suspiro do garoto sonhador, ansioso e angustiado, no qual se foram as expectativas e sonhos de mais um passo decisivo deu uma resposta.

Num instante, a luz sumiu. E, naquele mesmo instante, o rapazinho se arrependeu. O vinco voltou à testa, a severidade voltou à face e o coração ardeu. “Não!”, ele gritou, desatando-se de seu lugar em frente a casa, patinando no ímpeto de alcançar o ponto certo onde a luz estivera e vê-la acender novamente, para reanimar sua esperança.

Uma mão num galho, outra mão no outro. Com um pé mais encima e outro mais embaixo, num esforço coletivo de seus membros, sob a guia de uma aguçada memória alimentada pela vontade de vencer, um garotinho agitou a noite dos cachorros da vizinhança ao trepar até a metade de um viçoso abacateiro de quinze metros de altura e da idade do mundo.

Haveria algo ali! Certamente que sim, mas, o quê? “Por favor, esteja aí! Por favor, não vai embora! Me espera, por favor!”, ele repetia, sem saber se apenas em pensamento ou mesmo da boca para o mundo. E, então, ele parou. Chegou ao lugar certo, onde ele a tinha visto brilhar pela última vez, aquela coisinha. Parou. Sem saber o motivo, apurou os ouvidos, tentou arregalar os olhos até perceber já o ter feito e permaneceu parado.

Ao lado de um galho, um lampejo deu a deixa e ele virou-se. Deu de cara com um bichinho de luz estranha a brilhar na bunda. Encarava-o, quase sem respirar. Tal estranheza causou o efeito, não houve como escapar do espanto. Sentindo-se vacilar, o garoto deixou sua mão marcar-se no relevo do galho enquanto o bicho se ia e sua esperança esmorecia. Não havia luz.

“Desce logo, Joaquim!” a voz grave do homem só não foi mais urgente que a da mulher. “Pelo amor de Deus, filho! Desce já daí, garoto!”. Vontade? Nenhuma. Mas, alguém precisa manter o protocolo infantil vigente. Pé após pé, mão seguida por mão, com mais dificuldade a descer que a subir, Joaquim sentiu os pés baterem o chão firme. Seu devido lugar.

“Eu sei que são bonitos, filho, mas são só vaga-lumes. Você não pode sair correndo atrás do primeiro que vê!” disse o homem, ignorando que, em menos de meio século, aqueles bichinhos estariam extintos. A expressão na cara do homem, Joaquim não viu, já tinha baixado a cabeça. Passou por ele, ergueu a cabeça novamente, encarou seu avô com brilho nos olhos, acometido pela constatação tão óbvia que quase deixou passar. “Mas, pai…” ele resmungou, sentindo-se quase apenas mais um eco no meio daquela algazarra, “Eu não estava atrás do vagalume. Aquela luz era outra”. E ficou encarando, esperançoso, os rostos de seu pai e seu avô, pegos de surpresa.

“Joaquim!” Sua avó o salvou e salvou os outros dois homens, sem que o mais jovem percebesse. “Certas coisas, eles não entendem. Mas eu sei do que você está falando. Eu também já vi ela, uma vez”, a mulher confiou o segredo ao neto. “E o que você fez?”, ele perguntou, prontamente. Ao que ela respondeu “Eu te conto mais tarde. Agora, finge que está aqui e tudo fica bem.”, sorrindo com uma chaleira na mão e um pano muito branco na outra.

Olhando pela janela da frente casa, na direção do abacateiro travesso, Joaquim a viu ali, brilhando outra vez, com uma intensidade marota. Engolido o ar do susto, o garoto encontrou a piscadela cúmplice de sua avó. Definitivamente, aquele abacateiro era o lar de um mistério.


Imagem de destaque: Zoltan Tasi / Unsplash.

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