Olhar distante

Passando perto de uma janela, com olhar um tanto perdido, um rapaz segurava uma mochila perigosamente desatento. Embora aquele par de olhos escuros apontassem para um aparente vazio ou algum ponto qualquer da acinzentada calçada quadriculada da estação rodoviária, havia muito o que ser visto por ele, talvez um chão mais vivo e colorido, resguardado em sua mente e em seu coração. Ainda recordava-se, permitia-se tal luxo: revisitava o passado inédito e, muito possivelmente, tela de uma arte irrepetível.

Agarrou a mochila com força, jogou-a sobre seus ombros e fez pouco caso quando do golpe da quina do laptop que trazia consigo. Seu corpo não sentia muito aquilo que o encostasse no momento. Assim como seus olhos, estava ocupado demais revivendo tudo o que protagonizou em algum tempo anterior. Isto sim era o que fazia sua pele arrepiar em plena ausência de ventos frios ou suspiros do minuano.

Seus lábios eram inúteis para expressar aquilo que uma pessoa sentiria visitando aquele lugar. Outra vez, aqueles nacos de carne ocupavam-se com outra coisa que não aquele ar levemente poluído pelas descargas de ônibus. Sorria, muito distante do aborrecimento do zum-zum agitado do pessoal à sua volta. Assim como sua testa, que nenhuma menção a vincos fez quando, por desastre de alguém, esbarrou num ombro impaciente de alguém visivelmente pouco amado. Pouco amado, mas incapaz carregá-lo ao desagrado rotineiro.

Contudo, limites existem. Embora possuidor de imaginação muito capaz, nem mesmo ela foi suficiente de mantê-lo a quilômetros e horas de distância da agitação da cidade que adotou quando esbarrou com seu maior inimigo. Sem avisos ou qualquer sutileza, quando percebeu, o rapaz espraguejava, cuspindo o sorriso abobalhado e cravando um vinco profundo em sua testa ao sentir entrar rasgando suas narinas aquele cheiro de asa desgraçado.

Realmente, estava em casa, outra vez.


Foto de destaque: Joshua Coleman / Unsplash.

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